Teorias da Notícia: o jornal como mapa de significados

Por Felipe Shikama

Se o jornalismo é capaz de estabelecer diversos parâmetros para a ordenação e compreensão do mundo em que vivemos, é por meio das notícias, fatos dados à existência pública e social, que esses “mapas de significados” são construídos.

Conforme Jorge Pedro Sousa (2002, p.17) “as notícias são um artefato construído para a interação de várias forças situadas ao nível das pessoas, do sistema social, da cultura, do meio físico e tecnológico e da história”.

Antes de nos debruçarmos em explicações que intentam responder “por que as notícias são como são” e “por que é que temos umas notícias e não outras”, é oportuno reconhecermos a visão, ainda fortalecida no meio social, calcada pelos valores positivistas – principalmente no campo jornalístico -, onde permanece viva a ideologia da objetividade e os procedimentos que dela resultam.

A teoria do espelho parte do suposto que o jornalismo é um retrato fiel da realidade, como descreve Traquina,

  • as notícias são perspectivadas como um espelho da realidade, já que, de acordo com as normas e técnicas profissionais, os jornalistas vistos como observadores neutros (ao contrário do que a fenomenologia ensina) apenas reproduziriam os acontecimentos e as idéias sob a forma da notícia. As notícias seriam então discursos centrados no referente, as noticias seriam como são porque a realidade assim o determinaria. (TRAQUINA, 1993, p.133)

Com base filosófica calcada no Positivismo, descende também dessa mesma corrente, e em todas as ciências humanas, a noção de objetividade. Essa noção, presente desde a pauta até a determinação dos espaços predispostos em um jornal, é entendida por Luiz Amaral como uma questão de honra, um ideal a ser atingido. Um exemplo prático desse conceito, ainda presente no jornalismo, pode ser visto nas freqüentes normalizações dos manuais de redação dos órgãos de imprensa. O Novo Manual de Redação da Folha de São Paulo (1996), por exemplo, mostra que o jornalista deve “ser o mais objetivo possível. Para relatar um fato com fidelidade, reproduzir a forma, as circunstâncias e as repercussões, o jornalista precisa encarar o fato com distanciamento e frieza”. Já o Manual de Redação e Estilo do Estadão (1997) determina que o jornalista “faça textos imparciais e objetivos. Não exponha opiniões, mas fatos, para que o leitor tire deles as próprias conclusões”.

Tal empirismo da objetividade enquanto cultura profissional do jornalismo, no entanto, pode ser colocado em questão considerando seu oposto: a subjetividade, afinal,

  • somos prisioneiros de sistemas de valores adquiridos. Os nossos atos são influenciados, quando não determinados, por nossa maneira própria de ver, sentir e reagir diante a ação dos agentes externos. O ser humano vê o mundo por meio de uma espécie de filtro e com base nessa apreciação constrói a sua realidade. (AMARAL, 1996, p.18)

Este conceito notícia = realidade proposto pela teoria do espelho, além de fazer parte da cultura jornalística para justificar a existência de uma categoria profissional dedicada a noticiar fatos é, também, uma forma de ganhar credibilidade da sociedade, evidenciando a ruptura do, então, panfletário “jornal-tribuna”. (SEABRA in MOTTA, 2002, p.36)

Embora a teoria do espelho, e intrinsecamente a objetividade, tenha seu mérito por legitimar e consolidar o papel da imprensa como a conhecemos, o que existe é a busca pela retratação fiel dos fatos, mas a prática plena dessa idéia é inatingível.

É a partir deste paradoxo que surgem as principais críticas a ela. A mais consistente delas está no argumento da impossibilidade prática da objetividade plena, pois o observador é, ao mesmo tempo, parte integrante do próprio objeto (sociedade), e, portanto, incapaz de realizar uma retratação fiel do fenômeno. O mesmo ocorre com a indubitável impossibilidade que a linguagem implica numa pretensa reprodução da realidade, pois se as notícias são construídas com base em linguagens o espelho, na melhor das hipóteses, é uma “representação da realidade”. (SOUSA, 1999, p.40)

Outro ponto que escancara a insuficiência e a fragilidade do “espelho” como teoria da notícia está no fato dela sequer ser capaz de responder a questão chave: o que é notícia. E ainda que toda notícia fosse o retrato fiel dos fatos, existiria um conflito no entendimento de como adequar tais fatos nos espaços predispostos do veículo, pois quais seriam os critérios capazes de determinar quais os fragmentos da realidade merecem ou não se tornarem públicos?

Para Amaral, que discutiu amplamente essa noção jornalística, a questão fundamental acerca da idéia da objetividade é saber se é possível, e em que grau, o ser humano descrever as coisas como elas realmente são. Independente da relação que temos com elas. É saber se, de fato, a objetividade é um caminho para a realidade. Pois, dado o valor da subjetividade, portanto, indissociável da realidade, parece não haver a “verdade” sobre determinado fato, mas sim enquadramentos e visões de mundo diante o fato.

Assim como a noção da objetividade, outro mito profissional, presente também na sociedade, contribuiu para a construção de uma nova teoria. A comum idéia de que o jornalista é um “lobo solitário” e que cabe exclusivamente a ele desempenhar o chamado “faro jornalístico” para determinar qual acontecimento é ou não merecedor de se tornar público é uma das premissas da teoria do gatekeeper.

Foi nesse sentido que David Manning White, em 1950, publicou no Journalism Quarterly o artigo O gatekeeper: uma análise de caso na seleção de notícias no qual buscou aplicar ao jornalismo a idéia que a informação tem de passar por diversos portões (gates)- áreas de decisão – “[...]onde os jornalistas (gatekeepers) selecionam ou não esta informação. Em caso positivo, a informação segue em frente; senão, interrompe-se sua progressão, o que significa que ela não virará notícia publicada”. (NEGRÃO, 2005, p.83).

Para White, “na posição de gatekeeper, o editor do jornal providencia (apesar de poder nunca estar consciente desse fato) para que a comunidade tenha como fato somente aqueles acontecimentos que o jornalista, como o representante da sua cultura, acredita serem verdade”. (WHITE in TRAQUINA 1999, p. 151)

A principal crítica a essa teoria, porém, se justifica pela redução do processo de seleção da notícia a um nível individual e por ignorar outros fatores macrossociológicos importantes, como destaca Sousa “[...] é preciso não esquecer que os jornalistas aparentam ser cada vez mais sensíveis uns aos outros e cada vez menos sintonizados com os pontos de vista de seus chefes, pelo que a ação social se sobreporia, aqui, à ação pessoal”. (SOUSA, 2002. p.44)

Apesar da limitação microssociológica a teoria da ação pessoal ou gatekeeper tem seu valor, pois, mesmo mesclada a outras forças (organizacional, social, cultural, etc.) a construção da notícia sempre tem algo pessoal de quem a produz.

Este processo altamente subjetivo e fortemente influenciado pelas experiências, valores e expectativas individuais não se restringe aos agentes noticiosos. As mesmas implicações ocorrem com as fontes,

  • [...] uma vez que são, de alguma forma, e quase sempre gatekeepers externos aos órgãos de comunicação social, são também, talvez, o factor externo aos media em que se pode atentar de imediato. Eles(as fontes) selecionam as informações que passam[...] aos jornalistas, quando estes não têm experiência directa do que ocorre. Consequentemente, podem mobilizar ou não a atenção do jornalista, co-determinando se um assunto será ou não agendado, e por consequência, se uma mensagem passará ou não pelo portão. (SOUSA, 2002, p.57)

Ao contrário dessa perspectiva pessoal, na qual a notícia depende do que as fontes dizem e da maneira como os jornalistas e seus chefes percebem, avaliam, selecionam e transformam a matéria-prima informativa em notícia, há teoria organizacional considera que o processo de construção daquilo que é tido como notícia não se restringe a esse campo restrito de decisões críticas. Ao contrário, para a teoria organizacional a notícia é resultado de processos de interação social que têm lugar dentro da empresa jornalística.

Um dos primeiros pesquisadores a sugerir que alguns jornalistas eram influenciados por “forças socializadoras” da organização foi Warren Breed, em 1955, no artigo Controle social da redação: uma análise funcional, no qual elenca seis fatores levados em conta no processo de socialização do repórter à organização para a qual trabalha: 1)autoridade institucional e sanções; 2) progressão na carreira profissional; 3) sentimento de estima e obrigação para com os seus superiores; 4)ausência de conflitos de lealdade; 5) prazer do exercício do jornalismo; e 6) o jornalismo como valor.

Na mesma perspectiva, também ligada a organização da empresa jornalística, está o processo de aprendizagem da política editorial, ou seja, o conjunto de valores pretensos a serem transmitidos aos leitores no qual define a decisão daquilo que será ou não notícia.

A aprendizagem da política editorial é um processo através do qual o novato descobre e interioriza os direitos e as obrigações do seu estatuto, bem como as suas normas e valores. Aprende a antever aquilo que se espera dele, a fim de obter recompensas e evitar penalidades. A orientação política é um elemento importante das normas da redação, e é aí que ele a apreende. (BREED, 1955 Apud TRAQUINA, 1999, p. 155).

Outro ponto fundamental na seleção e construção da notícia, e que transcende a ação individual, situa-se nas rotinas de produção da empresa jornalística. Essa “rotinização”, segundo Sousa, tende a uma atividade burocrática, pois cai na dependência dos canais de rotina, o que leva à “institucionalização” e “legitimação normalizada” de determinadas fontes, com atenção a figuras-públicas gerando, por seu turno, as seguintes conseqüências: a) utilização da mídia para difusão de conteúdo oriundo das agências de relações públicas, assessorias de imprensa, e outras organizações ou até determinadas pessoas; b) freqüente utilização de agências noticiosas, o que, por conseqüência, traz uma diminuição da pluralidade em favor da uniformidade; e c)impossibilidade de substituição das fontes institucionais e oficiais sob pena de parar o fluxo da matéria prima, que segundo Souza, se explica porque estas fontes têm capacidade para fornecer e regular informação autorizada e clara que poupa aos jornalistas os inconvenientes da investigação em profundidade e da recorrência a especialistas para “descodificação”. (SOUSA, 2002, p.52) Porém,

  • ao aceitarem as interpretações ‘oficiais’ dos acontecimentos, ao centrarem-se nas fontes de poder que se concentram nos círculos das elites dominantes e ao marginalizarem ou secundarizarem, deslegitimando, as vozes alternativas ou as dos cidadãos sem grande poder, os media serviriam uma hegemonia [...] e as notícias teriam marca dessa hegemonia” (SOUSA, 2002, p.76)

Outra força mais sutil, mas não menos importante, na construção da notícia ainda sob perspectiva organizacional se deve aos aspectos físicos e tecnológicos como o espaço disponível para sua publicação, número de repórteres, editores e outros agentes noticiosos pois, como diz Mac Dougall, “num determinado momento, bilhões de acontecimentos simultâneos ocorrem em todo o mundo [...] todas estas ocorrências são potencialmente notícias. Só o são no momento em que alguém que fornece notícias dá um relato dessas ocorrências”. (DOUGALL,1968, apud TRAQUINA, 1999, p. 224)

Por fim, outro aspecto determinante no processo noticioso da organização é o fator tempo. O deadline (horário de fechamento do jornal), segundo Sousa, força os jornalistas a parar de recolher informação e a apresentar a matéria, classificando, hierarquizando, selecionando e integrando apenas informações recolhidas até esses horários limites. “O fator tempo é algo que conforma a notícia e que transcende a ação pessoal do jornalista, encontrando expressão nos constrangimentos socio-organizacionais e socioeconômicos que condicionam o sistema jornalístico e na própria cultura profissional”. (SOUSA, 2002 p.47)

Considerando, portanto, que o jornalista não trabalha sozinho, mas em organizações e que a socialização desse o jornalista à redação passa pela observação, experiência, talvez até pela imitação; as ações exercidas pela organização, pelo meio físico e tecnológico não só interferem na construção das noticias como, em certo grau, também as determinam.

Mas outras forças sociais e ideológicas mais amplas são, também, capazes de selecionar e construir as notícias que temos. A década de 70, por exemplo, chamada nova fase dos estudos jornalísticos, marcada pelo interesse crescente de investigar a ideologia e estimulados por autores marxistas, passa a ter como dimensão central as “implicações políticas e sociais da atividade jornalística”. (TRAQUINA, 2005, vol. 1, p.161)

Essa nova era de investigações, tendo como principal objeto o papel social das notícias se deve, segundo a socióloga americana Gaye Tuchman (1978), ao alargamento do “âmbito de suas preocupações do nível do indivíduo, ao nível da organização, ao nível da comunidade profissional”. Essa comunidade profissional pode ser entendida como “campo jornalístico” na definição de Pierre Bourdieu (1998) – um sistema de relações sociais no qual tem lugar a criação como ato de comunicação. (TRAQUINA, 2005, vol. 2, p.19)

Considerando que as notícias não são determinadas apenas ao nível individual (implicações de valores e preconceitos dos jornalistas), nem ao nível interno (organização jornalística), e sim ao nível externo, a teoria da ação política passa ver a mídia como instrumento do jogo político, pois, “[...] na visão de esquerda, os media noticiosos passam a ser vistos como instrumentos que ajudam a manter o sistema capitalista; na versão de direita, servem como instrumentos que põem em causa o capitalismo”. (TRAQUINA. 2005, vol. 1. p.163)

Os estudos sob perspectiva da direita da ação política são defendidos por Kristol (1975) e Efron (1971) sob o argumento de que os meios noticiosos fazem parte de uma “nova classe” de burocratas e intelectuais que tem interesse em expandir sua atividade reguladora do Estado à custa das empresas privadas. Esta “nova classe” utilizaria a mídia na propagação de suas opiniões anti-capitalistas. Conforme elenca Robert Hackett:

  • 1)os jornalistas detêm o controle pessoal sobre o produto jornalístico; 2) os jornalistas estão dispostos a injetar as suas preferências políticas no conteúdo noticioso; 3) os jornalistas enquanto indivíduos têm valores políticos coerentes e, a longo prazo, estáveis. Nesta versão da teoria, os valores coletivos dos jornalistas são considerados substancialmente diferentes da população em geral. (HACKETT, 1984 apud TRAQUINA, 2005, vol 1 p. 164)

Já na visão da esquerda, o papel dos jornalistas é pouco relevante, pois se reduz à função de executante a serviço do capitalismo. Para Herman e Chomsky (1989), cinco fatores explicam a submissão do jornalismo aos interesses do sistema capitalista. São eles,

  • 1) estrutura de propriedade dos media. 2) a sua natureza capitalista, isto é, a procura do lucro e a importância da publicidade; 3) a dependência dos jornalistas nas fontes governamentais e das fontes do mundo empresarial; 4) as ações punitivas dos poderosos; e 5) a ideologia anti-comunista dominante entre a comunidade jornalística norte-americana. (TRAQUINA, vol 1, 2005, p.165)

Todavia, seja de esquerda ou de direita, essa teoria é determinista, pois defende a posição de que as notícias são distorções sistemáticas que servem os interesses políticos de certos atores sociais específicos que utilizam as notícias para projetar hegemonicamente sua visão de mundo.

Esse modelo, conforme Traquina, é “estático e unidimensional, pois reduz por completo o papel da ideologia profissional dos membros da comunidade jornalística a uma mera questão de false consciousness”. (TRAQUINA, vol. 1, 2005, p. 168)

Ao contrário da ação política, embora também em uma linha macrossociológica, a teoria estruturalista discorda da noção que notícia seja sinônimo de distorção. Também sob forte influência dos marxistas Althusser e Gramsci, aliada a valorização da cultura na teoria estruturalista, acadêmicos como Stuart Hall (1993) compõem a chamada “escola culturalista britânica”. Para Hall,

  • os media não relatam simplesmente, e de uma forma transparente, acontecimentos que são por si só “naturalmente” noticiáveis. “As notícias” são o produto final de um processo complexo que se inicia numa escolha e seleção sistemática de acontecimentos e tópicos de acordo com um conjunto de categorias socialmente construídas. (HALL Apud TRAQUINA, 1999, p.224)

Hall divide esse processo em três aspectos. O primeiro é a “organização de rotina dos jornais respeitantes a tipos regulares de áreas noticiosas”. Isto é, número de repórteres, setoristas, contratos com agências de notícia, bem como sua inserção no campo jornalístico (local, esportivo, econômico, etc.).

Outro aspecto definido por Hall, considerando a direção pessoal e organizacional da notícia para certas categorias de itens, é a definição dos “valores-notícias”. Isto é, para cada fato é atribuído determinado valor (proximidade, ineditismo, trágico, relevante, notável etc.) Quanto maior “pontuação” o fato tiver, e a organização jornalística assim considerar, mais noticiável o fato será. Para ele, mais que uma concepção teórica, este aspecto está intrinsecamente ligado ao pragmatismo jornalístico, pois “[...] os valores-notícia fornecem critérios nas práticas da rotina do jornalismo que permitem aos jornalistas, editores e agentes noticiosos decidir rotineira e regularmente sobre quais as “estórias” que são “noticiáveis” e quais não são”. (HALL in TRAQUINA, 2005 vol. 1, p. 225)

Para Hall, estes dois aspectos de produção das notícias – a organização burocrática dos meios noticiosos (que produz as notícias em tipos específicos) e a estrutura de valores-notícia (que ordena a posição das notícias dentro dessas categorias) – são “apenas parte do processo”. Mas, é exatamente pela valorização da cultura, não por acaso o nome de escola culturalista, que Hall destaca como terceiro aspecto o momento da própria construção da notícia a partir de suposições da cultura da sociedade.

Se o mundo não é para ser representado como uma confusão de acontecimentos desordenados e caóticos, estão estes acontecimentos devem ser identificados (isto é, designados, definidos, relacionados com outros acontecimentos de conhecimento público) e inseridos num contexto social (isto é, colocados num quando de significados familiares ao público). Este processo -a identificação e a contextualização- é um dos mais importantes, através do qual os acontecimentos são tornados significativos pelos media. Um acontecimento só “faz sentido” se se puder colocar num âmbito de conhecidas identificações sociais e culturais. (SOUSA, 1999, p.226)

Esse processo, de tornar um acontecimento inteligível, é o que Hall chama de “mapas de significado” que, baseado no conhecimento cultural no qual o mundo social já está “traçado”, ainda que implicitamente, opera-se na construção consensual da sociedade. “O processo de significação – dando significados sociais aos acontecimentos – tanto assume como ajuda a construir a sociedade como um consenso.” (HALL in TRAQUINA, 1999 p. 226)
Na definição de Giorgio Grossi, a profissão jornalística pode ser definida como uma atividade social especializada na construção social da realidade. Com efeito, a construção dessa realidade tem como base a “referencialidade pública e coletiva”.

  • [...]em face de cada nova situação, o actor agirá do mesmo modo partindo do princípio de que as coisas se apresentarão idênticas àquelas que se apresentaram da última vez. O homem, neste caso o profissional de jornalismo, na vida diária tem a qualquer momento um sedimento de conhecimentos à mão que lhe serve como um código de interpretações das suas experiências passadas e presentes, e também determina a sua antecipação das coisas que virão. (CORREIA, 2001, p.08)

“Esses fatos sociais devem ser tratados como coisa”, lembra Genro Filho, na crítica ao funcionalismo de Durkheim. De modo prático, essa “coisificação” dos fenômenos sociais, significa que quando o jornalista e/ou a organização jornalística se depara com um acontecimento, diante a necessidade profissional de adequá-la nos espaços predispostos, faz uma consulta ao que podemos chamar de gavetas classificatórias de acontecimento. Essas gavetas são, na verdade, juízo de valores identificados como preferidos na comunidade em que o jornalista está inserido e à qual se dirige, bem como política editorial, práticas profissionais e sua rotina organizacional.

Conforme Correia, “esses valores pressupõem a existência de um conhecimento prévio, de pré-conceitos sobre o que é a norma e o desvio no seio de uma comunidade”. Ou seja, uma espécie de parâmetro consensual capaz de definir qual fato é o normal e o qual é o diferente. Os acontecimentos mais dotados de ‘valores-notícias’ tidos como diferente, incomum, inédito, inesperado são mais prováveis de se tornarem notícia.

A construção do consenso, desempenhado pela mídia, pressupõe que a mesma sociedade pertence a mais ou menos a mesma cultura. E que existe, portanto, uma única perspectiva dos acontecimentos que alguns sociólogos definem por “sistema central de valores”, no qual

  • [...] nega quaisquer discrepâncias estruturais importantes entre diferentes grupos, ou entre os mapas de significado muito diferentes numa sociedade [...]. Os pontos de vista ‘consensuais’ da sociedade representam-na como se não existissem importantes rupturas culturais ou econômicas, nem importantes conflitos de interesse entre classes e grupos. (HALL in TRAQUINA, 1999 p.226)

Em suma, o jornalismo é uma instituição, dentro da sociedade civil, capaz de contribuir para construção da hegemonia, na medida em que ele estabelece ‘mapas de significado’ consensuais por meio dos quais as pessoas ordenam, leêm e interpretam o mundo. E esses ‘mapas’, sem ignorar o meio físico e tecnológico, são construídos pela interação de várias forças situadas ao nível das pessoas, das organizações, do sistema social, da cultura e da história.

Artigo científico de autoria de Felipe Shikama – produzido originalmente para o Programa de Iniciação Científica (Probic) pela Universidade de Sorocaba sob a orientação do prof. Dr. João José de Oliveira Negrão. 

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