A voz da periferia encontra espaço no movimento hip hop

Para jovens do Habiteto, falar em hip hop é falar da realidade que enfrentam todos os dias

Jônatas Rosa (*)

 “[...] Bati palma, entrei, tomei café, me emocionei com a humildade [...]”. O trecho da música “O amor venceu a guerra”, do rapper Gog, cabe perfeitamente para expressar o sentimento que se tem quando se visita a casa de Claudinei Pereira da Silva.

Rapaz de 30 anos, sete filhos e um neto, o MC Claudinei mora no bairro Ana Paula Eleutério, popularmente chamado de Habiteto. O local é carente. Padece de diversos problemas sociais, é bem verdade. No entanto, está distante da imagem negativa, associada à criminalidade, normalmente se tem fora dali.

Esses problemas sociais, ao mesmo tempo em que fazem parte de realidades difíceis de conviver e superar, também são a fonte de inspiração para o movimento hip hop, não só no local, mas em toda Sorocaba.

Atualmente, poucos movimentos culturais têm tanta força e atitude para se posicionar contra a miséria, a violência, as drogas, o preconceito e a marginalização do que o hip hop. Fazendo-se valer de quatro elementos, o rap, o break, o grafite e o DJ, o movimento canta, dança e pinta o cotidiano da periferia e, consequentemente, representa a vida da parcela menos favorecida da sociedade.

Denominado ‘filosofia das ruas’, o hip hop surgiu no final dos anos 1960, nos Estados Unidos. Foi nos subúrbios negros e latinos daquele país que o movimento encontrou espaço e se transformou numa forma de reação aos conflitos sociais ali existentes.

Dos EUA para o mundo – Em meados dos anos 1980, o Brasil conhece o movimento. Praticamente ao mesmo tempo, Sorocaba também. O contexto histórico de desigualdade do país e da cidade do interior paulista faz com que os jovens das periferias sejam arrebatados pelo hip hop. 

Em Sorocaba, o movimento começou a ganhar espaço com os bailes Black no Clube 28 de Setembro e os bailes nas casas das pessoas das comunidades mais carentes. O que tocava nos bailes incentivava a compra dos discos, que, depois, eram tocados nas festas de aniversário e de casamentos. “Isso foi ganhando corpo na comunidade de periferia, principalmente na Zona Norte”, conta Marcio Brow, rapper e diretor do documentário Hip Hop em Movimento.

Dos DJs precursores Nelson Maça, Neisinho do Cavaco, Anderson Tadeu, o movimento cresceu. “A gente viu que podia começar a falar dos problemas sociais da mesma forma que se falava dos problemas das favelas do Brasil, de todos os problemas que a comunidade enfrenta no dia a dia”, lembra Brow.

O movimento no Habiteto - É desse modo que a significativa representação do movimento no Habiteto pode soar como natural. Afinal, é em locais como este que as diferenças sociais costumam aparecer com mais nitidez. “A carência aqui é muito grande”, revela Claudinei. “Não se tem ajuda e, por isso, o povo se sente representado pelo hip hop”. 

Falar em hip hop é falar da realidade.  Por isso, o articulado, politizado e indignado Claudinei aborda a realidade que enfrenta todos os dias como se estivesse cantando um rap. “O rap fala com a gente, bate com o que a gente está vivendo”.

Integrante do grupo “Rebeldes Conscientes”, do qual fazem parte dois de seus sete filhos, ele vive numa casa construída nos padrões das casas do CDHU, programa de moradias populares do Estado de São Paulo. A ligação com o movimento aparece logo na fachada. As paredes do lado de fora da residência estão sendo grafitadas. Lá dentro, juntos com muitos CDs de rap, o comportamento é de alguém que é e vive o próprio discurso. 

Quase sem pausa, Claudinei dispara sua fala para diversos focos. Aponta para o circulo vicioso das drogas e do crime. “Não defendo o crime, mas cada um tem sua vida. Falo das drogas, do crime, mas não para machucar o irmão que está na correria. Quero mostrar para a molecada que ela pode ter outra opção”. 

Depois, aborda a política. Para ele, os políticos administram o dinheiro público como se fosse deles. “Isso reflete na realidade. As crianças vão para as drogas, para a prostituição”. Cita, na sequência, a educação. “Hoje, preferem expulsar moleque que causa problema ao invés de fazer alguma coisa por ele. Tenho uma música que fala disso, que fala que o conselho tutelar na sua casa é rotina”.

Ele também enfatiza a dificuldade de emprego. “Temos a realidade do salário. Se ganha muito pouco nesse país. Além disso, aqui temos que enfrentar a demora do ônibus, que leva mais de 40 minutos para passar”.

O pensamento de Claudinei é parecido com os dos integrantes do grupo “Mente Periférica”, William de Oliveira Ribeiro, 20, e Douglas Eduardo dos Santos Amaro, 21. Também moradores do Habiteto, os jovens sabem como é difícil conviver com a realidade de exclusão social.

“A dificuldade traz o convite para o crime. Mas não vou querer essa vida para ninguém, por isso o rap é importante. O rap tem que vir primeiro, tem que convidar primeiro”, explica Douglas. Ele completa que o movimento tem a intenção de mostrar que o crime não compensa.

No entanto, assumir o hip hop como estilo de vida não é tão simples. Para William, a sociedade ainda trata o movimento de maneira bastante marginal. “Palavrão no rap, por exemplo, não pode. Mas no forró, no funk pode”. Douglas concorda. “O rap é sempre de bandido. O cara prefere a filha ouvindo um funk pornográfico do que ouvindo rap”.

E como se não bastasse a discriminação, há ainda a dificuldade em se produzir os trabalhos. “É um movimento mal pago, em comparação com os outros”, afirma Claudinei. “Quem curte, não tem condições de pagar pelo CD”. 

Por isso, para seguir nesse caminho é preciso muito esforço. Claudinei relata que o primeiro trabalho, intitulado “A fé em Deus é tudo”, foi feito com várias dificuldades. “Foi produzido um CD só com a base instrumental e tive que fazer cópias para vender”.

Além disso, os jovens apontam a falta de incentivo do poder público para se promover eventos no local. “Temos muita dificuldade para fazer eventos aqui. Todo mundo tem que tirar do bolso e, esse ano, ainda não conseguimos realizar nenhum”, revela Claudinei. “Não temos equipamentos, não temos ajuda. Temos que tirar um pouco de cada um para manter o movimento, para levar a nossa cultura”.

Um caminho difícil e, por vezes, desanimador. Mas é em cenários como o Habiteto que o hip hop encontra sua legitimidade. “A periferia precisa saber a mensagem, precisamos passar essa mensagem”, afirma William. Claudinei vai além. “O rap tem uma informação muito forte, consegue informar coisas que nem o pai e a mãe conseguem. Temos que ocupar a mente das crianças”.

Assim, cheio de dificuldades e incertezas, o hip hop continua a ser uma cultura que reivindica espaço e dá voz às periferias. Seja traduzido nas letras questionadoras, agressivas e intensas do rap, nas imagens grafitadas pelos muros da cidade, seja nas batidas fortes dos DJs e nas danças mirabolantes do break. 

(*)  Especial para o Jornal Ipanema

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Um comentário sobre “A voz da periferia encontra espaço no movimento hip hop

  1. Que bom ter descoberto o seu blog, estou fazendo um trabalho na faculdade sobre o movimento Hip Hop e vou fazer algumas citações sobre o que li aqui, caso tenha mais artigos sobre, por favor me envie. Abraços, tudo de bom… Parabéns pelo importante trabalho, pessoas como você fazem a diferença na sociedade que infelizmente vivemos hoje. “Camila”

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