As drogas no centro do debate

Por Felipe Shikama

Num determinado momento, bilhões de acontecimentos simultâneos ocorrem em todo o mundo e todas estas ocorrências são potencialmente notícias. Só o são, porém, no momento em que alguém que fornece um relato dessas ocorrências. A obviedade descrita nessas três linhas sintetiza a natureza do jornalismo e a razão de sua existência.

Entretanto, alguns aspectos desempenhados pela atividade intelectual do jornalismo vão além da capacidade, condicionada às inúmeras variáveis, de transformar acontecimentos distintos em notícias, isto é, dar existência pública a determinado fato.

Um desses aspectos está ligado à capacidade que o jornalismo tem de pautar assuntos, sob pressupostos prioritários, para o debate público. A hipótese da Agenda Setting assume que a mídia define, para a maior parte da população, os acontecimentos significativos.

Tomemos como exemplo a campanha “Seja Usuário da Vida” articulada recentemente pelo jornal Cruzeiro do Sul. A iniciativa, com série de reportagens, palestras e debates teve como objetivo colocar o problema das drogas no centro da discussão, tanto para a sociedade quanto para o poder público.

Conforme a hipótese da Agenda Setting, se a imprensa tem uma capacidade espantosa para dizer as pessoas sobre o que pensar, ela não consegue, no entanto, dizer aos seus próprios leitores como pensar. Neste sentido, notícias de apreensão de drogas na cidade, que seriam corriqueiras no espaço do plantão policial, muitas vezes tiveram um enquadramento forçado em detrimento da campanha. No dia em que o Cruzeiro noticiou a chacina de Votorantim, no final do ano passado, um selo da campanha dividiu o espaço da matéria.

Além de cometer um equívoco de enquadramento, o jornal agiu de forma irresponsável, pois, de alguma forma, sugeriu ao leitor que os cinco jovens assassinados em um terreno abandonado seriam usuários de drogas. Fato que foi comprovado posteriormente.

Mas além do agendamento, outro aspecto fundamental desempenhado pela mídia tem a ver com o “enquadramento”. Afinal, o jornalismo oferece interpretações poderosas acerca da forma de compreender determinados acontecimentos. E qualquer interpretação desempenhada pelo jornalismo deve, obrigatoriamente, ser pautada pela maior pluralidade possível.

Outro equivoco cometido pelo Cruzeiro, ao tomar as drogas como tema prioritário, foi restringir o debate àqueles que são contra as drogas. Diz o povo que debate onde só tem corintiano não é debate… Tanto nas matérias publicadas quanto nos encontros promovidos pelo jornal, não havia um representante convidado que se manifestasse favorável a descriminalização das drogas.

Não custa repetir: o jornalismo é uma atividade intelectual. E ainda cabe lembrar: a hora em que o jornal vai “rodar” nas oficinas gráficas, os jornalistas podem até ter terminado seu trabalho, mas os efeitos sociais provocados por eles estão apenas começando.

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