Longe de casa…jovens aprendem a conviver com as diferenças

Felipe Shikama

Trezentos e cinqüenta quilômetros separam Sérgio Henrique Alves, 21 anos, de sua família. A mudança de Taquaritinga, sua cidade natal, para Sorocaba, aconteceu há quatro anos; quando ingressou no curso de Engenharia Ambiental da Unesp.

Sérgio Henrique divide uma casa de duzentos metros quadrados apelidada de K-zona, no Jardim Saira, com mais sete estudantes vindos de várias regiões do estado de São Paulo. “Só depois que eu passei no vestibular, fui ver no mapa onde ficava Sorocaba. Pensava que fosse uma cidadezinha, mas fiquei impressionado quando cheguei”.

Embora não se saiba com precisão, a quantidade de alunos oriundos de outras regiões que freqüentam uma da cinco universidades, seis faculdades e duas instituições de ensino superior instaladas em Sorocaba , percebe-se o crescente número de repúblicas como a ‘K-zona‘.

Por definição, república é o conjunto de estudantes que vivem em comum na mesma casa. A maior concentração dessas casas se localiza nos bairros do Jardim Saira, que além da Unesp, reúne estudantes da Ufscar, e do Vergueiro, por conta da proximidade com a PUC.

Aluno do primeiro ano de Engenharia de Controle e Automação, também na Unesp, Vinicius Ferreira Boico, 18 anos, nasceu e cresceu em Bauru. Segundo ele, na sua turma, de quarenta alunos, não há sequer um nascido em Sorocaba. Para Vinicius, foi só com a oportunidade de morar longe de casa e dividir o mesmo teto com jovens de regiões, hábitos e comportamentos diferentes que pôde experimentar o gosto da liberdade. “Embora eu ainda não seja completamente independente, pois a faculdade é integral e meu pai me mantêm financeiramente, tive de me tornar mais responsável para poder viver sem a pressão que sofria na minha casa”, conta ele, que vista seus pais, em Bauru, uma vez por mês.

Sérgio Henrique afirma que em Sorocaba ainda há preconceito em relação às repúblicas. Para ele, algumas pessoas confundem essa liberdade descrita por Vinicius com libertinagem. “Foi difícil, por exemplo, conseguirmos alugar uma casa. Os proprietários, muitas vezes, pedem para as imobiliárias não fecharem contratos de locação com estudantes. Essas pessoas deveriam nos respeitar como se fossemos uma família normal, pois pagamos as contas em dia e lavamos as nossas roupas, igual a todo mundo”.

 Não tão distante, Rodrigo Constant da Silva, 24 anos, que visita seus pais em Alumínio quase todos os finais de semana, tem consciência de que o período universitário é transitório e faz questão de aproveitar cada minuto com os colegas de república.

“Apesar de nem todos estudarem na mesma sala, fazemos tudo juntos. Jogamos vídeo game, futebol, vamos pra balada, fazemos festas aqui e convidamos também os vizinhos. Quando tem prova, um ajuda o outro, respeita o espaço, não faz barulho. É como se fossemos todos irmãos”, sentencia Rodrigo, fundador da “K-zona”.

Diante à coletividade, algumas regras são necessárias como banhos de, no máximo, sete minutos. “Se cada um dos oito moradores levar vinte minutos para tomar banho, alguém vai chegar atrasado à aula”, justifica Sérgio Henrique.

Já as atividades domésticas, como cozinhar e limpar a casa, são divididas entre todos. Salvo quando a república acolhe um novo calouro. “Quando entra algum bicho, ele fica por algumas semanas incumbido de lavar toda louça dos veteranos”, conta Rodrigo que, por cursar Engenharia Ambiental, implantou coleta seletiva dentro da república.

E se engana quem pensa que a aplicação nos estudos, sem a cobrança da família, é substituída por festas. Pelo menos para o calouro Lucas Cordeiro Vieira, o fato de estar longe de sua cidade natal, São Sebastião, faz com que ele estude mais. “Nos finais de semana, que os dias são mais tranqüilos, aproveito para fazer exercícios extras da faculdade porque o curso é muito puxado”.

Entretanto, o exercício mais importante que estes jovens aprendem e praticam diariamente pouco tem a ver com engenharia. Para eles, a principal lição, por morar em uma república, é o respeito. “Morar em república faz com que você aprenda a respeitar mais os outros. Você aprende a ouvir e dividir com os outros, a conviver com as diferenças”, conclui Sérgio Henrique.

Reportagem publicada no jornal Cruzeiro do Sul do dia 30-09-2007

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