O Jornalismo e as categorias gramscianas

Por Felipe Shikama

Se os meios noticiosos são capazes de dar sentido a realidade, na medida em que definem situações e catalogam acontecimentos tidos como “normais” ou “patológicos”, é na ideologia, como mecanismo simbólico, conforme Sousa, que o sistema de idéias cimenta a coesão e a integração social. (SOUSA, 2002, p.73).

A construção desse alto grau de consenso inclinado a uma visão de mundo dominante, em Gramsci, é definida na categoria “hegemonia”. Isto é, a capacidade de uma classe manter sua dominação e, não apenas por meio da força, de exercer sua liderança moral e intelectual sobre as outras.

Sob a perspectiva da teoria de Gramsci, interpretada por Gitlin (1980), a hegemonia seria vista como um processo conflituoso e dinâmico que teria de continuamente incorporar e absorver valores diferentes e, por vezes, opostos, bem como normas frequentemente dispares. Para Willians (1977), a hegemonia não subsiste na passividade; pelo contrário, necessitaria de se renovar, recriar defender e modificar continuamente, o que se encontraria expresso no limitado debate público que ocorre dentro dos órgãos de comunicação social. (SOUSA, 2002, p.76)

A noção de movimento permanente dessa primeira categoria gramsciana é fundamental para avançarmos na arena real onde as disputas pela hegemonia de corações e mentes acontecem. Essa arena conflituosa é, conforme Gramsci, a sociedade civil. Porém, antes é necessário fazermos uma breve revisão, sem a pretensão de esgotar o assunto, no conceito de “Estado” ampliado pelo revolucionário italiano.

Ao contrário das primeiras definições marxistas, na qual o Estado, em seu sentido restrito, é uma esfera burocrática burguesa não só desnecessária como maléfica a um modelo mais igualitário; Gramsci amplia este sentido entendendo que o Estado é, na verdade, um equilíbrio entre “sociedade política” e a “sociedade civil”. A sociedade política é, então, o Estado em sentido restrito ou “Estado-coerção”, pois se constitui, entre outros elementos, por seus estratos coercivos como polícia, poder judiciário etc. Já a “sociedade civil” é o espaço vulgarmente chamado de privado, onde sem coerção, a hegemonia se articula por meio da ideologia.

Tendo o Estado eu seu sentido ampliado, Gramsci faz uma distinção entre Estado do “Oriente” e do “Ocidente”. Os Estados de formação “oriental” são caracterizados pela sociedade política sólida e altamente coerciva e da sociedade civil desorganizada. “No Oriente, o Estado era tudo, a sociedade civil era primitiva e gelatinosa”. (COUTINHO,1989, p.128) Já os Estados de formação “ocidental” são marcados pela capacidade organizativa da sociedade civil e a legitimidade de seus estratos privados como jornais, sindicatos, escolas, etc.

Vale lembrar que esta distinção entre ‘oriental e ocidental’ não é simplesmente geográfica, como explica Carlos Nelson Coutinho,

  • […] a ‘ocidentalidade’ de uma formação social é o resultado de um processo histórico. Gramsci não se limita a registrar a presença sincrônica de formações do tipo ‘oriental’ ou ‘ocidental’, mas indica também os processos histórico-sociais, diacrônicos, que fazem com que uma formação social se torne ‘ocidental’, ou, mais concretamente que passe a ter um Estado ‘ampliado’, no qual exista uma ‘justa relação’ entre Estado e sociedade civil. (COUTINHO. 1989, p.129)

Em uma formação “oriental”, por exemplo, a revolução bolchevique usou como estratégia para o socialismo uma “guerra de movimento”; isto é, um ataque frontal ao Estado-coerção, mesmo que utilizando da falsa suposição de um iminente colapso do capitalismo. Estratégia que não surtiria efeito nos Estados “ocidentais”, pois, nesse caso, a “sociedade política” é, em determinados momentos, subordinada à “sociedade civil” que aqui já é mais articulada e mais sólida.

É exatamente na arena da sociedade civil aonde os estratos organizativos privados vão, na luta pela uniformidade de corações e mentes, se articular na disputa pela conquista de uma direção política com maior grau de consenso da sociedade.

Esses estratos, em especial os jornais, são definidos por Gramsci como “Aparelhos Privados da Hegemonia”. Isto é,

  • […]uma teia de instituições, relações sociais e idéias a fim de representar uma base de consentimento para certa ordem social, local onde “a hegemonia” – direção intelectual e moral – vai ser exercida, então, pelo grupo social dominante sobre os grupos aliados do bloco histórico (subalternos), mas na perspectiva de representar toda a sociedade.” (NEGRÃO, 2005 p.52)

Nesse sentido, podemos afirmar que o Brasil, hoje, é um Estado ocidental dada a capacidade de organização da sociedade civil e a legitimidade de seus estratos privados, conforme Coutinho, em dados empiricamente constatáveis, como adesão aos sindicatos, crescimento das comunidades de base, incremento dos partidos políticos de esquerda.

Portanto, falar hoje de fortalecimento da sociedade civil brasileira não é apenas propor um programa político, mas ao mesmo tempo, registrar uma realidade de fato. Pelas vias transversas da revolução passiva, o Brasil tornou-se uma sociedade “ocidental” madura para transformações sociais. (COUTINHO, 1987, p. 135)

Este mesmo grau de “ocidentalidade” pode ser atribuído aos municípios, pois mesmo numa cidade brasileira onde a “sociedade política” tencione a usar todos os recursos coercivos para a conquista da hegemonia, também haveria resistência ou, pelo menos, possibilidade de resistência da sociedade civil à classe dirigente em um movimento contra-hegemônico.

Conforme Coutinho, a ideologia, enquanto concepção de mundo articulada como uma ética correspondente, “é algo que transcende o conhecimento e se liga diretamente com a ação voltada para influir no comportamento dos homens, o que em termos gramscianos significa dizer que a ideologia é o medium da hegemonia”, pois a

  • “compreensão crítica de si mesmo ocorre através de uma luta de ‘hegemonias’ políticas, de direções contrastantes, primeiro no campo da ética, depois da política para chegar a uma elaboração superior da própria concepção do real (…). Por isso, deve-se sublinhar como o desenvolvimento político do conceito hegemonia representa um grande progresso, não só político-prático, mas também filosófico. (COUTINHO, 1989, p.66)

Artigo científico de autoria de Felipe Shikama – produzido originalmente para o Programa de Iniciação Científica (Probic) pela Universidade de Sorocaba sob a orientação do prof. Dr. João José de Oliveira Negrão. 

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