Policial “repórter” não é o mesmo que repórter policial

Felipe Shikama

O perfil de Sorocaba vem mudando substancialmente nos últimos anos. E graças a essas mudanças, já pode ser considerada, tendo por base diversos indicadores, uma cidade grande. Para se ter uma idéia desse crescimento, basta lembrar que Sorocaba contará com um orçamento de R$ 1 bi no próximo ano, maior do que a receita de muitas capitais brasileiras.

Esse crescimento tem se refletido no jornalismo local. É crescente o número de emissoras de TV e rádio difundidas para o mundo todo, por meio da internet, a partir de Sorocaba. Revistas dirigidas a consumidores de classe média, algumas delas segmentadas, também têm ocupado cada vez mais espaço. Tudo isso sem falar da importante chegada do jornal Bom Dia.

Apesar do avanço na quantidade de espaços para a informação, algumas emissoras de rádio, sobretudo as mais tradicionais, insistem em repetir uma forma ultrapassada e até mesmo perigosa de se fazer jornalismo policial. Talvez pela mão-de-obra reduzida (algumas emissoras contam com apenas três profissionais), talvez pela “tirania do tempo”, angústia de qualquer jornalista, ou mesmo por pura preguiça ou conveniência, as notícias policiais são elaboradas de forma “oficialesca” e amadora.

É que ao invés do repórter se deslocar às delegacias e desempenhar todo processo de construção da notícia (da captação até a edição), abre-se o microfone ao vivo para que um oficial Militar, geralmente encarregado de fazer as relações públicas da Coorporação, “informe” os ouvintes sobre as notícias do plantão policial da cidade.

A leitura integral de uma série de Boletins de Ocorrência, além de soar chata ao ouvinte, é, no mínimo, desleal ao compromisso ético que norteia as regras do bom jornalismo. Em circunstâncias mais críticas, como um eventual tiroteio entre polícia e bandido, a única versão que tem a chance de se tornar pública, isto é, virar notícia, é a da própria polícia. Ao final de sua “reportagem”, antes da assinatura do soldado, cabo ou capitão fulano de tal, o ouvinte ainda tem de se contentar e dizer “Amém” após a leitura de algum versículo da Bíblia.

Salvo raras exceções, a opção das emissoras de rádio em substituir o repórter policial por um policial “repórter” tem como explicação o fato de ainda se sentirem amarradas pelo dilema de “serem veículos de uma cidade pequena” – embora em alguns casos elas sejam franqueadas à grandes redes nacionais. E assim se diminuem. E pior, diminuem a qualidade do jornalismo e, por tabela, o respeito para com seus ouvintes.

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