Seis olhares

Por Felipe Shikama

A beleza da moça, ainda desconhecida, não vinha de seus olhos. Mas, de forma humana e harmoniosa, da composição de seu rosto que emoldurava aquele par de olhos e meia dúzia de olhares.

Seis únicos olhares polissêmicos. Não que fossem indecifráveis, mas porque as palavras são, por assim dizer, arbitrárias, inexatas, obtusas.

O primeiro e disparado com mais freqüência era o reticente. Manifestava uma espécie de simultaneamente hesitante. Com seus olhos, ela silenciava o que deveria ou poderia ser dito.

Eventualmente armava um olhar curioso que, apesar da redundância da frase, tem desejo não apenas de ver, mas de aprender, saber etc. Era indiscreto, porém cuidadoso, zeloso. Digno de admiração, sim, pois era capaz de cultivar uma arte sem fazer dela um ofício.

Havia também um olhar singular, individual, isolado, único e que não tem igual nem semelhante. Particular e privilegiado, valia só por si. Era significativo, terminante, distinto, notável e extraordinário.

Raramente ela lançava mão do olhar argucioso. Uma espécie de refinamento da observação. Uma lança de raciocínio sutil e espirituoso.

Nos momentos defensivos disparava ingenuamente seu olhar ficto, genuinamente falso, quase “evasivo”, pouco fingido, suposto e ilusório.

Por fim, em circunstâncias estratégicas, ultrapassava os limites do justo e do razoável com seu olhar exorbitante. Desmedido, demasiado e, ao mesmo tempo, imprevisível.

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