Terminologia e ideologia: as palavras mudam, mas o preconceito…

Por Felipe Shikama

Para comemorar os 18 anos da promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente, a Andi (Agência de Notícias dos Direitos da Infância) lançou o site do projeto “ECA 18 anos”. Lá, jornalistas e interessados têm à disposição dezenas de sugestões de pauta, clippings, artigos e textos base relacionados ao marco legal que, em tese, reconhece e assegura as crianças de nosso país como sujeito de Direitos.

Outra categoria disponível no site, bastante interessante aos profissionais da redação, é o “Guia de Cobertura” onde repórteres incumbidos de cobrir pautas relacionadas à infância podem se “armar” rapidamente, e com facilidade, antes de ir às ruas.

Além de importantes dicas de abordagem, extraídas de orientações do Unicef e da Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ), o repórter encontra um pequeno glossário com terminologias corretas acerca de verbetes freqüentemente mal empregados quando o assunto é infância, cidadania e garantia dos Direitos Humanos.

Exemplo local
Para verificar o emprego correto ou não de determinadas terminologias em jornais da região – isto é, se vão de encontro as noções apontadas pelo ECA -, realizei uma breve pesquisa, a título de ilustração, no site do jornal Cruzeiro do Sul.

Por meio do buscador embutido na página digitei a palavra “Criança”. Excluindo reportagens oriundas de agências de notícias, apareceram títulos afáveis como “Crianças trazem cartão de Natal animado”. Já quando o verbete buscado é “Menor”, o ângulo se inverte: “Trabalho de menores terá fiscalização mais rigorosa” foi mais recente.

Conforme o Guia de Cobertura da Andi, o emprego do termo “menor” referindo-se a crianças, moços e moças, adolescentes, jovens, reproduz o reacionário conceito de incapacidade na infância, sendo não só estigmatizante para esta parcela da sociedade quanto discriminatório.

A simples inversão do termo, praticada pelo Cruzeiro, acaba alimentando a velha idéia de que ser “menor” significa não ter dezoito anos e, portanto, não ter capacidades por não ter atingido um estágio de plenitude, isto é, de seus próprios direitos.

A simples comparação pode parecer excesso de preciosismo. Mas é de se perguntar: por que freqüentemente vemos nos jornais a clara distinção no tratamento entre crianças que pertencem a condições sociais opostas na sociedade?

Por que os pequenos leitores do Cruzeirinho, por exemplo, são tratados como crianças, enquanto que crianças pobres, noticiadas em conflitos com a lei ou em privação de liberdade, são classificadas como “menores”?

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