Trocando o disco

Riffs de rock dão lugar aos loopings da música eletrônica. Em comum, a vontade dos jovens de fazer um som

Felipe Shikama

Nada de acordes, nem escalas. Tampouco partituras. Na música eletrônica, instrumentos até então convencionais para o público jovem como a guitarra, o contrabaixo e a bateria – que em outros tempos, foram classificados como símbolo de rebeldia pelos mais conservadores e, para os mais progressistas, tidos como sonho de consumo – dão espaço aos toca-discos, mixadores e fones de ouvido.

elipe Modenesi Garbim, 14 anos, não teve dúvidas do presente que queria ganhar de seus pais no Natal. “Ganhei um fone de ouvido. O resto da aparelhagem eu ainda não tenho porque é muito caro”.

Para ele, a aquisição do aparelho profissional, que custa cerca de R$ 200, é um dos primeiros passos na caminhada de um sonho que ele espera, um dia, transformar em realidade: o de ser DJ. Comecei a aprender a tocar bateria, mas acho que não me identifiquei muito com o instrumento. O que eu quero mesmo é ser DJ, reitera.

Assim como Felipe, é crescente o número de jovens que têm optado por deixar os ensaios nas garagens e porões, pela oportunidade de tocar para centenas de pessoas nas casas noturnas. Em Sorocaba, uma escola de música oferece, há dois anos, cursos de DJ com aulas de técnicas de mixagem, scratchs (técnica de produzir ruído com o toca-disco) e elaboração de setlists (repertório).

A procura pelo curso, segundo o proprietário da escola, Paulo Rogério Magagna, 24 anos, tem sido tão grande que existe lista de espera para a abertura de novas turmas. Hoje temos uma média de 40 alunos matriculados. “Temos alunos de todas as idades, de oito a 50 anos, mas a maioria é de jovens, de 16 a 25 anos”.

Para Ney Oliveira, professor do curso de DJ, o interesse dos jovens por dominar as técnicas dos toca-discos deve-se à popularidade que os DJs renomados aparentam ter. “Por muito tempo o DJ foi aquele cara que ficava numa salinha sozinho e colocava as músicas para tocar, mas ninguém dava muita bola. De uns anos pra cá, isso tem mudado. Hoje, nas baladas, o DJ tem sido o centro das atenções. Ele é badalado, todo mundo quer conhecer, tirar foto e pedir alguma música”, explica. Além disso, salienta Ney, ser DJ representa também uma oportunidade de ganhar um bom dinheiro se divertindo – alguns chegam a faturar R$ 1 mil por noite.

Ney, que não toca nenhum instrumento, acredita que o bom DJ é aquele capaz de reunir o maior número de pessoas na pista e fazer dançar. “O alvo do DJ é a pista de dança. O bom profissional tem que tocar para a galera, e tocar música boa, recomenda”.

Fã de lounge, trance e drumnbass, variações da música eletrônica, Felipe demonstra ter aprendido uma das lições mais importantes segundo seu professor: escutar todo tipo de música. Ouço bastante, e ouço de tudo, tudo mesmo. “Na primeira semana do curso, achei tudo muito complicado, mas daí, já comecei a tocar, acho muito da hora”, conta.

DJ desde 1978, Ney Oliveira, 45 anos, é um dos precursores da geração disco na cidade. “Fui o primeiro em Sorocaba a ter todo equipamento profissional. Fui o primeiro a participar de campeonato de DJ, e ganhar. Fui o primeiro a ter um programa de rádio e fui o primeiro a dar aulas de técnica na cidade”, lembra, sem esconder o orgulho de seu pioneirismo.

Para ele, há mais segredos entre a pista de dança e o toca-discos do que imaginam os baladeiros de plantão. “Se o som estiver estridente, por exemplo, o público vai embora. As pessoas dançam no ritmo da música e se o som estiver fora de sincronia a galera pára de dançar. O público está cada vez mais exigente, cobra uma mixagem perfeita, não é só apertar o botão como muita gente pensa”, conclui.

Existem DJs na cidade que oferecem cursos caseiros, sem certificado, a partir de R$ 50,00 mensais. Em escolas de música, o curso tem duração de um ano e meio e sai por R$ 900,00.

Fique por dentro

Técnicas

 Looping – pequena célula rítmica tocada sucessivamente. A música é repetida por várias vezes.

Sampler – técnica de recortar o pedaço de uma música e reproduzir em meio a outra. Fragmentos de músicas com até três segundos podem ser usados livremente. Trechos maiores podem ser considerados plágio e para isso não ocorrer deve-se ter os direitos autorais da música.

Scratch – técnica de performance na qual o DJ produz ruídos com o disco em contato com a agulha. Setlist – produção do Dj com 30 minutos, sem intervalo de uma faixa para a outra. É geralmente gravado em CD para divulgação do trabalho e para reprodução em programas de rádio.

Alguns ritmos

Electro – o som sintetizado, 100% eletrônico, é a principal característica deste ritmo tocado, em média, a 135 batidas por minuto.

Progressive ou Prog. – música eletrônica com elementos percussivos tribais.

Psy – comum em festas rave, é marcado pelo ritmo acelerado e constante. Em média, 145 batidas por minuto. Lounge – influenciado pela Bossa Nova, mais calmo e agradável, é geralmente tocado no começo das baladas ou em festas menores e fechadas. Fonte: Instrutor de DJ Ney Oliveira.

Reportagem publicada no jornal Cruzeiro do Sul do dia 05-01-2008

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