Um lugar ao sol na internet

Sites sorocabanos criam alternativas para divulgação de produtos culturais que não têm espaço na grande mídia

Felipe Shikama

É possível um curta-metragem brasileiro, de baixo orçamento, disputar a audiência com um programa de televisão exibido no horário nobre? E a música de uma banda de garagem pode agradar mais o ouvinte do que os “hits” de um artista famoso? Graças a internet, a resposta para essas perguntas pode ser sim.

Pelo menos é o que sugere o conceito da “Cauda Longa” desenvolvido pelo jornalista norte-americano, Chris Anderson. A “Cauda Longa” mostra, através de gráfico matemático, que na era da internet, não apenas os “hits” têm espaço de divulgação para o grande público.

Chris Anderson aponta que conteúdos culturais alternativos voltados a nichos específicos ganham um lugar ao sol em sites da internet.

Com objetivo de divulgar produções audiovisuais genuinamente brasileiras, o website sorocabano TV Banana (www.tvbanana.com) é um exemplo caseiro de que o nicho pode preencher as lacunas deixada pelos “hits” que arrasam quarteirões.

Criado há quatro meses pela sorocabana Patrice Lima, o website exibe diariamente curtas-metragens, documentários e animações e, ao contrário do Youtube, tem sua programação transmitida ao vivo, das 20h a meia-noite. “A idéia do site, além de abrir espaço para produtores independentes, é ser uma opção de entretenimento. Quem não quiser assistir a novela, por exemplo, pode assistir curtas-metragens brasileiros na internet. É um nicho interessante porque tem gente que quer assistir a este tipo de conteúdo, que não passa nas grandes emissoras de TV”, explica Patrice.

De acordo com ela, a segmentação do conteúdo fideliza o público e torna os investimentos publicitários mais atrativos. “Num site sobre produções de vídeo independente, você pode encontrar, por exemplo, anúncio de câmeras e outros equipamentos que, se fossem veiculadas em outro espaço, não atingiriam o seu público-alvo. Ganha o produtor, que graças a internet não tem mais problemas de distribuição, e ganha os anunciantes, que passam a ter muito mais visibilidade”.

Outro exemplo prático da teoria da “Cauda Longa” é o sebo sorocabano Túnel do Tempo que, há oito anos, resolveu entrar no mercado da internet. A loja reúne milhares de títulos entre livros, revistas, quadrinhos, DVDs, e discos de vinil. “Não sei dizer quantos títulos temos aqui porque a rotatividade é muito grande. Através da internet vendemos para Alemanha, Estados Unidos e Japão. Os japoneses gostam muito de vinil de MPB e sempre compraram com a gente”, diz a gerente do sebo, Natalina de Castro.

Com poucos cliques, o internauta pode adquirir raridades de nichos que vão de “acupuntura eletrônica” à culinária libanesa. Já no site da gravadora Trama (www.tramavirtual.com.br), bandas independentes podem criar homepage para divulgar eventos, disponibilizar fotos e arquivos de música no formato MP3.

Além de ser uma rede que permite dar visibilidade ao grupo, por meio de votação dos internautas, a banda pode até assinar contrato com a gravadora. A rede de contatos da Trama Virtual possui perfil de 45 mil bandas brasileiras de todos os estilos. Só de Sorocaba são 302 grupos cadastrados.

A banda sorocabana de rock alternativo Vilania optou por esse recurso para difundir o trabalho. “É um espaço aberto, qualquer banda pode fazer seu cadastro gratuitamente. A única regra é que só podem ser divulgados trabalhos próprios”, afirma Tescaro, vocalista do grupo. A banda, que prepara seu primeiro DVD, já ocupou a lista do “top 5” no site por quatro semanas.

“Depois dessa divulgação no site da Trama, fechamos vários shows. É um espaço que apoia os independentes e também permite pesquisar novas bandas por gênero. Muitos fãs, de vários lugares do país, entram em contato com a gente para saber agenda de shows, ou mesmo elogiar ou comentar nosso trabalho”, conta.

Com a proposta de revelar novos escritores e sem apoio de grandes editoras, Neusa Padovani Martins resolveu reunir textos produzidos em Sorocaba e região para divulgar ao mundo através da internet. Há três anos, o site Sorocult (www.sorocult.com) reúne mais de cem colaboradores que enviam crônicas e poesias ao espaço literário virtual.

“O sucesso é tão grande que, hoje, muita gente quer entrar, tem lista de espera”, revela. Há um ano, os associados do site, em esquema de cooperativa, publicaram seu primeiro livro. “Cada autor pagou sua cota e teve direito a três páginas do livro. Como é difícil a publicação, esta foi uma solução que encontramos”.

Exemplos como a Tv Banana, o sebo Túnel do Tempo, a banda Vilania e o Sorocult mostram que, embora os produtos culturais alternativos ainda não alcancem o sucesso dos grandes “hits”, a internet pode servir como ferramenta na busca pela democratização do acesso à cultura, bem como no estímulo a produção independente. E o sorocabano já está “conectado” nessa tendência.

Reportagem publicada no jornal Cruzeiro do Sul do dia 15-08-2008

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