Vc fla ‘internetês’???

Dialeto digital, virou mania entre a galera que frequenta chats e sites de relacionamentos

Felipe Shikama

“Alg1 tmpo hesitei c dvia abrir stas memorias plo princípio ou plo fim…” Assim começa uma das maiores obras da literatura brasileira, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, escrita em 1881, pelo carioca Joaquim Maria Machado de Assis.

O clássico, freqüentemente requisitado nos vestibulares das principais faculdades do país, acaba de ser traduzido para o “internetês”, uma espécie de dialeto do mundo digital com palavras e abreviaturas que são verdadeiros códigos entre internautas participantes de sites de relacionamento, salas de bate-papo, programas de conversas instantâneas e ‘torpedos sms’ via telefone celular.

O estudante de publicidade Fernando Froio, 22 anos, autor da proeza, diz ter escolhido “Memórias Póstumas” para comprovar que o “internetês” pode apresentar agilidade sem perder o conteúdo. “Quis mostrar que fui a primeira pessoa do mundo a digitar um livro inteiro no teclado do celular, usando essa nova maneira de escrever”.

A estudante Flávia Sandroni, 19 anos, afirma dominar a nova linguagem. “Uso bastante no Orkut e no MSN. Fora da Internet, tenho de me policiar para não escrever errado. Às vezes, acabo abreviando algumas palavras sem querer, mas corrigo”, revela. Para Fernando, a obra machadiana na versão “internetês” ficou mais fácil de ler. “Quando traduzidos para o “internetês’, os livros ficam muito mais finos e as pessoas não desanimam em ler aquele monte de páginas. Dá para resumir tudo sem perder o conteúdo”, aposta.

Apesar do crescente número de internautas e da adesão à nova linguagem, Fernando não acredita que o “internetês” se torne a linguagem do futuro. “Acredito, entretanto, que essa idéia preconceituosa, de achar que quem escreve desse jeito é analfabeto, deverá diminuir”.

Flávia, que navega em média duas horas por dia, justifica o uso do “internetês” pela agilidade e não por modismo. “É mais rápido de digitar. As pessoas não tem paciência para esperar você escrever corretamente e também não há necessidade disso, pois são na maioria das vezes, conversas informais, com amigos”.

Para o estagiário da Defensoria Pública, Danilo Villa Nova, 22, o “internetês” reduz o vocabulário das pessoas e acaba com a prática da norma culta da Lingua Portuguesa. “As pessoas ficam viciadas nessa forma de escrever e depois têm dificuldades em escrever corretamente. Já recebi uma petição judicial com algumas palavras abreviadas”, revela.

Professora de Novas Tecnologias da Universidade de Sorocaba (Uniso), Patrícia Ribeiro, defende o uso da linguagem, mas desde que fique restrito ao campo virtual. “O internetês já faz parte da realidade de muitos jovens. É uma mudança de comportamento e não há como proibir. No entanto, o internauta deve saber separar o virtual do real. Não pode um universitário, por exemplo, como já me aconteceu, entregar uma prova na faculdade escrito ‘vc’ ao invés de você”.

Embora evite usar o internetês na frente do computador, Danilo adimite usá-lo em mensagens “sms” via celular. “Primeiro, porque o teclado do celular é desconfortável e segundo que o número de caracteres das mensagens é limitado. Procuro passar o máximo de idéias no mínimo de palavras”. Ele, que envia torpedos diários à namorada dá a dica: “Ao invés de escrever amor, eu escrevo mô, que ela entende e economiza duas letras”.

Prova de que esse recurso linguístico tem sido cada vez mais incorporado à realidade dos jovens, é uma sessão de filmes teens exibidos em um canal de TV por assinatura, cuja legenda é redigida em “internetês”.

Flávia conferiu, mas reprovou. “Prefiro legenda de filme escrito da forma tradicional, pois já estou mais acostumada. Não acho legal. Acho que crianças, por exemplo, acabam sendo influenciadas mas elas tem que saber escrever do jeito certo antes, para depois abreviar”. (Por Felipe Shikama, especial para “Gente Jovem”)

Reportagem publicada no jornal Cruzeiro do Sul do dia 04-11-2007

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