Matérias e reportagens são a mesma coisa?

Por Felipe Shikama

Algumas noções da prática do jornalismo, por muito tempo restrita a este campo profissional, começam cada vez mais a ser difundidas e compreendidas pela sociedade. E isso, sem dúvida, é um avanço.

Tanto para o jornalismo que, sendo de fato mais inteligível a todos, consegue ocupar novos espaços, quanto para parcela da sociedade que, ao compreender amplamente conceitos e práticas da atividade jornalística, se qualifica como exigente consumidor de notícia.

Até pouco tempo, ao se referir a uma reportagem, era comum empregar o termo “artigo”. Formas textuais do jornalismo conceitualmente distintas. A primeira, objetiva, a outra, opinativa. Diferente deste pequeno equivoco, aplicado como sinônimos no Brasil, (talvez, devido à tradução literal e automática do termo inglês), um outro aspecto, mais sofisticado, precisa ser melhor compreendido pela sociedade.

E essa compreensão passa, inicialmente, por uma discussão que envolva profissionais já inseridos no campo jornalístico, professores e alunos de graduação da área: matéria e reportagem não são a mesma coisa.

Em redações reduzidas de jornais do interior de São Paulo, por exemplo, há repórteres que se gabam em terminar seu expediente afirmando ter elaborado, naquele mesmo dia, quatro ou cinco matérias, e com modéstia completam: – sem falar naquelas que saem sem a assinatura.

Creio que está prática se repita em outras regiões do país.

Diante de tanta desenvoltura e eficiência, seria natural se perguntar por que motivos um profissional como este não desperta interesse de chefes de reportagens de um dos jornalões ou uma das revistas semanais de grande prestígio no Brasil?

Talvez por ineficácia de seus métodos modernos de apuração com uso de telefone, MSN, Google e Wikipedia, estes “redatores de matéria” ou “cozinheiros de press-releases” ainda não tiveram tempo de descobrir a real dimensão da história da reportagem em nosso país e aprender a lição.

Eliane Brum, Ricardo Kotscho e Zuenir Ventura, todos em efervescente atividade, compõem uma vasta lista de premiados repórteres brasileiros. Entre outros mestres, estes jornalistas não são renomados por se portarem e tampouco se parecerem com celebridades da tevê, e sim pelo brilhante resultado da árdua dedicação de sua atividade jornalística: a reportagem. A arte de contar uma história real.

Para qualquer leitor, o mínimo esforço de “requentar” releases ou, quando muito, disparar um ou outro telefonema a fim de uma declaração oficial, “só pra reforçar”, é desprezível.

Ainda que aplicada nos jornais apenas diante de um acontecimento de absoluta relevância social e extremamente factual, esta prática preguiçosa do repórter (muitas vezes estimulada mais por parte dos proprietários do veículo) faz cada vez mais com que a matéria – e consequentemente o jornal – torne-se descartada antes mesmo de se tornar pública.

No Brasil, a internet ainda não é um meio de comunicação de massa, segundo levantamento do IBGE, atinge hoje o patamar de 41 milhões de brasileiros. Mas graças a agilidade do meio e a implantação de políticas públicas de incentivo para aquisição de computadores, este duvidoso método de fazer “matérias” parece estar com os dias contados. A questão que fica é: e quem saberá fazer reportagens?

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