Reportagem acompanha um dia na vida dos Bombeiros

Caros, nesta reportagem acompanhei um dia na vida dos Bombeiros de Sorocaba. São dezenas de homens e mulheres que se dedicam no combate ao fogo, salvamentos, resgate em acidentes de trânsito, entre outras ocorrencias, alguns delas inusitadas. Durante 20 horas, vivi um pouco da rotina destes profissionais, exemplos de dedicação, cujo trabalho, em essência, é salvar vidas. Grande abraço aos meus novos amigos bombeiros da prontidão azul do Cerrado!

Felipe Shikama

“Espero que você nunca precise, mas, se precisar, tenha a certeza de que pode contar com a gente”. A frase do soldado Maurício da Silva marcou a minha despedida do quartel do posto dos Bombeiros do Cerrado. Além de Silva, bombeiro há 17 anos, outros seis homens da prontidão da equipe  azul daquele posto confiaram à reportagem do Jornal Ipanema, durante 20 horas, os desafios, as emoções e as dificuldades de sua profissão.

Com autorização especial do Coronel Amauri Ferneda, Comandante do 15º Grupamento de Bombeiros, pude acompanhar as ocorrências da equipe de Resgate, do meio-dia da sexta-feira (17) até às 8 horas de sábado (18). 

Antes, porém, de sair às ruas a bordo da Unidade de Resgate, tive a oportunidade de conhecer todas as divisões da administração do 15º Grupamento de Bombeiros, instalado na avenida Dom Aguirre, no bairro Santa Rosália.

Subdividida nas grandes regiões de Sorocaba, Tatuí, Itapetininga e Itapeva, o 15º Grupamento responde, administrativamente, por postos e bases dos Bombeiros em cinquenta cidades do interior paulista.

Efetivo
Em todos estes municípios, além dos 170 homens e mulheres que desempenham atividades admi-nistrativas, outros 240 se revezam no efetivo, em três equipes – azul, amarela, vermelha – em jornada de 24 por 48 horas.

A Divisão de Operações, além de cuidar das atividades de treinamento dos bombeiros como cursos de especialização em mergulho, resgate em altura ou produtos perigosos, também é responsável pela elaboração das estatísticas de ocorrência que são encaminhadas às secretarias de Segurança Pública e de Saúde. Já a Sessão de Justiça e Disciplina (SJD) responde pela abertura de investigação interna para apurar possíveis quebras de protocolo, bem como orientação jurídica aos servidores da corporação. No momento, a SJD realiza sete sindicâncias para apurar colisões de viaturas. Já os inquéritos para averiguação de eventuais faltas disciplinares correspondem a uma média de dois casos por mês – índice muito baixo se comparado ao número apresentado por Policiais Militares.

Além da Sessão Técnica, que cuida da fiscalização e aprovação de prédios, a grandeza do 15º Batalhão também inclui uma divisão incumbida da manutenção e reparo de sua frota, a Moto-Mecânica. Lá, bombeiros com aptidões em mecânica são responsáveis pelo bom estado das unidades do Resgate e dos caminhões de combate a incêndio.

Central 193
Na central telefônica, que recebe as chamadas das ocorrências na cidade, os profissionais se revezam em turnos de 12 horas. Apesar do telefone 193 ser fundamental para a agilidade e a efetividade do socorro à vida ou ao patrimônio, muitos sorocabanos – a grande maioria criança, durante os intervalos escolares – demonstram ignorância e o desrespeito ao passarem trotes aos oficiais de plantão. “Estas pessoas devem se conscientizar. No momen-to em que recebemos um trote, alguma pessoa pode estar precisando de socorro e poderá encontrar a linha ocu-pada. É necessário pensar que, hoje, uma pessoa passa um trote, mas amanhã ou depois ela ou algum familiar dela pode estar precisando de socorro e, com os trotes, a linha poderá estar ocupada”, adverte o cabo Valdinei Falco.

Antes de seguir para o quartel dos Bombeiros no Cerrado, conheci o coronel Amauri Ferneda, coman-dante do 15º Grupamento de Bombeiros. Na profissão há 26 anos, ele afirma que a ocorrência mais grave que já enfrentou foi um soterramento, semelhante ao registrado em Bauru na semana passada. “A gente chegou e havia quatro vítimas ainda vivas. De repente desbarrancou tudo e uma delas morreu. Não pegou a gente por sorte. Essa foi a ocorrência que mais me chamou a atenção porque eu estava conversando com a vítima e falei para ele: ‘fica tranqüilo porque a gente vai tirar você daí’, mas caiu dois metros de terra em cima dele e não teve jeito. Ele acabou morrendo”. “Bombeiro não é herói. Bombeiro é um homem treinado para fazer certas atividades que outras pessoas não fazem”, emenda.

Ferneda revela que tambpem é falsa a idéia de que os bombeiros não sentem medo. “É claro que sente medo. Só que a gente tem uma vantagem: quando a gente sai do quartel com a sirene ligada, a adrenalina vai lá em cima e a gente só pensa em salvar a vida, parece que nos esquecemos do medo”, conta o coronel.

Ocorrências
Após o primeiro toque da sirene, o medo não foi exatamente a sensação mais intensa enfrentada por este repórter. A adrenalina, no entanto, como disse Ferneda, foi lá em cima, dividida com a preocupação de, em nenhum momento, atrapalhar o trabalho de salvamento da equipe de resgate.

Logo após o almoço, servido pontualmente ao meio-dia, tive apenas alguns minutos para escovar os dentes e escolher minha cama no alojamento. Às 12h55, a campainha tocou duas vezes e em dez segundos, seguindo as orientações do cabo Wilson Marcelo da Silva, eu já estava dentro da Unidade de Resgate. Finalmente o volume da sirene e a velocidade da viatura me faziam compreender a sensação relatada pelo coronel Amauri.

Batalha diária

12h55: Avenida Américo de Carvalho. Colisão envolvendo um carro e uma moto. O motociclista, após queda, sofreu escoriações nas mãos e nos joelhos e foi levado ao Hospital Regional.
O socorro aconteceu de forma rápida, porém cuidadosa. Entre os procedimentos do cabo Marcelo e dos soldados Maurício e Frederico Rolim, estão a imobilização da vítima e a medição da freqüência cardíaca. No entanto, o protocolo de atendimento determina a espera de uma viatura policial, tendo em vista a ausência de pessoa responsável pelo veículo da vítima resgatada.

16h15: Cruzamento da avenida Moreira César com a rua da Penha. Novamente, uma colisão envolvendo carro e moto. Sem gravidade, a motociclista sofreu leves ferimentos após se chocar com o veículo. Consciente, a vítima reconheceu que ultrapassou o cruzamento no sinal vermelho, mas segundo ela, porque teve a visão prejudicada por conta da posição do sol no momento do acidente.

Um ex-metalúrgico que optou há 20 anos ser bombeiro
“De cada dez ocorrências no trânsito que a gente atende, creio que oito envolvem motos”. A afirmação é do soldado Frederico Rolim. Bombeiro mais antigo do quartel do Cerrado, está há 20 anos ininterrupto no posto. “Minha vida é o Bombeiro, moro aqui na frente do quartel e mesmo quando não estou trabalhando, ouço o barulho da sirene e sinto a mesma adrenalina que senti quando saí para a minha primeira ocorrencia”.

Ao contrário de muitas crianças, Frederico admite que nunca sonhou em ser bombeiro. Ex-metalúrgico, natural de Sorocaba, ele decidiu fazer o concurso para Policia Militar por influência dos colegas de fábrica. “O pessoal da fábrica foi fazer a inscrição para ser policial militar, mas eu desanimei assim que vi o tamanho da fila. Já estava indo embora para casa quando passei em frente ao quartel e vi o anúncio das vagas – e nenhuma fila. Não estudei, fiz a prova escondido dos meus pais e acabei passando”, revela. Apesar de ter entrado de forma inusitada à corporação, Frederico não se arrepende da sua escolha. “Quando toca a sirene, a gente esquece de tudo. Da família, dos problemas, do salário. É uma coisa que entra no sangue. Outra coisa que é muito importante, e eu valorizo muito, é o espírito de equipe”, destaca.

17h35: No caminho de volta ao quartel, fomos informados pelo rádio sobre a ocorrência de um vazamento de gás em uma casa no bairro Nova Esperança. O caminhão Auto Bomba Plataforma, usado em casos de incêndio, se dirigia ao local, mas foi constatado que a rua do incidente era estreita demais para a entrada da viatura. Seguimos juntamente ao local na Unidade de Resgate. O trânsito já era complicado naquela sexta-feira. Ao chegar no endereço, o cabo Marcelo e os soldados Maurício, Frederico e Ricardo Bataglia de Andrade adentraram à casa e retiraram o botijão de gás que apresentava vazamento. Segundo o tenente Carlos Alberto Cavagna, o vazamento aconteceu porque o proprietário da casa deitou em 90º graus o botijão, a fim de ter mais rendimento, aumentando a pressão do gás, e provocando o vazamento.

No limite do estresse
De volta ao quartel, após a janta servida às 20 horas, o soldado Bataglia contou que decidiu ser transferido para o Corpo de Bombeiros devido às tensões que envolvem a vida de policial militar. “A rotina do policial Militar é no limite do estresse. É necessário ter muita estrutura e muito preparo para resistir às diversas vantagens e facilidades que se pode ter quando se está tão próximo com o crime. O problema é que o respaldo psicológico, por exemplo, não é preventivo. Ele só existe depois que algo grave acontece”, afirma Bataglia que além de ter atuado nas ruas como PM, foi guarda de muralha da cadeia de Iperó.

20h25: Avenida Santa Cruz. Mais uma vez, acidente provocado por colisão entre carro e motocicleta. O condutor da moto, um jovem de 20 anos sofreu ferimentos nos braços. Já a adolescente de 15 anos que seguia na garupa machucou a perna. Nesta ocorrência, o cabo Elias Miranda de Oliveira advertiu às vítimas por terem retirado os capacetes antes de receberem atendimento. Fato que poderia agravar eventuais traumas provocados pela queda.

Toque de recolher
Após às 22 horas, é dado o toque de recolher. Apenas um bombeiro permanece acordado, em esquema de revezamento, atento às chamadas no rádio para, se necessário, acionar o alerta aos demais. Para a sorte de todos, a noite foi tranquila e nenhuma ocorrência de resgate na área de cobertura do Cerrado foi registrada na madrugada de sexta-feira para sábado. Na manhã seguinte, após o café da manhã por volta das 6h30, os sete bombeiros da equipe azul já realizavam a limpeza das viaturas, antes da troca da prontidão, que acontece diariamente às 7h30 da manhã.

Primeira mulher na profissão
Brígida Cristina Correa, 44 anos, é uma das três bombeiros feminina do efetivo operacional de Sorocaba. Formada em 1991, ela integra a equipe azul do posto de Santa Rosália e se orgulha de ser uma das “pioneiras do fogo” no Brasil. “Eu tive o privilégio de fazer parte das pioneiras do fogo. Uma idéia trazida do Canadá, que foi estudada por dois anos no estado de São Paulo porque estatura das mulheres brasileiras é, na média, inferior ao das mulheres canadenses e européias”.

Ela conta que, na época, houve recrutamento de mulheres da Policiais Militar. Ex-efetiva da Infantaria da PM, Brígida participou de uma série de testes que se iniciou com 500 candidatas e recrutou apenas 33. “Foram feitos vários testes de altura, de fôlego, entrevistas em situações de estresse, enfim, os mesmos procedimentos para recrutamento de soldados homens”. Para ela, o preconceito pelo fato de ser mulher ainda existe, mas já foi maior no passado. “Como é um regime de 24 horas, chegando mulheres no quartel, os homens estranharam. É como se chegasse visita na sua casa, eles não podiam ficar tão à vontade, acho que a gente acabou tirando um pouco a liberdade deles”. Ela acrescenta que os mais conservadores manifestavam insatisfação com o posto alcançado pelas mulheres e chegavam a afirmar que lugar de mulher era em casa, lavando roupa. “As casadas sofreram um pouco mais, por conta do marido, pelo fato de ter de ficar enquartelada durante 24 horas. Preconceito, ainda existe, mas aos poucos as pessoas aos poucos vão se acostumando”. 

Programa forma mais de mil adolescentes por ano
Em Sorocaba, o Programa Bombeiro na Escola (PBE), promovido pela Sessão Educacional dos Bombeiros, forma anualmente, em média, 1400 alunos da 8º série do ensino fundamental. O curso, existente desde 1994, tem duração de duas semanas e os adolescentes aprendem noções básicas de combate a incêndio e de primeiros socorros. “Atualmente atendemos 100% das escolas municipais, 80% das escolas do Sesi e algumas escolas estaduais. Além das aulas realizadas na escola, os alunos participam, no dia da formatura, de um simulado de resgate”, conta o cabo Pedro Luiz Carli. Outra atividade prevista no calendário da Sessão Educacional é o Curso de Acidentes no Lar para Mulheres, realizado na primeira semana do mês de março. Há 12 anos esse curso ensina às mulheres, com mais de 18 anos, noções básicas de primeiros socorros e de combate a incêndio. “Este curso começou com a finalidade de atender as mulheres dos bombeiros. A gente percebeu que, igual aquele ditado que diz que casa de ferreiro, espeto é de pau, muitas esposas dos bombeiros não sabiam como proceder diante de algum acidente. O curso teve sucesso e ampliamos para o público externo e atende, por ano, trinta mulheres”. Já para o mês de maio, está prevista a terceira edição do projeto Bombeiros Especiais que, em parceria com a Associação de Amparo ao Cego, deverá atender vinte deficientes visuais. “Nós também ensinamos a eles noções básicas de combate a incêndio e primeiros socorros, mas nós também aprendemos com eles qual a melhor maneira de ensiná-los”.

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6 comentários sobre “Reportagem acompanha um dia na vida dos Bombeiros

  1. Sua reportagem é dez mas essa soldado do corpo de bombeiro é mil ela junto com Deus salvou a vida da minha filha Brigda vc sempre estará em nossos corações bjs

  2. Eu sou filho da Soldado Brigida !!!! e tenho o maior orgulha da minha MÃE , VALEU FELIPE,PARABENS PELA SUA REPORTAGEM

  3. Parabéns pela reportagem! Por favor poderia me indicar o contato da Brígida Cristina Correa? Como faço para encontra-la? Preciso conversar com uma das pioneiras da corporação.
    Se puder me ajudar ficarei muito agradecida. Obrigada!!!

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