Há um ano moradores aguardam inauguração de posto de saúde

Felipe Shikama

Palhaços, doces e brinquedos em um misto de ironia e indignação. Com direito a “parabéns pra você”, bolo e bexigas, moradores da região do Wanel Ville realizaram na manhã do último sábado (29) a festa de um ano da “não-inauguração” da Unidade Básica de  Saúde (UBS) daquele bairro.festa de aniversário

Construída há mais de um ano, a entrega da UBS à população foi prometida pelo prefeito Vitor Lippi (PSDB) em seu último programa de televisão na campanha eleitoral de 2008.

A imagem pode ser vista em um vídeo postado no Youtube, o site de vídeos mais popular da internet, na qual Lippi aparece em frente à unidade na qual afirmava que a inauguração seria realizada “nos próximos dias”. “Tem um ano que o prédio já está pronto, mas só falta o principal que são os médicos. Sábado (29) teve até festa de aniversário de um ano, com bolo e tudo, aqui na frente. Espero que não tenha a festa de dois anos”, afirma o comerciante José Ogawa, que trabalha próximo à unidade que aguarda ser inaugurada.

A dona de casa Rosangela Lopes é moradora de Alumínio, cidade onde Lippi exerceu a presidência da Câmara dos vereadores, e visita com frequência sua mãe idosa, moradora do Wanel Ville. Na opinião dela, a ausência de médicos, principal motivo da não abertura da UBS, segundo a Prefeitura, acontece porque muitos estudantes de medicina, ao se formarem na faculdade, optam por irem trabalhar em consultórios particulares nas regiões nobres da cidade. “Eles preferem abrir consultório na Zona Sul a trabalhar aqui, perto do povo. Daí, todos os moradores daqui que precisam se consultar com um médico têm que ir ao posto do Jardim Simus. Isto é uma indecência porque eu sei que há um monte de enfermeira querendo trabalhar”, desabafa.

“Absurdo”
Assim, Sônia Maria, comerciante do bairro, comenta o abandono da unidade de saúde prometida por Lippi à população naquele mesmo local, em meio à campanha eleitoral de 2008. “Nesta festa que fizemos nem veio muita gente porque a maioria dos moradores aqui já perdeu esperança”, lamenta.

Sônia, que trabalha na mesma rua em que está localizada a UBS conta que, frequentemente, vê pessoas irem à unidade na busca de atendimento. “Tem mãe que vem aqui, com criança chorando no colo, pensando que o posto já está aberto, porque acho que passam na frente e veem tudo bonitinho, mas mal sabem que ainda nem foi inaugurado”, conta.

Frustrada, Sônia Maria acrescenta que o problema na área da saúde não acontece apenas no Wanel Ville. “Há 15 dias eu levei minha cunhada que estava com muita febre no Pronto-Atendimento da avenida Itavuvu e ela levou seis horas para ser atendida; só não chamei reportagem porque não tinha quem ficar com ela”, desabafa.

Por trabalhar próximo à Unidade de Saúde, José Ogawa, acaba sendo uma espécie de guardião do equipamento público, mas não esconde a preocupação dos danos que o tempo pode causar. “Parece que gastaram mais de R$ 2 milhões, eu tenho medo que daqui a pouco comece a enferrujar tudo, daí vai sair ainda mais caro pra nós. Vamos esperar pra ver o que acontece, mas eu acho que só Deus sabe”.

Explicações
Em entrevista ao Jornal Ipanema, o secretário de Saúde, Milton Palma, afirmou que a demora para a abertura da UBS se deve a uma série de problemas estruturais. “Durante a parte da construção, a empresa que ganhou a licitação realizou as obras com outro tipo de material que tiveram que ser trocados”.

De acordo com o secretário, há cerca de duas semanas os equipamentos odontológicos foram entregues à unidade. “Agora, resolvida a parte de infraestrutura, nós temos um outro problema que é a falta de médicos. Vamos ver se o prefeito nos autoriza a realizar um novo processo seletivo para a contratação destes médicos”, afirma Palma.

Segundo ele, caso este processo seletivo aconteça, a população deverá receber a Unidade Básica de Saúde dentro de dois meses. Ele acrescenta que, além da contratação destes médicos, a Secretaria de Saúde estuda a possibilidade de firmar convênio com o curso de Medicina da PUC. “Na região do Hospital das Clinicas em São Paulo, por exemplo, todos os centros de saúde que você for, você será atendido por estudantes de medicina da USP”, exemplifica o secretário que deverá participar de reunião com a direção da PUC na próxima semana.

Câmara repercute protesto

O descontentamento dos moradores do bairro Wanel Ville, que hoje conta com população próxima a 20 mil pessoas, chegou ao plenário da Câmara dos vereadores, na sessão desta terça-feira (1).

Antes de usar a tribuna para comentar o assunto, o líder do PT, vereador Francisco França, pediu para que fosse reproduzido o vídeo com imagens da campanha eleitoral de Lippi, no ano passado. No vídeo, Lippi diz: “estamos na frente do Centro de Saúde do Wanel Ville que está sendo entregue à população de Sorocaba nos próximos dias”.

Na tentativa de minimizar o problema da não abertura da UBS, o líder do governo na Câmara, vereador Paulo Mendes (PSDB) afirmou que a festa de “não-inauguração” realizada no sábado, com participação de lideranças do Partido dos Trabalhadores, representa uma “autêntica manifestação partidária”. “Quando ocorreu a inauguração da Unidade Pré-Hospitalar da Zona Oeste, há um ano, as lideranças do PT não estavam lá nem para fazer bolo de aniversário nem pra criticar e nem pra aplaudir. O que vimos (no protesto) foi uma manifestação partidária que ‘descomemorava’ e ironizava a ausência do atendimento naquela unidade”, avaliou.

Ainda da tribuna, França comentou a possibilidade de se criar um convênio com o curso de Medicina da PUC para que estudantes de medicina trabalhem naquela unidade. “Não é isso que foi prometido e não é isso que a população espera porque nos entendemos que a nossa população não vai ser cobaia”, criticou o líder da oposição.

Em defesa do governo, Paulo Mendes lembrou que a possibilidade de convênio pode ser positiva para a população e lembrou que já existe em Sorocaba, há vinte anos, um centro de saúde escola localizado na avenida Comendador Pereira da Silva, ao lado do Hospital Santa Lucinda. “Está se tentando articular o convênio lá no Wanel Ville porque o salário do médico, é evidente, nós sabemos não é motivador para que concursos públicos se realizem com êxito e tenham número suficiente de profissionais”, concluiu. 

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