Pressão na vida da criança provoca ansiedade

Felipe Shikama

Diferentemente do que se pensa, a ansiedade não é apenas uma preocupação excessiva em relação ao futuro. Para a psiquiatra da infância e psicanalista Cláudia Antila, o sentimento de ansiedade é uma espécie de sinal de alerta, um comunicador mental, e eventualmente físico, capaz de avisar quando somos colocados no limite de nossas capacidades.ansiedade infantil

Para a médica, que é coordenadora do núcleo local da Associação Brasileira de Neurologia, Psiquiatria Infantil e Profissionais Afins, este sentimento gerado a partir de cargas excessivas de demandas, cobranças e pressões da vida moderna, podem causar graves prejuízos à saúde e à vida de meninos e meninas. “Inicialmente, a ansiedade é um sinal de que as coisas estão pesadas demais para que a gente possa lidar, seja na nossa mente seja no nosso corpo. Se essa situação é muito elevada, principalmente para as crianças, elas podem sofrer um transtorno de ansiedade”, avalia.

Sobrecarga
Além da excessiva pressão por resultados imediatos e cobranças por comportamentos similares aos dos adultos, Cláudia destaca três aspectos responsáveis pelo aumento crescente de crianças que sofrem de transtorno de ansiedade. A sobrecarga de tarefas impostas às crianças, o advento das novas tecnologias e as novas e complexas estruturas familiares.

“Hoje há uma exigência maior da criança do que se tinha antes. Muitas vezes elas têm de fazer diversos cursos paralelos à escola, por exemplo. A própria escola vai se tornando um ambiente cada vez mais solicitador”, avalia. O ambiente virtual, segundo ela, também aparece como fator facilitador do aumento da ansiedade da criança. “O ambiente da Internet e dos jogos, onde você tem um certo cansaço de informações e, ao mesmo tempo, uma demanda emocional, os sites de relacionamento, por exemplo, exigem da criança uma postura mais adulta do que ela deveria ter”, acrescenta.
As novas ou atípicas configurações familiares, como a relação da criança com o padrasto ou meio-irmão, por exemplo, também acabam exigindo delas uma demanda emocional maior do que aquelas que convivem numa família de estrutura tradicional.

Prejuízos
A psicanalista alerta: a ansiedade, em certo grau, é um sentimento importante assim como o medo, mas se em nível muito elevado, torna-se um transtorno que pode acarretar diversos prejuízos à criança, até mesmo quando ela chegar à vida adulta. “A gente poder ver a ansiedade como um início de problema que se a gente não tratar, poderá aparecer outras patologias como o transtorno compulsivo ou psicótico”, esclarece.

Cláudia explica que a ansiedade é um sinal de que alguma coisa não vai bem e se isso não for tratado, a criança poderá ter sofrimento, seja do corpo ou da mente, ou de ambos. Neste caso podem aparecer transtornos de ansiedade que nem sempre são individuais, mas aparecem em conjunto com outros problemas mentais.
“Estes transtornos nem sempre são puros, eles vêm junto com outros transtornos. É muito comum um transtorno de ansiedade vir acompanhado dos compulsivos ou psicóticos”, explica. Medo em excesso, dores de cabeça, pânico, insônia, tonturas, tremores, palpitações, falta de ar, dificuldade de concentração e até mesmo a agressividade podem ser sintomas psicóticos do transtorno de ansiedade. “Na escola, quando você exige demais de uma criança e ela não dá conta, ela vai se tornando cada vez mais assustada com o aprendizado e pode se comportar de formas variadas, seja pelo desinteresse em estudar, provocado pelo transtorno da depressão ou do isolamento”, exemplifica.

Diagnóstico e tratamento
O transtorno de ansiedade infantil, segundo Cláudia Antila, tem tratamento e, em alguns casos, a criança é submetida a medicamentos. A especialista ressalta porém, que grande parte destes casos, gerados pelo excesso de cobranças, pode ser resolvido por meio de adequações do ambiente em que a criança vive. “É preciso fazer uma triagem. Às vezes, a gente tem de ajudar a família, a escola, enfim, ajudar a organizar o ambiente em que este indivíduo vive para que este fator (causador da ansiedade) que está prejudicando-a saia do contexto”.

Ela acrescenta que o ambiente em que a criança vive é fator importante na evolução da ansiedade, mas os transtornos mentais causados pela pressão em que ela é submetida podem se manifestar de formas diversas. “O meio ajuda a potencializar o transtorno da ansiedade, mas também têm a ver com a bagagem genética da criança. Algumas crianças, quando tem uma demanda maior do que aquela que elas suportam, podem ter crises de insônia, outras podem sofrer alterações no apetite, se transformando numa compulsão alimentar”.
Cláudia Antila destaca que o transtorno da ansiedade é como uma bola de neve que, se não tratada precocemente, torna-se cada vez mais grave na vida da criança, podendo chegar a vida adulta. Por isso, orienta que os pais fiquem atentos às mudanças repentinas de comportamento. “Os pais têm que estar afinados com a criança, do ponto de vista emocional, para saber identificar quais as demandas a criança pode estar sofrendo”, conclui.
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