Vinhos caem no gosto do sorocabano

Felipe Shikama
felipe@jornalipanema.com.br

Basta caminhar com tranqüilidade pelos corredores dos hipermercados, por exemplo, para constatar a onipresença, em espaço nobre, de uma infinidade de garrafas de uma das bebidas mais antigas da civilização: o vinho.
Dez anos atrás, por exemplo, segundo Carlos Alberto de Souza Filho, um dos proprietários da Padaria Real, o vinho representava uma parcela pouco significativa do mercado brasileiro de bebidas. “Naquela época havia apenas três importadoras de vinho. Hoje, por cima, eu acredito que temos cerca de 80”.
Todas elas, segundo ele, trazendo vinhos de boa qualidade e de todos os cantos do planeta. “O hábito de tomar vinho cresceu muito no Brasil nos últimos anos, e cresce mês a mês, mas ainda estamos engatinhando”.
O aposentado e enófilo José Antonio Serto conta que, apesar do crescente gosto do brasileiro pela bebida, o consumo está na média de dois litros por ano. “Na França, por exemplo, a média per capta está em 55 litros”, explica.
Prova de que o vinho está, aos poucos, caindo no gosto do brasileiro pode ser vista no investimento do empresariado sorocabano do setor de bebidas. Segundo Paulo Bertin, proprietário da Maison Bertin, que há sete anos decidiu investir fortemente no mercado do vinho, a loja conta atualmente com 600 rótulos diferentes. “Antigamente, mesmo que a pessoa gostasse e entendesse de vinhos, havia muita dificuldade de encontrar”, lembra.
Presidente da Associação dos Distribuidores de Bebidas do Estado de São Paulo, Bertin acrescenta que há dez anos as pessoas apenas se interessavam em consumir uma garrafa de vinho quando frequentavam os restaurantes. “Hoje as pessoas estão mais exigentes. Estão comendo melhor e bebendo melhor e já aprenderam a diferenciar a qualidade do vinho”, explica.
Exemplo de que o mercado de vinhos é promissor no Brasil é o forte investimento no setor, feito pelo jovem empresário Felipe José Affonso, proprietário do Empório Urbano, instalado no recém-inaugurado Mercadão do Campolim. “Acho que o gosto do brasileiro está mais requintado. Os brasileiros também pararam de dar atenção apenas às influencias e referencias dos Estados Unidos e estão olhando mais para a cultura européia”, avalia.
Neto de italiano, o dentista Fausto Correa diz tomar pelo menos uma garrafa de vinho por semana. “Nem sempre busco vinhos caros. Procuro aquele que seja adequado ao meu paladar, ao prato que pretendo fazer. Mais importante do que beber o vinho é o momento e a companhia. É muito gostoso reunir amigos e conversar em torno de uma boa comida e um bom vinho”, aconselha.

Confraria
O gosto dos sorocabanos pelo vinho é tão evidente que na unidade da avenida Afonso Vergueiro da Padaria Real há um espaço amplo dedicado aos vinhos, além de um salão anexo, reservado, considerado por Souza Filho a “menina dos olhos” da rede de padarias. “Aqui é onde realizamos cursos de vinho e onde também acontecem as reuniões da Confraria dos Enófilos de Sorocaba”, conta.
É lá que todas segunda segunda-feira do mês 30 enófilos se reúnem para provar novos rótulos, trocar informações e dividir experiências relacionadas à arte do vinho. “Não é só o gosto pela bebida. Estes encontros te levam a conhecer mais sobre história, clima, geografia, agricultura. A gente ensina um pouco e aprende muito”, conta Serto, um dos membros da Confraria dos Enófilos de Sorocaba.
Além de promover a socialização e amizade, as confrarias – ou encontro eventuais com outros apaixonados pelo vinho – apresentam outra vantagem: a redução do custo. “Como é um bem de consumo relativamente caro, muitas pessoas se reúnem para ter a oportunidade de provar quatro a cinco rótulos diferentes e de qualidade, na mesma noite, pagando pouco”, acrescenta.

Popularização e informação
“O desafio agora é romper com a ideia de que o vinho não é uma coisa aristocrática e excludente. Hoje ele pode ser acessível a todos”, conta Affonso. O empresário acrescenta que é possível adquirir vinhos de alta qualidade a baixo custo. “Atualmente você encontra vinhos chilenos, bem posicionados por especialistas de todo o mundo, com preços que variam entre 13 e 25 reais”, recomenda.
Souza Filho concorda. Segundo ele, muitas pessoas que antes tinham o hábito de tomar cerveja estão migrando para a apreciação de degustar o vinho. “As pessoas também estão preocupadas em comer melhor e o vinho é o melhor parceiro. Hoje, muitos homens estão indo para a cozinha, preparar pratos mais sofisticados, e isto demanda um interesse maior pelo vinho”.
Outro aspecto decisivo para o aumento do consumo do vinho é a difusão e as facilidades da informação. “Hoje há uma infinidade de sites especializados, revistas e livros acessíveis. Tem muita gente que, antes de comprar ou beber o vinho, vai pesquisar mais informações sobre a vincula, o produtor, a região. A pessoa vai entendendo mais e tendo mais vontade de provar o vinho. Na hora em que isso acontece, o prazer é muito maior”, diz Bertin.

O sabor da vida
Beber uma taça de vinho diariamente faz bem à saúde. A recomendação é do médico cardiologista Sérgio Rocco. Ele conta que a discussão sobre se o vinho faz bem ou não para a saúde começou com a observação do chamado “Paradoxo Francês”, que descreveu, nos franceses, a pequena incidência de infarto do miocárdio e de doenças vasculares, mesmo com o alto consumo de gorduras saturadas em queijos, pães tudo acompanhado, é claro, de bons vinhos. “Com o passar do tempo, os profissionais verificaram que a vantagem do vinho está no fato de ele ter derivados flavonóides de efeito antioxidante, ou seja, que eliminam os radicais livres de oxigênio que deterioram as células”, explica.

Apreciador de vinhos, Rocco recomenda que se tome uma taça de vinho tinto seco à noite, pelo efeito antioxidante. “Por ser ansiolítico, antiagregante plaquetário, vasodilatador e incrementador dos níveis de HDL, que é o chamado ‘bom colesterol’”.

Também para controlar o nível do “bom colesterol”, Rocco sugere cenoura sem sal, palmito, castanhas, nozes, tomate e outros legumes.
O cardiologista alerta, porém, que pessoas com problemas no fígado, por exemplo, não devem tomar bebida alcoólica. “A recomendação de uma taça diaária é para os adultos, a partir dos 35 anos”.
Rocco alerta que para deixar tudo em ordem com a saúde não basta tomar vinho, mas é preciso praticar exercícios físicos (sempre antes passar por exames médicos), não fumar e cuidar da alimentação.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s