Lugar de homem, sim, é na cozinha

Felipe Shikama

Quem disse que cozinha não é lugar para homens? No Brasil, a presença masculina à frente dos fogões é um fenômeno que não para de crescer. A gastronomia, como hobby, tem despertado tanto o gosto deste público que o mercado de utensílios de cozinha, por exemplo, oferece linhas exclusivas direcionadas aos  “chefs” de finais de semana.

Segundo a gerência de um supermercado instalado no Centro de Sorocaba, conhecido por oferecer ingredientes sofisticados, além de queijos, as carnes especiais e os azeites importados (caríssimos) são as maiores extravagâncias da clientela masculina.

Aliás, ingredientes sofisticados, como temperos e especiarias oriundos do “Velho Mundo” também são alvos preferidos dos homens apaixonados pela arte da gastronomia. Isto porque estes novos cozinheiros, – majoritariamente pertencentes à classe socioeconômica A e B, com idade entre 30 e 50 anos -, diferentemente das mulheres, veem nos detalhes a satisfação em servir, seja para sua companheira, familiares ou grupo de amigos.

Para o diretor do Saae, arquiteto Geraldo Caiuby, cozinhar é uma arte e terapia. Ele gosta de estar junto ao fogão, principalmente em ocasiões especiais como Natal, Dia das Mães e outras datas em que pode demonstrar paixão pela cozinha. É de suas mãos que saem uma das mais apreciadas feijoadas da cidade. Outra especialidade é o bobó de camarão e, claro, os assados que costuma preparar nas festas de fim de ano.

Outros pratos que Caiuby é mestre são a paella e os peixes, muito apreciados pelos amigos e pela família. “Meu maior prazer mesmo é a chamada cozinha de bistrô, ou seja, pratos pequenos para um grupo mais seleto”, revela Caiuby.

Já o empresário Júlio Casas, 42 anos, há sete tem o hábito de pilotar o fogão aos finais de semana. “Eu comecei de forma simples, com o objetivo de reunir amigos e familiares. É muito prazeroso e a torcida ajuda, porque se eu acerto o prato, todos elogiam e isso estimula a gente a pesquisar mais, trocar experiência”, conta.

Profundo conhecedor da técnica gastronômica da vaporização, que exige um forno diferenciado, Casas afirma que nunca fez qualquer curso de gastronomia. A maior parte das pesquisas culinárias, segundo ele, ocorre por meio da internet, além de livros e revistas do segmento. “Cozinhar é uma verdadeira terapia porque enquanto você está preparando determinado prato, você vai se desafiando dia-a-dia e isso me dá muita satisfação”, diz Casas.

Socialização

Segundo o empresário, o prazer do ato de cozinhar não está apenas no momento em que a comida é servida, mas na reunião de pessoas queridas. “A comparação que eu faço é a de quando éramos crianças e íamos à casa da avó. A gente lembra da comida, diferente, deliciosa, mas lembramos também de momentos agradáveis e isso é o mais interessante de tudo”.

Para o empresário Júlio Casas, a satisfação em preparar determinado prato, seja para uma mulher, um grupo de amigos ou um “batalhão”, começa já na escolha do cardápio e passa pela aquisição dos ingredientes. “O ato de comprar os produtos já deve ser prazeroso. Eu, frequentemente, vou a São Paulo com a minha esposa comprar determinados ingredientes que, por aqui, é mais difícil de encontrar”, acrescenta.

Promover reuniões de amigos e familiares para saborear um prato exótico nunca foi dificuldade para o engenheiro José Antônio Bolina, ex-secretário municipal de Edificações e Urbanismo, e conhecido por preparar uma das paella (prato típico da Espanha) mais disputadas pela alta sociedade sorocabana.

 “Desde criança eu já gostava de reunir um grupo de amigos para irmos à chácara do meu tio e preparar churrasco. Com o passar do tempo, eu fui inventando receitas, pesquisando e tentando fazer coisas diferentes”, revela Bolina que costuma preparar brigadeiro flambado no conhaque, e ainda recomenda o uso de mostarda e alecrim para temperar frango assado e diz ser o inventor do “filé mignon psicodélico”.

Sem preconceito

Assim como Júlio Casas, Bolina faz questão de comprar pessoalmente todos os ingredientes de sua famosa paella. “A paella é o meu prato mais conhecido porque como servido em pouquíssimos restaurantes, é raro as pessoas comerem. É uma comida que tem que ser bem elaborada, é como um ritual para mim”, afirma Bolina.

Bolina assinala que, diferen-temente de algumas décadas, o preconceito diante do fato de os homens irem para a cozinha já foi superado. “No passado, o homem sequer podia entrar na cozinha, hoje não. Já mudou muito”, diz.

A paixão masculina pela culinária já é tão grande no Brasil que os homens correspondem a 60% dos compradores de livros de luxo de gastronomia. Aliás, diferentemente de grande parte das mulheres, que estão sempre atentas aos preços dos produtos, os homens não fazem economia para obter os ingredientes necessários para as suas receitas. Para Júlio Casas, o mesmo acontece com os seus utensílios culinários. “Eu tenho as minhas facas especiais, minhas panelas e também meu avental. São os meus xodós e minha mulher não usa”, revela.

Para estes “chefs” de final de semana, a diferença entre homens e mulheres na cozinha está no descompromisso. “A mulher, geral-mente, acaba tendo de cozinhar por obrigação e isto, evidentemente, não dá prazer. Afinal, o difícil é fazer o prato do dia-a-dia”, diz Casas.

Por fim, Bolina acrescenta que o fato de o homem vestir seu avental e pilotar o fogão é uma forma de valorizar as mulheres. “A responsabilidade de cozinhar é muito grande, portanto nada mais justo do que nós, homens, darmos uma folga às mulheres, nem que seja apenas aos finais de semana”, conclui.

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Um comentário sobre “Lugar de homem, sim, é na cozinha

  1. Brasileiro sempre gostou de cozinhar, homem, mulher, nao importa, mas no passado os homens nao tinham a liberdade para pilotar um fogao sem ouvir piadinhas de mal gosto sobre sua masculinidade.
    A populacao amadureceu, evolui e com isso a liberdade tambem e o numero de homens que saiu do armario foi maior.

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