“Eu que ajudo a prefeitura”, afirma fundadora de farmácia comunitária

Felipe Shikama

Em apenas poucos minutos de conversa com dona Ondina Manelli Rodrigues, 77 anos, é possível descobrir o nome do “remédio” para tanta disposição e entusiasmo: doses diárias e ininterruptas de solidariedade.

Dona Ondina recebe dois salários mínimos

Assim, sem quaisquer contra-indicações, a costureira aposentada atende voluntariamente, em média, 800 pessoas por mês, na Farmácia Comunitária Ondina, criada por ela nos fundos de sua casa, na vila Porcel.

O cômodo onde funcionava seu atelier de costura, há 25 anos, abriga hoje uma infinidade de remédios que são fornecidos gratuitamente, mediante receita médica, às pessoas de Sorocaba e diversas cidades da região que não tem condições de comprá-los.

“É gratificante quando você vê a alegria de uma pessoa que não tem condições de comprar o remédio e encontra aqui”, afirma dona Ondina, caminhando entre as prateleiras de remédios, todos dispostos impecavelmente em ordem alfabética.

Graças à doação de médicos e de pessoas que não necessitam mais fazer uso dos medicamentos, a Farmácia Comunitária possui desde analgésicos para dor de cabeça até remédios usados em tratamento contra o câncer. “A pessoa pode vir aqui, mas eu prefiro que ligue antes, porque se tiver (o medicamento) eu já deixo separado. Assim, a pessoa não corre o risco de perder a viagem, o que, para quem já não tem muitas condições, é muito complicado”, explica. 

Exibindo os livros de registro com o número de pessoas que já receberam algum tipo de remédio – apenas em janeiro foram 854 -, dona Ondina explica como surgiu a iniciativa que, não raro, é merecedora de destaque na mídia nacional. “Eu tinha uma vizinha que estava muito doente e, assim como o marido, ela não sabia ler. Então eu comecei a guardar os remédios nesta caixa de sapato, para que cada vez que ela fosse ao médico e pegasse a receita, ela pudesse saber se já tinha ou não aquele remédio…”.

 “E assim como ela, os outros vizinhos começaram a deixar os remédios comigo. Quando um não tinha, pegava do outro. Daí em diante, a coisa só foi aumentando, mas até hoje eu guardo esta caixa de sapato com muito carinho”, detalha dona Ondina.

 Ajuda que não vem

Com a renda mensal de dois salários mínimos, um seu de sua aposentadoria e outra da pensão do marido falecido, dona Ondina também organiza bazares de roupas, oriundas de doação, cuja renda é usada para os custeios da farmácia comunitária, como telefone e energia elétrica. “Este mês, por exemplo, tenho que pagar o IPTU”, lembra, antes de comentar o que os olhos deste repórter já puderam ver: “A prefeitura não me ajuda em nada, eu que ajudo a prefeitura”.

 Em meio à entrevista com dona Ondina, duas funcionárias do programa Médico de Família, munidas de uma lista, circulam por entre as prateleiras da farmácia comunitária em busca de alguns remédios necessários para pacientes acamados da cidade. “Eu não estou ajudando a prefeitura, estou ajudando o paciente que está acamado e realmente precisa do remédio”, retifica dona Ondina após a saída das moças.

 Incansável

Aos 77 anos, um terço deles dedicado integralmente à Farmácia Comunitária Ondina, a aposentada se mostra incansável, mas não esconde eventuais frustrações diante das demonstrações de falta de sensibilidade e complacência entre um ser humano e outro. “Enquanto eu viver, e puder, não vou parar”, antecipa antes de interromper a entrevista para atender a mais uma pessoa no telefone.

 “Já pensei muitas (em parar), porque às vezes dá desânimo, nervosismo e revolta”, prossegue. O motivo: “É porque tem muita gente com saúde e dinheiro, que pode ajudar e não ajuda. Então tem hora que da vontade de parar com tudo isso e descansar. Mas depois, quando a gente pensa, a gente se pergunta o que será desses coitados que vêm aqui atrás de remédio, e é muita gente que vem”, completa.

 Patrocínio

A simpática senhora, que na maioria das vezes faz tudo sozinha, mas, como sinal de humildade, usa o pronome “nós” no lugar de “eu”, sugere uma possível parceria com o empresariado local. “Se a gente tivesse uma empresa que pudesse patrocinar a farmácia seria uma maravilha, porque, assim, a gente poderia atender melhor as pessoas que precisam de remédio”, defende.

Politizada e sensivelmente preocupada com as questões sociais, dona Ondina conta que até hoje não teve a oportunidade de conhecer o prefeito Vitor Lippi (PSDB), que exerceu o cargo de secretário de Saúde durante oito anos. “Ele nunca veio aqui. Acho que ele tem outros afazeres, mas a saúde na cidade está um caos”, avalia, antes de reconhecer o apoio recebido por profissionais da prefeitura.

 “A única coisa que nós temos que agradecer é o doutor Ademir (Watanabe) e doutor Milton Palma (secretário de Saúde) que, quando a gente tem qualquer dúvida, a gente liga para eles e eles nos atendem que é uma maravilha”, agradece.

 Serviço

A Farmácia Comunitária Ondina fica na rua Medeiros Simas, 52, Vila Porcel (próximo à Policlínica). Telefone: (15) 32337446. Mais informações no blog: http://farmaciacomunitariaondina.blogspot.com

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Um comentário sobre ““Eu que ajudo a prefeitura”, afirma fundadora de farmácia comunitária

  1. Bom dia, gostaria de saber se vcs aceitam doação de pessoa física…
    Tenho alguns remédios que não uso, como posso enviar????
    Alguém pode retirar????
    como faço???

    Abraço

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