Ditadura Militar: um passado que não podemos esquecer

Felipe Shikama

A próxima quarta-feira (31), o Brasil voltará os olhos para sua própria história e diversas atividades estão programadas por todo o país para lembrar, 46 anos depois, do Golpe Militar e suas terríveis consequências que se estenderam ao longo do período da Ditadura.

De 1964 até 1985, os militares governaram o Brasil numa época marcada pela falta de democracia, pela supressão de direitos constitucionais, censura, perseguição política e repressão àqueles que eram opostos ao regime. “Ninguém em sã consciência pode ter saudades desse período repressivo da história recente do Brasil. Época dos governos militares em que ocorreram as mais bárbaras violações de direitos humanos”, enfatiza a professora sorocabana, mestre em história, Maria Regina Vannucchi Leme.

Para o professor Aldo Vannucchi, ex-reitor da Universidade de Sorocaba, muitas pessoas ainda mantêm uma visão positiva do período da ditadura, principalmente devido a aspectos como o “milagre econômico’, a “disciplina social” e a construção de grandes obras de engenharia como a ponte Rio-Niterói e a Transamazônica. “Esta visão positiva de muitos adultos é lamentável porque ignora as violações dos direitos humanos”, ensina o professor Aldo Vannucchi.

Sobre o pesadelo carregado de desumanidade, praticado por militares temerosos diante de um suposto advento do comunismo no país, Maria Regina não aprendeu apenas nos livros de história. Seu irmão Alexandre Vannucchi Leme, então estudante de Geologia da USP, foi preso, torturado e morto aos 22 anos pelo aparato de segurança do Regime Militar nos porões do DOI – CODI.

O governo da época contestou o assassinato do jovem, e chegou a manifestar “oficialmente” que Alexandre havia sido atropelado por um caminhão, ao tentar fugir das instalações aonde se encontrava detido. “O Alexandre e tantos outros jovens foram mortos enquanto militavam em defesa das liberdades. O que de tão grave eles fizeram para ser pago com a vida? É exatamente isso que dá a dimensão do que é uma ditadura”, indaga Maria Regina.

Testemunha e, ao mesmo tempo, vítima dos “Anos de Chumbo”, a coordenadora do Curso de História da Universidade de Sorocaba se dedica em discutir o tema em sala de aula, grupos de estudo e pesquisas para revelar as atrocidades de um passado recente do país. “Lembrar, conhecer para que nunca mais se repita. Este me parece ser o papel dos professores, historiadores, jornalistas”, ensina a professora.

Aldo Vannucchi, que chegou a ficar preso por uma noite na delegacia e detido por outros dez dias no seminário, por conta de seu “forte envolvimento” com a Juventude Operária Católica (JUC), comemora a democracia e a liberdade vividas atualmente, mas demonstra preocupação em relação ao comodismo social. “O perigo que eu vejo hoje, que é uma realidade negativa, é que muita gente que tem seu emprego, seu carro e seus aparelhos eletrônicos está acomodada. Não há mais ditadura, a pessoa vai sobrevivendo, então fica uma pessoa que se julga feliz sem causa, a não ser a causa do egoísmo. É preocupante porque é neste caldo que começa a se desenvolver certas ideologias de alto-elogio, de país ideal e começa perder a sensibilidade crítica”, alerta.

Análise crítica

Para que a história não se repita, Aldo defende maior criticidade, sobretudo dos educadores. “É preciso fazer uma analise crítica porque se disciplina e ordem são valores certos, eles não têm sentido dentre de uma posição antidemocerática e sem liberdade. A cidadania tem que ser vivida num clima de liberdade”, acrescenta.

Maria Regina aponta que, embora o país desfrute hoje da democracia e valorize as liberdades individuais, ainda há resquícios desse do ditatorial no Brasil. “Basta ver as reações que o Plano Nacional dos Direitos Humanos desencadeou recentemente, amplamente divulgado pela mídia”, exemplifica.

Segundo Maria Regina, a participação popular é fundamental para que “os governos” andem nos trilhos. “É o controle social que faz com que as políticas públicas avancem e cumpram o estabelecido em lei. E penso que os setores saudosistas da ditadura ou pouco acostumados com a participação popular é que reagiram tão vivamente contra o Plano Nacional dos Direitos Humanos.

Aldo Vannucchi acentua que os valores democráticos conquistados pelo país não são valores adquiridos. “A liberdade se conquista no dia a dia, e não é no sentido de que cada dia eu tenho menos obrigações, pelo contrário. A liberdade é a capacidade de se realizar como pessoa sabendo escolher, praticando discernimento responsável”, pontua Aldo.

Memória

Maria Regina Vannucchi Leme defende a total abertura dos arquivos militares aos pesquisadores e à população. “É legítimo o direito a esse acesso. Tanto que já foi descoberto o quanto falta para ser esclarecido sobre o período”, destaca.

Ela faz apelo a quem tiver documentos sobre essa época que os disponibilize para os órgãos públicos. A Secretaria Especial dos Direitos Humanos oferece um programa de compartilhamento deste material por meio do site www.sedh.gov.br.

Na análise de Aldo Vannucchi, o Plano Nacional dos Direitos Humanos, recentemente alvo de acalorados debates, repercutidos na grande mídia, “extrapolou o que era para ser o essencial”.

Aldo explica que o objetivo inicial do plano era o de que a nação conhecesse quem foram os torturadores da época da ditadura. “Não se trata de colocá-los na cadeia, simplesmente é a Comissão da Memória e da Verdade, que busca refazer a verdade história”, ressalta.

Segundo ele, pressões legítimas das bases da sociedade civil acabaram ignorando as diretrizes universais já estabelecidas da ONU e pela própria Constituição. “Puseram reforma agrária, aborto, censura da imprensa. Algo que escapou inclusive da própria mão do ministro (Paulo Vannucchi)”.

 Maria Regina sintetiza o cenário de um passado recente e traumático, do qual o país, por obrigação, deve sempre se lembrar. “Viver numa democracia faz a maior diferença, pois quem não viveu os anos de chumbo não tem idéia do que foi o cerceamento das liberdades, a censura aos jornais, teatro, música. O dia a dia dos brasileiros estava alterado, num clima de desconfiança, insegurança e medo”, conclui.

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