Novela expõe dificuldades enfrentadas por pessoas com deficiência

Felipe Shikama

Todas as noites, a personagem Luciana, interpretada pela atriz sorocabana Alinne Moraes em “Viver a Vida” da TV Globo, revela ao grande público a delicada realidade de quem tem de enfrentar barreiras e obstáculos diários.

Sob o olhar contemporâneo e cotidiano de Manoel Carlos, a novela é a primeira a mostrar, com tantos detalhes, a rotina de quem vive numa cadeira de rodas. “Discutir esse assunto no produto mais visto da televisão brasileira é elogiável. A novela tem uma contribuição muito importante, pois essa é uma realidade e as pessoas precisam abrir os olhos para essa questão”, avalia o jornalista Piero Virgílio.

Foi através da novela que, recentemente, Piero tomou conhecimento do projeto ‘Praia para todos’, no Rio de Janeiro. Promovido pela ONG “Espaço Novo Ser”, o projeto oferece banho de mar orientado, atividades de recreação e iniciação em esportes adaptados.

A iniciativa, realizada no Posto Três da Barra da Tijuca, além de contribuir com a integração entre pessoa com deficiência e a natureza e o esporte, promove mais sociabilidade e, principalmente, desperta a atenção da opinião pública para os aspectos práticos da acessibilidade. “Na novela, o autor também já mostrou as dificuldades que um cadeirante tem para pegar um ônibus, por exemplo”, acrescenta Piero.

“Verdade cor-de-rosa”

Para Sandro Amaro, vice-presidente da Associação dos Deficientes de Votorantim “Viva Legal”, e presidente do Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência, a novela é uma importante contribuição no debate em torno do lento processo de inclusão, na medida em que mostra ao grande público temáticas como o preconceito e as dificuldades de acessibilidade.

No entanto, segundo ele, a história de Luciana carrega consigo uma “verdade cor-de-rosa”. “As dificuldades de uma pessoa com deficiência vão muito além daquelas mostradas na novela. Isso porque as condições financeiras da Luciana, que é muito rica, é bem diferente de 90% da população”, ressalta.

Em outras palavras, Amaro destaca que a renda elevada da personagem implica em melhores condições de adaptação da casa e do veículo, por exemplo, sem falar no ingresso e frequência em terapias complementares. “É extremamente importante o debate que a novela coloca em torno do assunto, mas eu percebo que a sociedade, infelizmente, ainda não está preparada para esta discussão. Prova disso é que uma enquete, em um site da internet, apontou que a maioria da população quer que ela volte a andar”, assinala Amaro que se dispõe a dar palestras para empresários da região com objetivo de convencê-los à contratar pessoas com deficiência.

14,5% da população

No Brasil, segundo dados do Censo de 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 24,5 milhões de pessoas têm algum tipo de deficiência física, motora, mental, auditiva, visual ou múltipla, o que representa 14,5% da população.

Para incluir, efetivamente, esta importante parcela da população, o Brasil conta com uma das legislações mais avançadas no mundo. “Todavia, não apenas em Votorantim e Sorocaba, mas em quase todas as cidades do país, ainda há muita coisa para ser feita”, assinala Sandro Amaro.

Ele revela que, apesar dos avanços na legislação que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida, muitos ainda têm a noção de que acessibilidade significa “apenas rampa e banheiro adaptado”.

Segundo a Lei Federal 10.098, que dispõe sobre o assunto, acessibilidade significa “possibilidade e condição de alcance para utilização, com segurança e autonomia, dos espaços, mobiliários e equipamentos urbanos, das edificações, dos transportes e dos sistemas e meios de comunicação, por pessoa portadora de deficiência ou com mobilidade reduzida”.

No mesmo sentido, leis municipais reiteram a garantia da inexistência de obstáculos, isto é, de qualquer entrave que limite ou impeça o acesso, a liberdade de movimento e a circulação. “Sorocaba, como qualquer cidade de médio e grande porte, ainda não está totalmente adaptada para o cadeirante”, avalia Piero.

Segundo ele, as condições de acessibilidade são melhores na região central, onde existem rampas e guias rebaixadas. “Mas, mesmo no Centro, algumas providências ainda precisam ser tomadas. Na esquina da agência dos Correios da rua XV de Novembro não há adaptação. Sempre que passo por lá, tenho que contar com a boa vontade de algum transeunte”, comenta.

Obstáculos diários

Em Votorantim, a reportagem do Jornal Ipanema acompanhou o cadeirante Sandro Amaro pelas principais ruas do centro. De forma inusitada, sua crítica constatação reitera o que antes foi observado por Piero. “É como se fosse um jogo de vídeo-game que você tem que ir passando de fase. Quanto mais longe do centro, mais difícil vai ficando o caminho”, compara.

Nas imediações da Avenida 31 de março há guias rebaixadas, mas grande parte dela, explica Sandro, não estão adequadas para garantir a acessibilidade dos cadeirantes. “Se eu for passar por aí, a cadeira vai ficar entalada”, ressalva antes de cruzar a principal via da cidade.

O passeio, em companhia de Sandro e do fotógrafo Taylor Soares, aconteceu na tarde da última quarta-feira (7). No local combinado, a Prefeitura de Votorantim, há vagas para deficientes e Sandro chegou conduzindo seu veículo adaptado. A vaga, exclusiva para pessoas com dificuldades de locomoção, entretanto, estava ocupada por outro veículo.

Após uma hora e 11 minutos, uma jovem, vestindo moletom vermelho, e visivelmente sem dificuldades de locomoção segue em direção ao carro. De forma educada, a abordagem da reportagem foi simples e objetiva: – A senhorita está aguardando algum idoso ou alguma pessoa com deficiência? A breve resposta, diante do constrangimento de ter obtido uma “vantagem”, não justifica qualquer forma de egoísmo: – Já estou saindo. “Se vocês quiserem fazer foto de carros estacionados em vagas especiais, é só ir em qualquer horário nos estacionamentos dos shoppings e supermercados”, recomenda Sandro, que teve de estacionar seu veículo a cerca de 100 metros da vaga ocupada pela moça de moletom vermelho.

“Acho que a pior limitação que o deficiente tem que enfrentar é o preconceito. Isso porque, para algumas pessoas, deficiência é sinônimo de invalidez. Cabe ao cadeirante e ao deficiente quebrar esse estereótipo e gritar para o mundo: eu quero, eu posso, eu faço!”, recomenda Piero.

Leis desrespeitadas

A legislação brasileira aparece como uma das mais avançadas do mundo quando o assunto é promoção da acessibilidade das pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida. O conjunto de leis municipais, de cidades como Sorocaba e Votorantim, por exemplo, contribui para aperfeiçoar ainda mais o processo de inclusão de uma significativa parcela da população.

Recentemente, a Câmara de Sorocaba aprovou projeto do vereador Francisco França (PT) que visa garantir a acessibilidade de pessoas com necessidades especiais às unidades do Sabe Tudo, Cybers Café e Lan Houses. “Sobre os prédios municipais do Sabe Tudo, um dos alvos do projeto, é preciso rever as estruturas com urgência, pois a prefeitura não poderia ter construído um prédio público sem acesso ao cadeirante, caracteriza um verdadeiro desrespeito ao ser humano”, critica o parlamentar da oposição.

No mesmo sentido, o vereador José Antonio Caldini Crespo (DEM) promoveu na última terça-feira (6) uma audiência pública na Câmara, que teve como tema “A calamidade das calçadas públicas em Sorocaba”. A audiência teve como objetivo ampliar o debate em torno de um projeto de lei que pretende, entre outras normas pertinentes, implantar a padronização e a acessibilidade das calçadas – dispondo inclusive sobre especificações técnicas. “Degraus e buracos constatados rotineiramente em calçadas da cidade impossibilitam o livre trânsito de pedestres, por isso a importância do debate”, explicou Crespo.

“Já houve algum progresso, mas é preciso cobrar do Poder Público mais adequações”, assinala Sandro Amaro, vice-presidente da Associação dos Deficientes de Votorantim “Viva Legal”, e presidente do Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência.

Em Votorantim, o próprio prefeito Carlos Augusto Pivetta (PT) reconhece que o próprio Paço Municipal apresenta dificuldades de inclusão e acessibilidade das pessoas com deficiências. “Em relação ao prédio do Paço Municipal, onde, principalmente os cadeirantes encontram dificuldade aos serviços no piso superior, uma das medidas adotadas foi a implantação do Serviço Integrado de Informação ao Cidadão (Siic). Com a implantação do serviço, todos os munícipes que chegarm ao Paço Municipal, devem se dirigir ao balcão de atendimento e, na necessidade de realizar o atendimento nos setores situados na parte superior, um funcionário é chamado para fazer o atendimento específico à pessoa com deficiência no piso térreo.

Segundo Pivetta, a prefeitura tem adotado como política pública a construção dos novos prédios com rampas, banheiros adaptados para que o acesso seja facilitado, entre outros dispositivos. “Eu acho que o próprio Poder Público deveria dar o exemplo”, completa o jornalista Piero Virgilio. Comércio

O comentário de Piero revela que determinações capazes de promover a acessibilidade ainda estão longe de serem cumpridos em sua efetividade. No que tange ao comércio, por exemplo, desrespeitos são freqüentes.

Recentemente, em capítulo da novela Viver a Vida, da TV Globo, a personagem cadeirante, interpretada pela atriz Alline Moraes, se tornou apenas uma coadjuvante. Com dificuldades de entrar em um provador de uma loja, para experimentar de vestidos, quem protagonizou o episódio foi o constrangimento. “Os comerciantes não perceberam ainda que existem no pais mais de 24 milhões de pessoas que querem se vestir, se alimentar. Essas pessoas consomem, mas muitos parecem que ainda não perceberam”, desabafa Sandro.

Transporte especial

Em Sorocaba, o transporte especial, considerado referencia para outras cidades, conta atualmente com uma lista de 100 pessoas à espera de atendimento. Os dados foram fornecidos pela Urbes – Trânsito e Transporte.

Apesar da demanda crescente, a cidade atende 527 beneficiários diretos do serviço, além de 236 acompanhantes, perfazendo um total de 763 pessoas atendidas. “Há uma demanda em torno de 100 pessoas à espera do atendimento. Contudo, ampliaram-se os investimentos em veículos acessíveis na frota do transporte regular”, explica o presidente da Urbes, Renato Gianolla.

Regulamentado em 1998, o transporte especial de Sorocaba é considerado uma referência para outras cidades. “É porque é porta a porta, e apresenta um serviço regular e efetivo de atendimento com horários e itinerários pré-programados e atendendo todos os interesses de transporte como trabalho, estudo, fisioterapia, médico, esporte e lazer”, diz Gianolla.

Além disso, o funcionamento do transporte especial envolve a Secretaria da Cidadania, que cadastra e seleciona os usuários de baixa renda, portadores de deficiência motora, temporária ou permanente, em alto grau de dependência, cabendo à Urbes planejar, fiscalizar e remunerar os serviços prestados por empresas privadas operadoras e concessionárias do serviço de transporte.

 Atualmente, Sorocaba conta com 14 veículos adaptados para transporte especial, sendo 12 microônibus (11 com elevador) e 2 vans com elevador. Já entre os ônibus convencionais, segundo Gianolla, 65 % da frota está preparada para transportar pessoas com necessidades especiais. “Dos 345 veículos que compõem a frota operacional, 226 estão aptos a transportar cadeirantes”, afirma.

Já em Votorantim, de acordo com a Secretaria de Comunicação, a Secretaria de Saúde mantém quatro veículos para o atendimento ambulatorial de pacientes com dificuldades de locomoção. “A Secretaria de Educação tem três ônibus e duas Kombi para o transporte em escolas de educação especial”, aponta.

Em relação ao transporte municipal, a empresa concessionária Auto Ônibus São João mantém em sua frota veículos adotados com plataformas hidráulicas”.

“Mais que isso”

Apesar do sofisticado dispositivo legal e dos avanços conquistados até aqui, é possível constatar que as práticas capazes de promover a inclusão efetiva ainda são desrespeitadas e, se não forem compreendida e cobradas pela sociedade, pode estar ainda muito longe. Piero, que costuma se comunicar com o mundo por meio do seu blog (www.pierojornalista.blogspot.com), com frequencia publica reportagens sobre acessibilidade. “O blog não é apenas sobre isso, embora por eu ser cadeirante, tenha bastante bagagem sobre o assunto. É um blog em que eu transmito as minhas impressões sobre o mundo e, principalmente, apresento o meu trabalho”, conta.

Questionado sobre a iniciativa do Centro Integrado de Apoio à Pessoa Portadora de Deficiência de Sorocaba, que está oferecendo oficinas Biscuit, Bijuteria e Crochê, Piero é capaz de revelar a mentalidade de quem não sabe, nem quer saber, dos desafios diários de quem têm algum tipo de deficiência. “Não quero desvalorizar quem trabalha com isso, mas é importante lembrar que o deficiente pode mais do que isso. O erro não está em abrir tais cursos e sim, se for este o pensamento, acreditar que o deficiente só pode isso”, conclui.

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