Intelectuais relembram época da máquina de escrever

Felipe Shikama

Para alguns, velhas companheiras; para outros, simples desconhecidas. Hoje, diante da modernidade dos sofisticados computadores, as máquinas de escrever (ou de datilografia), praticamente apagadas da memória e abandonadas no tempo, podem ser dignamente colocadas na lista dos úteis objetos que, agora, em repouso, descansam em redomas de museu.

Entretanto, o singular ruído do chumbo martelando o cilindro de borracha, sob uma fita de tinta, estampando “tipos” num papel em branco, ainda é capaz de agradar o gosto de uns e despertar a nostalgia de outros.

Por muito tempo a máquina de escrever foi instrumento importante e onipresente do mundo do trabalho e da vida intelectual. “Por incrível que pareça, ainda hoje, várias escolas fazem uso das máquinas, além de delegacias de polícia, cartórios e despachantes”, afirma o mecanografista mais antigo de Sorocaba, Antonio Carlos Pereira.

Aos 78 anos de idade, 56 deles dedicados ao conserto e à manutenção de máquinas de escrever, seu Antonio parece viajar no tempo, com saudades da época em que, no auge da popularização do equipamento, percorria as cidades da região para vender e consertar máquinas da Facit, fabricadas na Suécia. “A primeira máquina registradora da Padaria Real fui eu que vendi. Também vendia e consertava muitas máquinas de escrever para as empresas. Para você ter uma ideia, minha loja tinha oito funcionários”, relembra com orgulho.

Em meio às belíssimas – e valiosas – máquinas de origem inglesa, italiana, sueca e alemã, seu Antonio segue sua “viagem” apontando apaixonadamente cada detalhe peculiar da invenção atribuída a Henri Mill, em 1714. “Comecei ajudando o meu irmão, Wolfardo Rodrigues Pereira. Além de mecanografista, ele era piloto de avião e foi o primeiro paraquedista de Sorocaba”, conta o forte senhor, com disposição para levantar uma pesadíssima máquina “portátil” produzida na década de 1930.

Cada vez mais raro, o instrumento mecânico tido como obsoleto, capaz de despertar a curiosidade e a estranheza dos mais jovens, agora vive uma onda de supervalorização de mercado. “As mais antigas e em bom estado podem custar até R$ 3 mil reais. As máquinas registradoras, que eu também restauro, podem valer R$ 5 mil”, avalia.

Devido à sensível queda de demanda por manutenção, porém, seu Antonio pensa em reduzir sua atividade profissional. “Hoje não tem muita procura por conserto. Eu pretendo fazer mais restaurações que é mais prazeroso. Pegar uma máquina antiga e deixar ela novinha, tudo igualzinho ao que ela era é uma coisa sensacional”, anuncia, revelando que a máquina alemã Olympia, semelhante à usada por grandes escritores do século passado, é a preferida de sua coleção. “O Hittler também usava uma dessas”, acrescenta.

Nostalgia

Durante muito tempo a máquina de escrever foi, se não personagem, ferramenta importante e onipresente da sociedade. Para o jornalista e professor Júlio César Gonçalves, o equipamento criado para facilitar a vida do homem é o “símbolo do jornalismo” e, ao mesmo tempo, ícone da criticidade de um passado recente. “Hoje o computador está incorporado ao meu cotidiano, mas, por mais da metade da minha carreira profissional eu usei a velha máquina de escrever”, conta Gonçalves, jornalista há quase 40 anos.

“Não sou saudosista, mas faz falta ouvir o barulho das máquinas nas redações dos jornais”, recorda-se. “Hoje, não sei se por causa dos computadores, mas as redações parecem sarcófagos”, compara, referindo-se à relativa falta de diálogo entre os profissionais incumbidos de produzir “importantes bens simbólicos”.

Ex-repórter da Folha de S. Paulo, Júlio César conta que logo no início dos anos 1990, a redação já oferecia computadores, mas grande parte do reportariado periferia fazer uso das famosas Olivetti ou Ramington. “É uma coisa esquisita e nem faz tanto tempo assim, mas foi um choque cultural muito grande. Houve muita resistência, principalmente do pessoal mais antigo”, lembra.

Indispensável hoje na vida de milhões de brasileiros, o computador não encantou Júlio logo de cara. “Mesmo depois de um mês com o computador, eu ainda escrevia na máquina de escrever. Só depois de pronto o texto, eu digitava novamente no computador”, diverte-se antes de contar as minuciosas técnicas para “duplicar” o texto da laudas, com uso de papel carbono.

 “Velha amiga”

Para a doutora em Psicologia Sônia Chebel Mercado Sparti, sua máquina de escrever Erika, produzida na antiga Alemanha Oriental, é como amiga inseparável. E amigo que é amigo, ensina a vida, sempre está lá, à disposição, para ajudar sempre que preciso. “Outro dia, a minha filha estava aqui em casa com um grupo de amigos e precisava fazer um trabalho de faculdade. Não sei o que aconteceu que acabou a força e eles não podiam mais usar o computador. Na hora, eu tirei a Erika do estojo de couro e comecei a digitar o trabalho para eles. Alguns colegas da minha filha ficaram espantados, mas, graças à máquina, deu tudo certo”, rememora a professora.

Conforme o relato, fica claro que Erica – adquirida na extinta e até hoje famosa loja Eletroradiobras – só é acionada quando se fez absolutamente necessária na vida de Sônia, já adaptada às novas tecnologias.

Muito antes de 1971 a 1974, quando Sônia deixava Sorocaba e seguia rumo a São Paulo, três vezes por semana, a bordo do Cometa, para concluir seu primeiro mestrado em Psicologia na PUC, Erica já era sua companheira de produção científica e intelectual. “Ela é portátil e eu a levava comigo. Fazia todos os trabalhos com ela. A gente só não podia usar na biblioteca por causa do barulho”, comenta.

A fala calma, pontuada e contida da professora Sônia parece esconder a “prestidigitadora” que foi – e ainda demonstra ser -, por de trás dos teclados de Érika. “Sempre tive boa habilidade manual porque eu também tocava piano”, especula.

Prestidigitadores

Além do virtuosismo de uma pianista dedicada, o extinto curso de datilografia foi outro fator que contribuiu para a presteza da digitação de Sônia. “Eu fiz curso de datilografia e recebi diploma. A escola era muito famosa; ficava na rua da Penha, perto da esquina com a Benedito Pires”, destaca.

As aulas, ela se recorda, depois de ensinada as técnicas de digitação, consistia basicamente em reproduzir textos, com tempo e margem de erros delimitados. “Quando eu fiz o curso estava com 12 para 13 anos. Naquela época isso era um diferencial para as pessoas que iam procurar emprego”.

Júlio César chegou a frequentar aulas de datilografia, mas não concluiu o curso. O diploma, para ele, não fez falta já que com sua técnica “meia boca”, ainda adolescente exercia a atividade de escriturário, preenchendo fichas e formulários da Santa Casa de Misericórdia de Sorocaba. “Eu digitava muito, o dia inteiro então fui pegando bastante agilidade. Aliás, ainda existe essa profissão, escriturário?”, questiona.

Embora tenha passado a maior parte do tempo consertando as máquinas, ao invés de escrever, seu Antonio também afirma que é rápido no teclado. “Eu tenho que testar e, para isso, usar todas as letras para ver se não está com defeito. Além disso, eu tenho que digitar rápido para ver se não remonta uma letra em cima da outra”, explica.

Encontro e desencontro 

Boa parte da história de Sorocaba foi registrada com o uso de uma máquina italiana Olivetti, do professor Milton Marinho Martins. Aos 88 anos, sua segunda máquina, elétrica, está temporariamente desligada enquanto se recupera de cirurgia oftalmológica. “Logo, logo, quem sabe, eu volto a escrever. Tenho muita alegria em poder ler e escrever”, declara.

A vida inteira dedicada em perpetuar história e conhecimento em folhas de papel reafirma a alegria do professor que, aos 17 anos, com o dinheiro de seu “minguado” salário, adquiriu sua primeira máquina de escrever. “Eu era pobre e assim que tive condições eu adquiri uma Olivetti portátil. Foi um investimento pessoal porque a máquina é um cabedal cultural, que nos ajuda a aumentar o conhecimento”, ensina.

Daí em diante, professor Milton nunca mais quis se separar de sua máquina de escrever. Mas a vida, conforme uma infinidade de histórias escritas – inclusive antes do surgimento da datilografia – às vezes é marcada por encontros e desencontros: e a Olivetti do professor Milton, 50 anos atrás, foi furtada de sua residência.

Como patrimônio valioso que era, a “vítima” prestou queixa de sua lastimável perda. Um mês depois, a polícia a velha máquina no município de Itu. “Aí eu fui lá, na delegacia, mostrar a nota fiscal e a peguei de volta”, rememora o historiador.

Aluno da extinta Escola de Datilografia São Paulo, que ficava rua da Penha -, próximo à Barão do Rio Branco, Milton Marinho Martins lembra de outras instituições incumbidas em ensinar jovens a usar máquinas e se qualificarem para o exigente mercado de trabalho da época. “A mais importante de todas era a São Paulo, do Davino Fazano e da dona Zumira de Barros; mas tinha outras. Uma, na rua XV de novembro em frente ao Palacete Escarpa e outra, que durou pouco tempo, na praça 9 de Julho”, indica.

Curiosamente, o amante das letras e ainda fiel à máquina de escrever não concluiu o curso de datilografia. “Acho que eu desisti porque ficava nervoso quando não encontrava a letra certa. Mas até que escrevo bem usando apenas dois dedos”, revela o ex-vereador, eleito em 1948, aos 27 anos, e ex-secretário municipal da Educação.

Durante 40 anos, Milton Marinho Martins exerceu o cargo de diretor da escola municipal Achilles de Almeida e é autor de quatro livros: “Mélange”, escrito em homenagem póstuma ao seu filho Milton Marinho Martins Filho; “Sorocaba e a Segunda Grande Guerra”; “Biografia do Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar” e “Chamas Que Não se Apagam”, que conta a história da Revolução Constitucionalista de 1932.

 O advento do computador

Em seu trabalho de restauração, é comum seu Antonio pedir para que um de seus filhos pesquise na internet mais detalhes sobre peças e cores de antigas máquinas de escrever. “É engraçado, mas o vilão da máquina de escrever, agora ajuda no processo de restauração”, reflete o mecanografista.

Lembrar do uso e da importância histórica desta ferramenta de auxílio à escrita, de forma alguma implica em estabelecer possíveis comparações com o computador. “Eu não uso, mas admiro muito o computador. É uma coisa extraordinária. Minhas netas me ajudam quando eu preciso”, comenta professor Milton.

Júlio César Gonçalves se surpreende ao constatar que “aquela época”, em que periodicamente era preciso trocar o rolo de fita para redigir seus textos, não faz tanto tempo assim. “Os computadores se popularizaram com força em 1995. Não faz muito tempo, mas a coisa evoluiu e evolui muito rápido”, aponta.

A professora Sônia afirma ter não somente vivido, mas também acompanhado todas as etapas de evolução dos computadores. Quando dirigiu a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, entre 1988 e 1992, e participava ativamente da criação da Universidade de Sorocaba, Sônia chegou a visitar os escritórios da IBM no Rio de Janeiro. “Nessa época não havia um computador na faculdade, hoje, eles são capazes de fazer coisas incríveis. De qualquer forma essa maquininha me ajudou muito”, finaliza, com seu xodó, Érika, na ponta dos dedos.

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6 comentários sobre “Intelectuais relembram época da máquina de escrever

  1. Prezado Sr.Felipe, li a ultima reportagem sua sobre maquinas de escrever, principalmente vinculada ao Sr.Antonio Carlos Pereira, mecanográfico dos mais conceituados de Sorocaba. Prerciso contatar-me com ele e peço sua ajuda fornecendo me o telefone do mesmo, pois que não encontrei outra forma de contatá-lo. Sou advogado razão maior para admirá-lo.Meus cumprimentos pela excelente reportagem e continuo sendo seu leitor, parabens.
    Abraços
    Sergio Prestes.

  2. Prezado Felipe,
    Gostei muito da sua matéria “Intelectuais relembram época da máquina de escrever” publicada no úlitmo dia 17/04/2010, no Jornal Ipanema.
    A propósito, tenho duas máquinas muito antigas aqui no escritório que gostaria de reformar e dar de presente ao meu pai, afinal pertenceram ao avô dele.
    Por essa razão lhe escrevo solicitando o contato do Sr. Antônio Carlos Pereira (telefone ou endereço).
    Um abraço e parabéns pela matéria.
    Eliel Ramos Maurício Filho

  3. Sr Felipe,

    Agradeço pela boa leitura oferecida pelo seu blog. Preciso fazer um contato com o Sr. Antônio Carlos Pereira: tenho 3 máquinas de datilografia antigas que pertenciam ao Cartório do meu pai. Quero restaurá-las. Fiquei muito interessada no trabalho do Sr. Antônio Carlos.

    Como fazer contato com ele? Eu poderia enviar fotos das máquinas e, posteriormente, mandá-las para a restauração, dependendo, claro, da avaliação do mesmo sobre essa possibilidade.

    Agradeço muito.

    Kátia Matos.

  4. Olá, que orgulho ler uma matéria desta, pois estava ajudando minha irmã sobre um livro de escola que conta a história de Wolfardo Rodrigues Pereira, e na dúvida comecei a vasculhar o Google, e com muito orgulho contei a ela, que a Pessoa em que Wilson Silva conta uma história no livro Além do Arco-iris contei-lhe que Wolfardo é seu Tio-Avô irmão de Antonio Carlos Pereira que com muito orgulho digo que é meu Avô paterno , quem quiser entrar em contato com o mesmo, por favor me liguem (15) 7812-9200.
    Abraços,
    André.

  5. Felipe ,boa noite.
    Parabéns pela reportagem das maquinas de datilografia. Foi uma epoca de ouro.
    Mandei um email para voce ainda há pouco. Preciso restaurar uma maquina Olympia e não sei como localiza o Sr Antonio Carlos Peira.
    Voce me ajuda?
    Obrigado.
    PARABÉNS PELA EXCELENCIA DAS REPORTAGENS.
    Paulo Bastos

  6. Parabéns pela reportagem das maquinas de datilografia.tenho uma maquina para
    restaurar, mas onde posso encontrar o Sr. Antonio Carlos Pereira.Gostaria de ter
    um retorno. obrigado.

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