Sorocabano relata experiência de cinco copas

 Felipe Shikama

Vestindo a camisa oficial da Seleção Brasileira, o aposentado Claudine Wanildo Alves Pereira, 67 anos, orgulha-se em mostrar a primeira página de um dos jornais esportivos mais influentes da Europa. O papel amarelado do periódico italiano “Gazeta Dello Esport”, emoldurado cuidadosamente na parede de seu escritório, ainda conserva as cores vivas da bandeira do Brasil.

Seu Claudine coleciona camisas trocadas pelo mundo

Na imagem, em “close”, disparada da arquibancada de um dos sete estádios em que visitou durante a Copa do Mundo da França, em 1998, o aposentado natural de Barretos aparece entusiasmado acenando para a lente com seu famoso par de luvas gigantes com os dizeres: “Brasil/ Sorocaba/Penta neles!”.

O Brasil não conquistou o pentacampeonato desejado por Claudine e outros 180 milhões de brasileiros naquele ano. O título, inédito, viria quatro anos depois, na Copa realizada em terras do Oriente, com jogos intercalados entre Japão e Coréia do Sul.

Claudine Pereira, que nos campos de várzea de Bauru chegou a jogar ao lado de craques como Dalmo Gaspar (ex-lateral esquerdo do Santos), Romualdo (ex-volante do Noroeste) e Toninho Guerreiro (ex-centroavante do São Paulo), não é exatamente um colecionador de títulos, mas carrega na bagagem a invejável experiência de ter assistido in loco a cinco mundiais. “Fui às copas da Espanha em 1982; na do México, em 1986; na da Itália em 1990; na da França em 1998 e na última, em 2000, na Alemanha”, enumera antes detalhar as impressões que teve de cada um dos paises sede.

Coincidentemente, nas duas últimas copas em que o Brasil sagrou-se campeão – o Tetra nos Estados Unidos, em 1994, e o Penta, no Japão -, seu Claudine acabou desistindo da viagem. “Os Estados Unidos são um país muito grande, ficaria muito difícil assistir um jogo em Los Angeles e outro em Nova York, por exemplo”, justifica, sem deixar no ar a hipótese de chamado de “pé frio”. “Já em 2006 eu acabei não indo porque, no sorteio da Fifa para adquirir ingresso, eu só consegui um, para jogo da primeira fase. Então não ia compensar a viagem”, conta.

Com a vivacidade de um garoto, seu Claudine lembra da capacidade de organização dos espanhóis e não se cansa de fazer elogios à “receptividade inacreditável” do povo mexicano. “Na Espanha e no México eu fui apenas com a minha esposa. Nas outras, ela preferiu não ir e eu acabei indo com um grupo de amigos. No México nós fizemos amizade com um casal que, até hoje, a gente vai para lá, em Guadalajara, e eles, quando vêm para o Brasil, ficam na nossa casa. A amizade continua”, detalha.

Mais do que títulos do maior torneio de futebol do planeta, seu Claudine – que ao longo da vida já conheceu quase 50 paises – coleciona amigos em todos os continentes. “Quando você faz uma viagem normal, você é respeitado, mas é turista. Agora, em Copa do Mundo, você é torcedor e ser torcedor brasileiro tem muitas vantagens”, revela o torcedor.

O mundo na mala

Prova de que os brasileiros são realmente bem recebidos em todos os cantos do mundo é a valiosa coleção de camisas de times de seu Claudine. “Tenho mais de duzentas, de quase todos os países. Todas elas, eu consegui trocando por camisas do Brasil”, relata, retirando uma infinidade de uniformes de seleções de uma grande bolsa colorida com a mensagem composta por letrinhas confeccionadas artesanalmente: “Levando mé, café e muita fé”.

Entre uma camisa da seleção da Croácia e outra da Dinamarca, seu Claudine lembra que no México chegou a dar autógrafo para um grupo de crianças. “Era uma coisa absurda”, rememora o sãopaulino “doente por futebol” que, nos jogos da seleção Canarinho, conforme demonstra nos álbuns de fotografia, faz questão de se vestir sempre de forma extravagante.

“Acho que a melhor seleção que eu já vi jogar foi a de 82, que tinha Sócrates, Falcão, Júnior, Zico e o técnico Telê Santana”, opina sem risco de provocar grandes polêmicas.

O acervo de mais de três mil fotos é apenas detalhe em face à ótima memória do aposentado que veio para Sorocaba, em 1974, para ser representante comercial das máquinas de escrever Olivetti até se tornar empresário bem sucedido do ramo de móveis para escritório.

Entre um jogo e outro, seu Claudine faz questão de conhecer as cidades, os restaurantes e, lógico, trocar camisas com outros torcedores. “Eu peço para a minha filha comprar um monte de camisas ‘genéricas’ do Brasil lá em São Paulo, na 25 de março”, explica.

 Emoção

Noutra bolsa, seu Claudine guarda uma infinidade de objetos que compõem o seu “kit torcedor”. Além do famoso par de luvas gigantes, há perucas, bandeiras, faixas e cornetas. Tudo nas cores verde e amarela.

Diferentemente de grande parte dos brasileiros que se concentram à frente da televisão para ver os jogos da Seleção, seu Claudine não considera o momento do gol como o mais emocionante de uma Copa. “O melhor do jogo é a hora em que você entra no estádio lotado. É simplesmente fantástico”, descreve detalhadamente na tentativa de compartilhar a emoção vivida.

“Depois que você vai uma vez e sente isso, você quer ir a todas as outras”, diz ele, que já adquiriu ingresso para ver os sete jogos do Brasil na África do Sul.

 Sonho possível

Às vésperas da Copa da África do Sul, operadoras de turismo oferecem pacotes de viagem, com direito a ingressos para os sete jogos, vôos e traslados por U$ 38.800 dólares. Experiente, seu Claudine adquiriu os ingressos com bastante antecedência pretende voar rumo a Joanesburgo de modo independente. “Eu paguei U$ 2.700 dólares pelos sete jogos no setor 1, que tem a visão mais privilegiada. O segredo é se planejar e economizar durante quatro anos. Não gastar em coisas superfolas”, aconselha.

Para provar sua tese de que, economizando, muitos brasileiros podem ter condições de ir a uma Copa, seu Claudine exemplifica: “Se uma pessoa que fuma dois maços de cigarro por dia conseguir parar e economizar esse dinheiro, ela já consegue ver os três jogos da primeira fase”, compara.

Ainda sem local certo para se hospedar, devido ao déficit da rede hoteleira daquele país, seu Claudine confia na boa receptividade dos africanos para poder acompanhar as partidas do Brasil rumo ao Hexa campeonato. “Se alguém tiver algum parente por lá, peço, por favor, que entre em contato”, aproveita.

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