Mães contam os desafios da dupla jornada

Felipe Shikama        

Catadora, médica, militar, jornalista. Independente de profissão, região, renda ou escolaridade, milhares de brasileiras enfrentam diariamente, com alegria e coragem, os desafios de conciliar atividade profissional com as tarefas de dona-de-casa e mãe.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 90% das mulheres trabalham fora e ainda cuidam dos afazeres domésticos, que as mantêm ocupadas, em média, por mais 4,4 horas por dia.

A estatística revela que o velho dilema feminino, da escolha entre dedicação à carreira profissional ou à família, ficou para trás. O objetivo, agora, é encontrar fórmulas eficazes de se organizar para dar conta, e bem, de exercer as duas funções. “A dupla jornada é pesada, mas muitas vezes sequer reconhecida pelos filhos ou pelo próprio parceiro”, comenta a catadora de materiais recicláveis, Sheila Aparecida Siqueira, de 20 anos, mãe de Juliéser, de dois anos e meio.

Integrante da Cooperativa de Reciclagem de Sorocaba, ela deixa o filho em uma creche municipal antes das oito horas da manhã para, em seguida, entrar no seu trabalho, cuja jornada se estende até às 17 horas. “A minha sorte é que a minha mãe vai buscar ele na creche às quatro da tarde e fica com ele até eu chegar em casa. Ela me ajuda muito”, comenta.

Sheila afirma que a espera por uma vaga em creche pública para seu único filho durou cerca de um ano e meio. “Demorou bastante. Se eu não conseguisse (a vaga), nem teria condições de trabalhar”, pontua.

Jovem, Sheila demonstra ser uma mãe bastante dedicada e, timidamente, se emociona ao compartilhar as traquinagens protagonizadas pelo seu filho. “Essa idade ele já começa a perguntar as coisas. Ele pergunta tudo, quer saber o porquê de tudo e eu vou tentando explicar o que sei”, comenta a moça que já trabalhou com faxina em restaurante e em casas de família. “Mas o que eu gosto mesmo é de trabalhar com reciclagem”, emenda.

Além do peso da dupla jornada, a pesquisa do IBGE mostra que as mulheres são responsáveis por 16,8 milhões de lares brasileiros, quase 30% do total dos 56,1 milhões de famílias pesquisadas. É o caso de Sheila, cujo marido está desempregado. “Aqui (na cooperativa) eu tenho uma renda boa. Se trabalhar bastante dá para tirar até R$ 150 por semana”, revela a catadora.

Para a jornalista Ana Paula Freire, 38 anos, o bom desempenho de sua atividade profissional está intimamente ligado à sensação de “segurança” em relação aos seus dois filhos: Bruno, de 8 anos e Lorena, de apenas 1 ano. “Eu tenho de ter um esquema para me sentir segura e poder me concentrar no trabalho”, conta a assessora de imprensa da Câmara Municipal de Sorocaba.

Ex-repórter da TV Globo, Ana Paula afirma que optou por deixar a “rotina maluca” do jornalismo televisivo para exercer uma atividade mais próxima à família. “Como se diz, é um olho no padre um olho na missa. Eu tenho de dar atenção e cuidar dos dois ao mesmo tempo. É uma vida corrida, mas hoje é uma rotina que me realiza. Se não fosse eles, acho que me sentiria entediada”, revela Ana Paula, entre uma brincadeira com Lorena e a correção dos exercícios da lição de casa de Bruno. Tudo isso, após um exaustivo dia de trabalho.

A jornada dividida entre “casa, marido e dois filhos” e a clínica de dermatologia que, por dia, atende em média 25 pessoas, já poderia ser considerada puxada para a médica carioca Denise Lippi. Esposa do prefeito de Sorocaba, Vitor Lippi, ela se desdobra para exercer com seriedade e elegância a presidência do Fundo Social de Solidariedade. “Minha vida se resume a trabalhar bastante como médica. Também me dedico ao Fundo Social e sobra um pouquinho de tempo com os filhos. Mas, nesse pouquinho de tempo que sobra entra a qualidade, que é de dar atenção, saber ouvir, ser mãe amiga deles”, conta a primeira dama de Sorocaba.

No Brasil as mulheres já representam 40,3% de toda a população economicamente ativa. Segundo dados do Dieese, mais de metade delas, 56,6%, atua no setor de serviços que inclui o trabalho no comércio, transportes, bancos, escolas, administração pública, entre outros. E foi exercendo uma profissão predominantemente masculina que a bombeiro Brígida Cristina Correa, 45 anos, cuidou e educou seus três filhos.

Uma das “pioneiras do fogo” no Brasil, formada pela Escola de Bombeiros em 1991, a soldado já comemora a chegada de seu terceiro neto e trabalha, em regime de 24 por 48 horas, na prontidão do quartel do Posto de Bombeiros do Cerrado. “Hoje meus filhos já estão grandes, mas era muito difícil ficar 24 horas trabalhando aqui e deixar a criança com febre em casa”, lembra Brígida que, assim como Sheila, costumava recorrer à ajuda de sua mãe para cuidar das crianças enquanto saia para trabalhar. “A gente concilia (trabalho e família) porque a gente gosta da profissão”, complementa Brígida que ingressou sua carreira na Infantaria da Polícia Militar e, para se tornar bombeiro, teve de ser aprovada numa série e “peneiras” que recrutou 33 entre 500 candidatas.

 Preocupação enterna

 “Quando você se torna mãe, tudo muda. Até os pesadelos”, sentencia a jornalista Ana Paula Freire, revelando a preocupação com a saúde, a segurança e o futuro de seus dois filhos.

Preocupações que evidentemente são compartilhadas por todas as outras mães, porém, não raro percebidas pelos filhos como mero “exagero”. “É uma preocupação constante ainda mais no mundo atual, com violência, droga, bebida e com os perigos que tem”, complementa a mãe, médica dermatologista e primeira dama de Sorocaba, Denise Lippi.

Principalmente pela sua atividade profissional, a bombeiro Brígida Cristina Correa sabe bem dos riscos e perigos que crianças e adolescentes estão submetidos. “Não é fácil, mas na nossa profissão a gente acaba socorrendo adolescentes alcoolizados, drogados, vê muito acidente de moto. Às vezes, nestes momentos, a gente acaba sendo a grande esperança para outras mães”, discorre a militar.

 Mesmo na sua profissão, que obriga a ficar fora de casa a cada dois dias, Brígida se considera uma mãe presente e participativa. “Não sei se deu sorte, mas me acho uma boa mãe porque mesmo com horário difícil eu consegui dar a eles uma boa educação. Sempre passando os valores do militarismo e da minha família que são honra, disciplina e honestidade”, destaca ela que já é avó de um casal, o menina de quatro anos e menino de dez.

O desafio de trabalhar, se atualizar para o mercado de trabalho, cuidar dos filhos e marido, administrar a casa, entre outras tantas tarefas, não é exclusividade de Ana Paula, Brígida, Sheila ou Denise. “O bacana da mulher trabalhar é que ela dá exemplo para os filhos. Ensina na prática aos filhos que é importante crescer profissionalmente, que o dinheiro vem do trabalho”, explica Denise Lippi que diz se esforçar ao máximo para não levar estresse do trabalho para casa.

“Eu sei o tamanho do sofrimento que é a ausência, então eu tento compensar nas horas de folga. Às vezes, acho até que estrago”, comenta Brígida.

A catadora Sheila Aparecida Siqueira sabe que o futuro profissional de seu filho depende, sobretudo, de uma boa educação. “Ele vai ser o que escolher, mas se ele for policial eu vou ficar muito contente”, revela a jovem.

A vida agitada das mães que exercem dupla jornada, apesar das peculiaridades, parece ter roteiro pré-estabelecido. Acordar cedo, levar os filhos à escola, seguir para o trabalho, fazer supermercado, deixar o carro para lavar, freqüentar reunião de pais e mestres, preparar o jantar, conferir lição de casa entre outra infinidade de coisas. “Para o homem é mais fácil e acho que a ligação dos filhos com a mãe é maior”, comenta Ana Paula.

Denise Lippi considera positivo o fato de, apesar de ser primeira dama, continuar trabalhando. “Eu estou primeira dama porque o Vitor está prefeito. E é bacana para dar exemplo pra mulherada”, avalia. “Ser primeira dama não é só aquele cargo figurativo de acompanhar o esposo. Eu tenho minha vida, minha independência financeira, minha profissão e gosto de ajudar dentro de casa”, acrescenta a médica dermatologista que nota a surpresa das pessoas ao ser vista fazendo compras no supermercado ou levando ternos do marido à lavanderia.

Ana Paula Freire não se queixa da rotina movimentada de sua vida, após a chegada de Bruno e Lorena. “Tenho um monte de filme que eu não consigo ver, mas não tenho o que reclamar. Essa vida é corrida e é assim para todas as mães”, analisa a jornalista.

Os relacionamentos amorosos dos filhos Vinícius, de 22 anos, e Murilo, de  19 anos são acompanhados de perto pela mãe Denise. “Eu digo que as mulheres da minha vida serão minhas noras e minhas netas. Sou uma ótima sogra. Às vezes, quando eles terminam o namoro eu sofro mais que eles. Até choro”, comenta a primeira dama que lamenta apenas o fato de não saber cozinhar. “Não me arrisco fazer o que não entendo muito. Mas tem uma parmegiana na cidade que é muito boa. Quando os meninos estão com fome eu uso o famoso ‘delivery’”, diverte-se.

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