O “artista” quase invisível

No premiado livro “A vida que ninguém vê”, a jornalista gaúcha Eliane Brum ensina que não existem vidas comuns, apenas olhos domesticados. Seguindo essa lição, os olhares adestrados em ver aquilo que extrapola o “cotidiano”, despercebido do nosso dia-a-dia, nossa repórter fotográfica Juliana Moraes, casual e esponta-neamente, sugere a reportagem da semana: “Que moço lindo, parece até artista”, comenta portando seu equipamento fotográfico.

Arrastando rapidamente os diversos e pesados contêineres azuis, numa das ruas do Parque São Bento, conhecemos o coletor de lixo Willian Aparecido de Oliveira. Conhecido como “Nova Sorocaba” por seus colegas de trabalho – o apelido do jovem de 23 anos revela o bairro onde vive até hoje -, Willian retira uma de suas luvas de proteção e nos estende a mão direita. “Bom dia”, deseja a nós com entusiasmo raro de ser visto às sete horas da manhã de uma quarta-feira.

Há  um ano e dois meses na profissão, o coletor diz estar “adorando” sua atividade, cujo salário gira em torno de R$ 1.200,00. “Não é um emprego fácil, mas enquanto eu não arrumo outra coisa, eu vou sobrevivendo dessa atividade”, comenta Willian, ainda desconfiado das “argúcias” dos nossos olhares e das sequentes perguntas.

Com passagem por multinacionais instaladas na cidade, um dia Willian perdeu o emprego e o “acaso” o colocou na rabeira de um caminhão coletor. “Fiquei desempregado e estava distribuindo currículo quando, de repente, passei na frente da empresa (que detém a concessão do serviço de coleta de lixo em Sorocaba) e vi uma fila. Eu entreguei meu currículo e, no dia seguinte, fui chamado para trabalhar lá”, lembra-se antes de fazer uma observação inusitada. “Dentro de uma fábrica você vê sempre as mesmas pessoas, já nas ruas, todo dia é diferente”, pontua. “Na rua é mais divertido, você não vê a hora passar, vê pessoas diferentes, vê coisas engraçadas, então isso tudo ameniza a cabeça da gente”, emenda o jovem que adora brincar com os cachorros soltos pelos bairros.

Assim como as noções de liberdade e ausência de rotina, típica das indústrias metalúrgicas, Willian destaca o sentimento de igualdade entre seus colegas de profissão.  “Vale a pena porque no caminhão todo mundo é igual, na fábrica tem gente que é de nível maior”, sentencia, como numa espécie de crítica ao modelo industrial fordista, dividido nitidamente entre os tomadores de decisão, de colarinho branco, e os trabalhadores braçais, de colarinho azul. 

Riscos e dificuldades

Logicamente, a atividade de coletor não se limita aos aspectos positivos, da liberdade e da igualdade, destacados por Willian. “Além do mau cheiro, tem muita gente que não respeita. No trânsito mesmo a gente tem que ficar esperto, têm motoristas que não estão nem aí e ainda acham que estão com a razão”, desabafa antes de fazer o questionamento: “É um trabalho importante, se a gente não pegar o lixo, quem é que vai pegar?”.

A atividade de coletor, segundo Willian, também apresenta riscos de ferimentos e até contaminação. Acidentes que poderiam ser evitados se a prática da “consciência” fosse exercida em sua efetividade.  “Tenho colegas que já espetaram o dedo em agulha de seringa, caco de vidro. Eu mesmo já cortei o braço. Eu fui levantar o saco e tinha um espelho quebrado que parecia uma navalha”, detalha. 

As intermitentes brincadeiras entre os colegas, aliadas às dezenas de quilômetros percorridos diaria-mente, são o que movimentam o rapaz que confessa – apesar da aparência descrita por nossa fotógrafa – nunca ter pensado em seguir a vida de artista. “Já vieram falar isso para mim, mas eu acho que não sirvo pra isso. Tenho tantos sonhos, mas eu acho que não levo jeito para esse tipo de coisa”, responde.

A motivação pelo trabalho, no entanto, parece ir pelo ralo diante de eventuais demonstrações de des-respeito entre um ser humano e outro. “Às vezes é como se a gente fosse invisível. A gente passa e dá ‘bom dia’ e a pessoa nem responde. Isso deixa a minha autoestima lá embaixo”, detalha Willian.

Segundo ele, o respeito maior aos profissionais incumbidos em garantir a limpeza da cidade acaba vindo das regiões mais pobres. “Isso depende do bairro. O Parque São Bento é muito bom, aqui onde você passa o pessoal te cumprimenta, tem morador que oferece pão e café. Agora, tem bairro de classe média que tem gente que passa do nosso lado e até tampa o nariz”, acrescenta. 

Objetos inusitados

Embora não seja exatamente um veterano da profissão, Willian conta que neste período de pouco mais de um ano em que vem trabalhando na coleta do lixo da cidade já encontrou uma série de objetos inusitados. “Já foram achados R$ 900,00. Uma vez eu achei uma televisão funcionando normalmente. Telefone celular é o que a gente mais encontra. E não é daqueles antigos, não. É desses modernos mesmo. Quando a gente encontra tênis ou luvas em boas condições a gente vai trabalhar alegre”, revela o coletor.

“Nova Sorocaba” acrescenta que nem sempre os objetos encontrados em meio ao lixo depositado nas ruas agradam os coletores. Certa vez, lembra Willian, um rapaz chegou a seguir o caminhão na tentativa de recuperar um revólver que havia escondido no lixo. “Ele ameaçou a gente, falou um monte, a gente teve que abrir o caminhão para ele procurar. Ele chegou a ir ao aterro (sanitário) para ver se encontrava a arma, mas lá ele não pôde entrar”. O jovem também revela que seus colegas de profissão já localizaram um feto humano em lixeiras do Centro da cidade. “Isso é revoltante”, comenta. 

Preconceito

Quando não está trabalhando, Willian aproveita para conhecer novas pessoas, fazer amigos e, não raro, quando fala do seu trabalho, é surpreendido pela curiosidade alheia. “Tem gente que me pergunta se não é nojento (o trabalho). Eu falo que é melhor trabalhar desse jeito do que roubar”, sentencia o rapaz, cuja condição física, capaz de lhe dar aspecto de “artista”, modelo ou atleta é mantida apenas pela sua atividade profissional. “Às vezes a gente chega a arrastar dois contêineres no braço e correndo o dia inteiro. É um esforço físico enorme. Minha academia é levantar contêiner e correr”, diverte-se.

Willian conta que foram “poucas” as vezes em sofreu preconceito devido à sua atividade, mas, com a voz embargada pelo sentimento de indignação, tem a resposta que não deveria soar comum àqueles que têm ouvidos domesticados. “Eles nunca passaram por isso, nunca precisaram, quando precisar vão ver que a coisa não é bem assim. É um serviço honesto e tem que ter esforço”, comenta, antes de acres-centar o que, até aqui não teve a chance de dizer: “A gente merece um pouco mais de respeito. Nós somos coletores de lixo, não somos parte do lixo. Ouvir ‘bom dia’ das pessoas, por exemplo, é mais agradável. Queria dizer que sem a gente a cidade nunca fica limpa”.

Sobre a possível vida de “artista”, Willian revela que não sabe cantar, mas, sabiamente, não deixa esgotar eventuais oportunidades: “Vamos ver, se por acaso alguém gostar dessas minhas fotos e quiser fazer alguma coisa, eu aceito”, finaliza.

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Um comentário sobre “O “artista” quase invisível

  1. Fê, que lindo texto! Você é um coletor de imagens, que com sensibilidade, faz uma transcriação para as palavras. beijos

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