Celular causa dependência, aponta estudo

Felipe Shikama

Você abandona tudo o que faz para atender o celular; nunca deixar o aparelho sem bateria; não carrega o celular na bolsa ou bolso e prefere carregá-lo na mão para que possa atender imediatamente; nunca esquece o aparelho em casa e, se isso acontece, volta de onde está para pegá-lo; sente-se mal quando acaba a bateria?

Se você respondeu sim para pelo menos três dessas cinco questões, cuidado. Você pode ser dependente do telefone celular e vítima de um fenômeno dos tempos atuais batizado por especialistas de “nomofobia”, que significa no mobile, ou medo de estar sem celular, na tradução literal.

A síndrome, segundo pesquisadores, causa ansiedade, pânico, impotência, angústia que surge quando alguém se sente impossibilitado de se comunicar por estar sem o aparelho. “A pessoa não consegue se desprender da tecnologia. Deixa o aparelho ligado 24 horas por dia, inclusive na hora que vai ao banheiro ou até mesmo na hora de dormir”, explica o psicólogo Cristiano Nabuco, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP, ligado à Secretaria de Estado da Saúde.

Segundo a pesquisa, a nomofobia já atinge 20% da população brasileira. É o caso da designer gráfica Sabrina Karafá, 23 anos, que, sem pensar em abandonar a tecnologia, admite ser “viciada” e “totalmente dependente” dos seus três telefones móveis – um celular “pessoal”, outro usado exclusivamente para fins profissionais e o chamado de “livre”, que possui linha de telefone fixo, mas pode ser levado para qualquer lugar. “Meu trabalho exige que eu saia muito da agência e faça visitas na rua. Então, para atender meus clientes, só com celular mesmo. Mas nunca desligo nenhum deles”, justifica a jovem.

Para Nabuco, a nomofobia não diz respeito somente ao aparelho celular, mas qualquer tecnologia que deixe as pessoas conectadas, como computadores e notebooks.

De acordo com os números divulgados pela Agência Nacional de Telefonia (Anatel), há no país 91 celulares em cada grupo de 100 pessoas. Até o início deste ano, em janeiro, o Brasil já contava com 175,6 milhões de telefones celulares, segundo balanço divulgado pela Agência.

A Anatel prevê que em 2013 o Brasil alcance a marca de 300 milhões de celulares. Atualmente, do total de celulares, 82,62% estão na modalidade pré-paga e 17,38% no segmento pós-pago. E o número de celulares de terceira geração (3G) e de modens para acesso à banda larga móvel também continua apresentando crescimento acelerado, passando de 8,66 milhões, em dezembro de 2009, para 12,18 milhões, em janeiro deste ano. “Esse número é impressionante, principalmente porque é quase superior à população. Isso mostra como as pessoas estão cada vez mais dependentes e passaram a usar mais de um telefone”, afirma o psicólogo Cristiano Nabuco.

Alvo são os jovens

Ainda, segundo Nabuco, o mais preocupante é que qualquer um está sujeito à fobia, mas o alvo mais comum são os jovens. O especialista alerta para os sintomas mais frequentes citados no início desta reportagem. “Os jovens já nasceram nesse mundo tecnológico, já usam a própria linguagem quando estão no computador, o que pode trazer prejuízos de aprendizado já que abreviam e não acentuam quase nenhuma palavra”, alerta o pesquisador.

Se há 20 anos a primeira companhia de celular chegava ao Brasil, comercializando telefones móveis, grandes, difíceis de carregar e que quase não se via pelas ruas do país, hoje, todavia, o aparelho tornou-se um dos objetos de consumo mais populares e desejados dos brasileiros. “Não consigo ouvir mais de três toques sem ficar impaciente e corro para atender, não gosto e não consigo deixar tocando. Da mesma forma, não gosto quando uma pessoa te passa o celular e não atende ou vive desligado. Acho que se você tem um celular, é para ser encontrado em qualquer lugar a qualquer hora”, comenta Sabrina Karafá que, além de usar o celular para atender seus clientes, contabiliza, em média, troca diária de 60 torpedos “sms” com seu namorado. “É muito amor na ponta dos dedos”, diverte-se a designer gráfica.

Questionada sobre como seria sua vida sem o uso do telefone celular, Sabrina argumenta: “Com certeza o tempo não seria tão bem aproveitado. Seria impossível na minha profissão. Sempre tem uma emergência, uma alteração rápida na arte, antes da impressão, e assim fornecedores e clientes podem me encontrar rapidamente e poupamos muitas dores de cabeça”, acrescenta.

Lançamentos

Apesar de se reconhecer “dependente” do celular, Sabrina reitera que não costuma acompanhar instantaneamente o mercado de aparelhos que, a cada dia, apresenta uma novidade ao consumidor. “Não fico trocando a cada lançamento. Vontade dá, mas como eu uso mesmo para falar e ouvir musica, não vejo necessidade para mim. Até porque podem roubar ou perder e isso dá uma dor no coração e no bolso”, resume Sabrina, que faz uso de seu sexto aparelho.

Embora a cada dia apareça no mercado equipamentos cada vez mais sofisticados, capazes de tirar fotos, captar vídeos, enviar e receber e-mails entre outras funções, Sabrina se atenta basicamente à possibilidade do equipamento em reproduzir músicas no formato MP3. “Eu faço aula de canto e preciso decorar algumas musicas. Tenho (no celular) até umas músicas em karaokê para treinar. É bom quando você está em algum lugar e não tem muito o que fazer, aproveita o tempo livre. Música é minha paixão e isso foi um critério importante na escolha do aparelho”, comenta a jovem que diz gastar, em média R$ 130,00 por mês na conta dos telefones.

Para o psicólogo Cristiano Nabuco, o fundamental é ter bom senso no uso do aparelho. “Não dá para tirar totalmente o celular da vida de alguém, o importante é usar o bom senso para não se viciar”, finaliza o Cristiano Nabuco.

Telefone móvel ajuda a alavancar os negócios

Se há cerca de dez anos o telefone celular era produto acessível apenas aos mais ricos, hoje o equipamento está para lá de popular e os modelos mais sofisticados são objetos de desejo até mesmo de crianças.

Aliás, no final do ano passado o prefeito de Sorocaba, Vitor Lippi (PSDB), promulgou a Lei 9.004, de autoria do vereador José Antonio Caldini Crespo (DEM), que proíbe o uso de telefones celulares e outros aparelhos eletrônicos que interfiram no processo de aprendizado dos alunos nas salas de aula das escolas municipais. Na mesma direção, o então governador José Serra (PSDB) sancionou lei que veta o uso do equipamento nas escolas públicas do Estado de São Paulo.

Provas de que o equipamento se tornou um ícone do consumo podem ser notadas na televisão, nas mais diversas campanhas do comércio varejista, em datas sazonais como Dia das Mães, Dia dos Pais e Natal. Apenas em janeiro foi vendido 1,64 milhão de novas linhas de celulares, o que representa um crescimento de 0,94% ante o saldo de dezembro do ano passado, segundo dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

Para todos os bolsos

Em Sorocaba, lojas especializadas oferecem aparelhos para todos os gostos e bolsos. “Temos telefones a partir de R$ 100 até os mais caros que chegam a R$ 1,5 mil. Os mais procurados hoje são aqueles que permitem o uso de dois chips porque quase todo mundo tem linha em mais de uma operadora”, detalha Carlos Camargo, gerente de uma revendedora de celulares localizada na região central de Sorocaba.

Aparelhos com múltiplas potencialidades que ultrapassam o seu objetivo inicial: o de se comunicar à distância com uma outra pessoa. “Os celulares são um centro de entretenimento que oferece jogos, câmera fotográfica, GPS, permite envio de emails, MSN, entre outros recursos. Hoje, no celular, é possível instalar um aplicativo do Google Maps que você consegue ver a localização exata dos seus amigos”, comenta o consultor de tecnologia e negócios Ricardo Marques, colaborador do Ipanema Online (www.jornalipanema.com.br).

Segundo ele, os celulares extrapolam as diversas funcionalidades do entretenimento e, cada vez mais, se reafirmam como útil ferramenta de trabalho. “Com uso de celular PDA (que funciona como um computador), funcionários de uma empresa de distribuição de bebidas, por exemplo, conseguem fazer o lançamento dos pedidos e a empresa consegue monitorar melhor a rota dos vendedores. Hoje o celular é um alavancador de negócios”, acrescenta o especialista que aponta que a tendência nos próximos anos deverá ser as promoções enviadas por mensagens no celular, enviadas via “bluetooth”.

Sem celular

No país onde há 91 celulares para cada grupo de 100 pessoas, não foi tarefa fácil encontrar ao menos uma que, por opção, não faz uso do equipamento portátil. “Nunca carreguei comigo um telefone celular, não tenho necessidade disso. Eu tenho horário de sair e chegar à minha casa, e no trabalho não tem porque ficar conversando”, argumenta o programador de produção Amauri Ferreira dos Santos, 64 anos.

Destacando que não tem nada contra as pessoas que fazem uso do celular, Santos acredita que muitos acidentes de trânsito são provocados no momento em que os motoristas falavam ao aparelho. “Eu já vi muita besteira feita por motorista que estava falando no celular”, alerta.

O metalúrgico, que diz viver “tranquilamente” sem o uso do aparelho, acrescenta que não pretende fazer uso do telefone celular nem mesmo diante de eventual imprevisto. “Teve apenas uma vez que eu estava indo trabalhar e sofri um acidente de carro. Eu usei o telefone de uma padaria para ligar para casa. mas não preciso de celular”, comenta, lembrando a prática frequentemente adotada antes do advento dos telefones móveis. “Vivo tranquilamente sem celular. Eu só não sei de onde as pessoas tiram tanto assunto para falar o tempo todo ao telefone”, conclui.

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