Sinuca e a aristocracia sorocabana

Felipe Shikama

No sofisticado salão de jogos do Ipanema Clube, duas grandes mesas cobertas pelo nobre feltro verde são respeitosamente disputadas por senhores que, no final do expediente, se encontram para a prática do esporte, cuja origem, até hoje, é objeto de polêmica. “A origem da sinuca é controversa e existem referências à França, Inglaterra, Grécia, e outros. Mas é importante destacar que, ao contrário do que muita gente pensa, a sinuca é, sim, um esporte”, defende o sorocabano Paulo Dirceu Dias, ex-dirigente da Federação Brasileira de Sinuca e Confederação Paulista da modalidade.

Reconhecido no Brasil como um dos maiores divulgadores e incentivadores dos jogos de bilhar e autor do livro “Snooker: tudo sobre a sinuca”, escrito em parceria com o romancista e tradutor gaúcho, Sérgio Faraco, Paulo Dias foi convidado recentemente pela diretoria de esportes do Ipanema Clube para difundir a prática da modalidade entre os senhores da elite sorocabana. “Eu organizei um ranking e um campeonato interno para estimular os sócios a jogarem. Eles estão muito interessados e evoluindo rapidamente, tanto que já estão reinvidicando a compra de outras mesas”, explica o comerciante aposentado que teve seu primeiro contato com bolas e caçapas aos 13 anos de idade.

O jogo “que exige destrseza, paciência e concentração”, e que por anos ficou chafurdado no ostracismo dos salões de condomínio ou, mais insalubremente, em companhia de nicotina e álcool dos botequins,  retorna agora às suas origens aristocráticas. “Acho que ele está vontando de onde se originou. Afinal, é um jogo elitizado”, comenta Elias Esser, que deu suas primeiras tacadas durante a juventude no extinto clube sírio-libanês.

 “Quando esse salão foi construído, em 1982, nós jogavamos e a dupla que perdesse tinha de pagar um jantar, com as esposas, no melhor restaurante da cidade”, rememora Gilson Scarpa, um dos jogadores mais antigos do Ipanema Clube que, ao lado de Esser, joga durante duas horas todos os dias da semana. “Só não venho jogar se estiver com 40 graus de febre”, acrescenta.

 O mestre

Apontado por Paulo Dias como “o melhor jogador de Sorocaba”, o representante comercial Paulo Sérgio da Silva Gomes, 61 anos, mostra-se imperdoável e milimétrico na arte de encaçapar as coloridas bolas importadas da Bélgica.

 Paulo Sérgio, que já disputou partidas contra mestres como Rui Chapéu na “categoria ouro” da Federação Paulista, revela que se afastou dos torneios em 1995 por problemas na visão, mas com o estímulo dado pela diretoria do clube, retomou o contato com o feltro verde. “Para o homem, a competição é extremamente sadia, mas eu, hoje, só jogo por lazer”, explica o sócio, assíduo praticante da sinuca.

 Malandragem

Paulo Dias explica que por muito tempo a sinuca, cuja regra é derivada do bilhar, teve sua imagem esteriotipada por “malandros” do centro do Rio de Janeiro que percorriam as cidades do interior para tomar dinheiro em partidas apostadas. “A popularíssima ‘sinuquinha’ é o nascedouro de grandes campeões. Tendo sido inicialmente jogo exclusivo da elite, a intensificação do uso em locais humildes, onde eventualmente jogadores experientes tentavam arrecadar alguns trocados dos incautos iniciantes, às vezes envolvendo bebidas alcoólicas, trouxe a antiga e falsa imagem de jogo de malandro”.

Hoje, segundo Dias, a prática maior é a “desportiva” e “de lazer”, que são promovidas pela Confederação Brasileira e suas Federações, acontecendo também nas residências, associações, grêmios e clubes, além de simples ou luxuosos salões especializados. “Todo mundo joga ou já jogou sinuca”, defende o incansável, e democrático, divulgador do esporte.

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