Mais acessível, cirurgia plástica conquista adolescentes

Felipe Shikama

Segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), dos 629 mil procedimentos cirúrgicos estéticos realizados no Brasil, entre setembro de 2007 e agosto de 2008, 8% foram feitos em adolescentes e a expectativa é de que esse número cresça ainda mais nos próximos anos.

O cirurgião plástico Gal Moreira Dini, professor doutor da Unifesp, afirma que o interesse de adolescentes e jovens em serem submetidos a uma intervenção cirúrgica tem se mostrado uma tendência dos últimos anos e principal motivo, destaca, é a mudança de comportamento e a necessidade de se inserir em determinado grupo social. “Na geração passada, para uma adolescente estar na moda e fazer sucesso bastavam um celular novo ou uma roupa exclusiva. Hoje, isso não basta. Ter uma prótese de mama, uma cintura esculpida pela lipoaspiração, um nariz perfeito, fazem parte do “arsenal” de diferenciação e glória em seu grupo social”, assinala.

Na mesma linha, o cirurgião plástico Marcos Eduardo Bercial, membro do corpo clínico dos hospitais Sírio-libanês, São Luiz e Albert Einstein, atribui o avanço das cirurgias plásticas em idade precoce à fácil difusão dos padrões de beleza tidos como ideal. “Hoje, no mundo globalizado e com acesso à internet, o valor de beleza está mais evidente do que há alguns anos atrás”, detalha.

Moreira Dini observa que a adolescência, o período de transição entre a infância e a idade adulta, compreende em uma fase de grandes mudanças no corpo e principalmente na mente. Segundo ele, a grande facilidade de acesso a informações no mundo digital e globalizado trouxe uma prematuridade de preocupações e incertezas. “Além disso, implantou nestes jovens conceitos pré-determinados de comportamento e aparência até então reservados à vida adulta”.

Pós-graduando da Unifesp, Bercial destaca que o Brasil, atualmente, é o país que lidera o ranking mundial de cirurgias estéticas. “Ao longo dos últimos anos, até pelo bom momento econômico do país, a cirurgia plástica está muito mais acessível para todos. Antes, era só para a elite e hoje posso dizer que já democratizou. Você tem parcelamento, consórcios, enfim, uma série de condições que encaixam no orçamento”, analisa o médico que explica que nos últimos dez anos, o número de pacientes do sexo masculino cresceu em 20%. “Os homens, geralmente mais velhos que as mulheres, estão procurando bastante cirurgias de lipoaspiração, de pálpebras e de rosto. Todas no sentido de melhorar a aparência mesmo”, relata. Já entre as mulheres com idade entre 15 a 18 anos, relata o especialista, lideram as operações de rinoplastia (correção no nariz) e aplicação de prótese nos seios. “Muitas jovens acabam pedindo, e ganhando, a cirurgia de presente dos pais e dos namorados”, revela Bercial.

 Autoconfiança

A compradora Michelle Ramalho, 30 anos, decidiu encarar o bisturi pela primeira vez aos 17 anos, para redução da mama. “Com aquela idade, eu usava sutiã 44. Meus seios não eram tão grandes, mas chamavam muita atenção na escola e eu tinha muita vergonha. Queria que isso terminasse e fiz a cirurgia. Não me arrependo”, lembra.

Com o apoio dos pais, inclusive financeiro, Michelle destaca que antes de se submeter a uma cirurgia plástica, o fundamental é pesquisar o maior número de informações sobre o médico. “Hoje, diferentemente daquela época, é ainda mais fácil pesquisar. Eu não me arrependo em ter feito a cirurgia porque passei a me sentir muito mais autoconfiante e muito mais realizada”, acrescenta a compradora que, posteriormente, outros dois procedimentos de lipoaspiração.

Tortura psicológica

“Armas psicológicas que tanto vivenciamos no passado através dos apelidos hoje se aprimoraram e viraram o “bulling”, comenta o médico Gal Moreira Dini, lembrando que os apelidos podem ter capacidade de estigmatizar e marginalizar os adolescentes de eu grupo social. “Isso é muito ruim. Pode destruir não só a auto imagem e auto estima, mas a sua futura sexualidade”.

Segundo Moreira Dini, quanto mais tempo o adolescente é exposto aos seus traumas, mais estes se fixam em seus inconscientes.  “No mundo contemporâneo, com um celular, um jovem pode tirar uma foto de uma orelha em abano ou um nariz grande e repassar em segundos para todos seus colegas mesmo em cidades diferentes, disseminando este estigma no mundo cibernético. Antigamente as provocações eram no “boca a boca”.  

Riscos

Questionado sobre os eventuais riscos de ser submetido a uma cirurgia plástica durante a adolescência, Moreira Dini afirma os jovens “têm os mesmos baixos riscos que o adulto” “Os riscos de vida, coisa tão temida, estão mínimos devido aos grandes avanços da medicina, desde que a cirurgia seja realizada por médicos que realizaram o mínimo obrigatório de 11 anos de faculdade para obter o título de membro da SBCP”, ressalta.

Na cirurgia plástica, segundo ele, o maior problema está na expectativa exagerada. “O erro de achar que se fizer uma lipoaspiração poderá comer o que desejar e levar uma vida sedentária que nunca mais engordará. A cirurgia plástica opera o corpo, mas o grande ganho é na mente”, finaliza Moreira Dini. 

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