Jovens são maiores vítimas de acidentes de motocicleta

Felipe Shikama

A falta de preparo dos motociclistas e o aumento da frota em todo o país são os principais responsáveis pelo aumento significativo de acidentes envolvendo motocicletas.

De acordo com pesquisa orientada pelo coordenador da área de Cirurgia Geral e Trauma da do curso de Medicina da PUC-Sorocaba, José Mauro Rodrigues, em 2009, o Pronto Socorro do Hospital Regional atendeu em média 120 vítimas de acidentes de motocicleta por mês. “Independente da gravidade, o Resgate do Corpo de Bombeiros e o Samu (Serviço de Atendimento Médico de Urgência) são orientados a levar as vítimas para o Regional. Hoje já temos uma média de quatro acidentes pela manhã e outros quatro na parte da tarde”, comenta o Rodrigues.

Estimativa do Ministério da Saúde aponta que cerca de 30 pessoas morrem por dia em decorrência de acidentes com motos no Brasil, chegando a 10 mil mortos por ano.

Além do número alto, e crescente, de acidentes envolvendo motos em Sorocaba, a pesquisa aponta outro fator preocupante: 62% das vítimas são jovens com idade entre 15 e 29 anos. “Os acidentados com idade entre 15 e 19 anos correspondem a 15%. Eles nem sempre são os condutores, mas são, na maioria das vezes, os garupeiros. Já os jovens com idade entre 20 e 24 anos correspondem a 28,4% das vítimas socorridas”, detalha o médico.

Mauro Rodrigues assinala que nos últimos anos houve mudança no perfil das vítimas, porém os motoboys continuam estigmatizados pela sociedade devido às freqüentes manobras imprudentes justificadas pela “tirania do relógio”. “Houve uma modificação importante na utilização da moto. O ciclomotor deveria ser encarado como veículo de recreação. As pessoas deveriam ter uma moto para andar num final de semana ensolarado, sem trânsito. Mas ela tem sido usada como veículo de transporte mesmo e isso traz inúmeras questões graves. Quando usada num dia de chuva, por exemplo, sem condições adequadas, tudo isso acaba favorecendo os acidentes”, completa.

Preço acessível

De acordo com dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), em Sorocaba as motos já representam 17,5% dos veículos emplacados na cidade. Até o final do mês de abril, data do último levantamento divulgado pelo Denatran, a cidade contava com frota de 302.600 veículos, sendo 52.976 motocicletas.

“A coisa ultimamente está tão grave que temos atendido ocorrências de colisão entre duas motos. A gente infelizmente se acostumou a dizer que eles são os nossos ‘clientes preferenciais”, alerta Valdinei Falco, cabo do Corpo de Bombeiros de Sorocaba.

Além da economia de combustível – alguns modelos podem rodar até rodam até 40 quilômetro por um único litro de gasolina – as atrativas condições de financiamento justificam o aumento crescente de motos pelas ruas de todo o país.

No mercado, é possível adquirir moto zero quilometro, por meio de financiamento,  em parcelas que giram em torno de R$100 a R$170 durante 50 meses. “Hoje em dia está muito fácil comprar uma moto. Isso, logicamente é positivo, mas quando não se tem preparo e responsabilidade para conduzir o veículo, pode ser muito perigoso”, alerta Cláudio Cordeiro, motociclista há TANTOS anos, presidente do motoclube Black Sheep e membro do Conselho Municipal de Trânsito.

Formação e consciência

Para Roberto Alarcon, diretor de ensino de um Centro de Formação de Condutores de Sorocaba, a recente alteração no Código Nacional de Trânsito, que eleva de 30 para 45 a carga horária teórica dos condutores contribui com a melhor formação dos novos motociclistas. No entanto, ressalta Alarcon, a prevenção e redução de acidentes dependem da consciência e responsabilidade de motoristas e motociclistas. “Nosso maior desafio é despertar a consciência dos alunos, para que se tornem motociclistas responsáveis, cautelosos, e preparados para que não provoquem nem sejam vítimas de acidentes de trânsito”, defende.

Entre as medidas usadas no curso de formação de condutores para despertar a consciência dos novos motociclistas, Alarcon aponta a exibição de fotografias e imagens de acidentes reais. “Nossa idéia realmente é chocar. De mostrar que os acidentes acontecem e de como acontecem”, explica.

Traumas frequentes

O médico especialista em trauma José Mauro Rodrigues explica que diferentemente dos acidentes registrados em estradas, cujo índice de mortalidade é elevado, os acidentes ocorridos na cidade, de forma geral, provocam consequências leves. “A maioria dos acidentes envolve lesões de membros inferiores (pernas). No entanto, apesar da pouca mortalidade, eles trazem consequências significativas pra pessoa. Ela vai se afastar do serviço, vai ter de ser submetida à cirurgia, fisioterapia, tratamentos logos, enfim, uma série de procedimentos que fazem com que a pessoa fique afastada de seu trabalho, podendo inclusive, eventualmente ficar com sequelas permanentes”, explica.

Prejuízo social

Além do sofrimento familiar, o afastamento (temporário ou permanente) do trabalho devido a um acidente de trânsito incide em alto prejuízo econômico e social. Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil gasta cerca de 28 bilhões por ano para atender, internar e prestar assistência às vítimas de acidentes de trânsito. “É um tratamento que é socializado, porque todo mundo paga a conta destes atendimentos através dos impostos. O serviço público gasta muito com esses pacientes e a gente paga muito caro”, analisa o médico.

“Sensação de imortalidade”

Rodrigues observa que grande parte dos motociclistas vitimados em acidentes e socorridos no Pronto Socorro do Hospital Regional são reincidentes. “É muito comum a gente perceber que os jovens que estão chegando para ser atendidos já sofreram outros acidentes antes. Alguns estão lá pela terceira ou quarta vez”, comenta.

Segundo ele, o perfil dos motociclistas acidentados, em sua grande maioria homem, com idade entre 18 e 29 anos – e que faz uso da motocicleta como meio de transporte – é reforçado pela noção de “imortalidade” típica dos jovens. “O jovem tem uma sensação de imortalidade que é própria da idade. E essa sensação faz com que ele se exponha mais aos riscos e aos perigos da vida, o que faz com que eles acabem sendo as maiores vítimas de acidentes”, finaliza.

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