Gravidez na adolescência diminui, mas ainda preocupa

Felipe Shikama

O número de adolescentes grávidas no Brasil caiu 34% na última década. Em 2000, segundo levantamento do Ministério da Saúde, 679.358 meninas se tornaram mães antes de completar 18 anos. Já em 2008, essa queda, em números absolutos, contabilizou 444.056 adolescentes.

Em Sorocaba, a redução da gravidez “precoce”, no mesmo período, foi de 41,5%, queda que representa 7,5% mais acentuada que a média nacional. “Sorocaba está bem abaixo da média brasileira. O problema, ao olhar esses dados, é que o ECA [Estatuto da Criança e do Adolescente] e o SUS [Sistema Único de Saúde] acabam não falando a mesma língua. Não temos números mais específicos, da idade exata das meninas menores de 19 anos”, explica a secretária da Juventude, Edith Di Giorgi.

Em 1998, 1.884 sorocabanas com idade até 19 anos deram à luz. Em 2009, este número caiu para 1.102. Todavia, apesar da queda significativa, especialistas vêem os números com preocupação, sobretudo porque grande parte dos casos é o de reincidência. “Algumas pesquisas apontam que 60% das meninas engravidam de novo em menos de dois anos”, acrescenta Edith, ex-coordenadora do Programa de Planejamento Familiar da Secretaria de Saúde de Sorocaba.

Educação é imprescindível

Maria Helena Vilela: educação sexual é fundamental

Para a educadora sexual Maria Helena Vilela, diretora do Instituto Kaplan – que desenvolve metodologia e capacita profissionais para atuar em educação sexual -, o papel da escola é essencial na orientação e prevenção da gravidez. “A gravidez na adolescência tem muitos fatores, mas, sem dúvida nenhuma, a educação sexual é um dos principais que interferem na decisão ou na condição de uma jovem de engravidar na adolescência”, conta.

Segundo Maria Helena, é fundamental que os adolescentes não apenas saibam, mas de fato tenham consciência do porque este corpo se reproduz, o impacto que uma gravidez pode trazer na vida deles e como evitar em um momento que eles não estão prontos para isso. “Portanto, o trabalho com educação sexual é imprescindível na vida desses jovens. Eles precisam ser bem preparados para esta realidade em que eles vivem hoje, daí a importância do trabalho de educação nas escolas, via internet, nos postos de saúde, enfim, onde os jovens estiverem”, orienta. “O que eles (adolescentes) precisam é de um espaço para que eles tenham consciência de que adolescência não é o melhor momento para eles terem um filho”, completa.

“Fazendo o futuro”

Espaço – e orientação – para exercitar a consciência dos adolescentes. Semelhante ao que sugere Maria Helena Vilela, o Grupo Piracema, credenciado à Associação Brasileira de Terapia Comunitária, promove em Sorocaba o projeto “Fazendo o Futuro”.

Por meio de convênio com a prefeitura, terapeutas do grupo oferecem workshops para dezenas de adolescentes que, de volta às suas escolas, atuam como “agentes multiplicadores”. “A espinha dorsal desse projeto não é a de dizer o que eles (jovens) devem ou não fazer, até porque dessa forma teria pouca eficácia, mas, sim, criar o diálogo entre os adolescentes e mostrar os caminhos de possibilidades, os processos para o futuro”, explica José Simonetti, coordenador do projeto Fazendo o Futuro.

Projeto apresenta caminhos e possibilidades aos adolescentes

O projeto que começou em 2007, a partir do alerta de membros de grêmios estudantis, que se queixavam do alto número de meninas grávidas, atualmente dialoga com alunos de 52 escolas públicas da cidade. E, segundo Simonetti, visa capacitar adolescentes para promover o debate acerca de temas como drogas, violência, sexualidade e prevenção da gravidez. “Nós trabalhamos com um planejamento sistêmico, pois não dá para falar apenas em método contraceptivo sem falar em sexualidade e em doenças sexualmente transmissíveis [DST]”, acrescenta Simonetti.

Segundo ele, o objetivo do Fazendo o Futuro, como o nome diz, é despertar os adolescentes para pensar nas possibilidades que a vida oferece. “O nosso objetivo é o próprio processo, que deve estar em transformação sempre. Ou seja, aos poucos os adolescentes vão pensando nos seus comportamentos, nas suas atitudes e aonde eles querem chegar e isso, esse conjunto de atitudes responsáveis, faz toda a diferença”, argumenta o terapeuta.

Tabu e informação

Terapeuta José Simonetti, coordenador do Fazendo o Futuro

Na avaliação de Simonetti, a conversa sobre sexualidade entre adolescentes e pais já é enfrentada com mais naturalidade, mas ainda esbarra no velho tabu. “Melhorou muito a conversa em casa, mas ainda há muita dificuldade recíproca entre pais e filhos. Acho que hoje as informações estão mais acessíveis, mais rápidas, mas a informação só pela informação é pouco e é pobre. Por isso nos preocupamos em apontar aos adolescentes os diversos caminhos que a vida oferece”, argumenta.

Neste sentido, o especialista em terapia familiar alerta para as dificuldades de uma eventual gravidez na adolescência. “Tanto para a menina quanto para o menino, que é co-responsável, a gravidez na adolescência não é saudável. É como se cortasse as asas, e os vôos ficam mais curtos”, compara Simonetti.

Gravidez precoce nem sempre é indesejada, afirma secretária

Secretária Municipal da Juventude, Edith di Giorgi, aponta dois motivos principais para a redução dos casos de gravidez precoce registrada nos últimos anos (veja quadro): mais informação aos adolescentes e acesso facilitado aos métodos contraceptivos. “Além do diálogo sobre sexualidade, que já está mais aberto; outro aspecto importante para essa queda é o acesso aos métodos para prevenir a gravidez indesejada”, aponta.

Secretária da Juventude, Edith Di Giorgi

De acordo com levantamento feito pela Secretaria Municipal de Saúde, 32 meninas com menos de 15 anos se tornaram mãe em 2009 em Sorocaba. Edith assinala que, na adolescência, as jovens não possuem experiência necessária para criar uma criança. “Quando eu era coordenadora do programa municipal de Planejamento Familiar, conheci muitas meninas de dezesseis, doze e até onze anos de idade que estavam grávidas. É muito complicado porque a adolescente tem de aprender a cuidar de um bebê em um período em que ela mesma ainda precisa de cuidados”, comenta.

Para a educadora sexual Maria Helena Vilela, diretora do Instituto Kaplan – que tira dúvidas sobre sexualidade a todos os interessados via MSN (programa de conversa simultânea na internet), o mundo digital abre o espaço para que os jovens tenham acesso a todo o tipo de informação, porém é preciso saber separar o joio do trigo, o que para os jovens nem sempre é tarefa fácil. “É isso que nos procuramos fazer no nosso trabalho, buscar a atenção do jovem para aquilo que ele de fato precisa saber e saber usar a sua sexualidade em seu benefício e não contra ele mesmo”, afirma.

Desejo precoce

Com conhecimento de causa, Edith revela que grande parte dos casos de gravidez na adolescência não é necessariamente “indesejada”. Advogada e médica pediatra, ela conta que enquanto atuou profissionalmente na Policlínica Municipal, no programa “Gerações Teen”, que presta atendimento às adolescentes grávidas, constatava com frequência o “desejo equivocado” de ser mãe precocemente. “Existe um desejo de engravidar, mas é um desejo equivocado. É, na verdade, o desejo que elas têm de mudar de vida, de achar um papel na sociedade, de ficar com o príncipe encantado, enfim. O desejo não é propriamente ter um filho”, afirma.

Como uma crônica social, o desfecho desta “estória” tem poucas variações. “Quase sempre dá errado. O parceiro não assume o filho, a violência também aparece. Há problemas de falta de dinheiro, da reação negativa da família, de não ter aonde morar”, elenca Edith.

Além disso, detalha a secretária da Juventude, é significativa a parcela de jovens mães que acabam abandonando os estudos. “Por esses motivos é que acaba havendo a reincidência. Muitas ficam grávidas de novo, às vezes de outro parceiro. O problema não é só a gravidez precoce, mas as condições que ela se dá”, detalha.

Entre os elementos da narrativa que com freqüência se repente e é capaz de colocar uma criança nos braços de outra criança, Edith aponta a condição de vulnerabilidade, não apenas econômica, mas também psicológica. “A renda (baixa) não é decisiva na questão da vulnerabilidade. Essas meninas são vulneráveis também em sua estrutura familiar”, explica.

O retrato comum das meninas que engravidam em busca da “solução dos problemas”, porém, não pode ser observado de forma isolada. “Acho uma sacanagem culpar a questão da gravidez na adolescência apenas às meninas. A responsabilidade também é do parceiro, é dos dois. Acho que isso tem muito a ver com a desvalorização do papel da mulher, mas isso é outra discussão”, finaliza. (F.S).

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2 comentários sobre “Gravidez na adolescência diminui, mas ainda preocupa

  1. Parabéns pela reportagem, Felipe. Está completa, explorando dados, experiências, ouvindo quem atua e conhece a área e, o mais importante, neste contexto da gravidez precoce, provocando uma reflexão no leitor sobre esta questão. É fácil pensar que a responsabilidade é apenas da jovem. A matéria deixa clara a repercussão preocupante que uma gestação na adolescência provoca não apenas na vida dela, mas na vida da criança, da família, da comunidade onde ela vive e da sociedade. Todos precisamos pensar sobre isso, sim!

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