MST: Os estágios da luta (que não avança, mas resiste!)

Felipe Shikama

“A luta pela reforma agrária no início do MST não a mesma de hoje”, anuncia Neuri Rossetto, secretário do Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra.

Às vésperas do feriado da Independência, a sentença inicial do ex-seminarista catarinense, mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP, precede a minuciosa análise – das oportunidades perdidas – da reforma agrária no país que, desde seu “descobrimento”, nunca aconteceu.

Falando para um pequeno grupo de estudantes, numa das poucas disciplinas em que as questões do campo transgridem a “cerca” do olhar criminalizante da “grande mídia” – cerca que literalmente separa os trabalhadores rurais da própria terra -, Rosseto detalha o perverso processo político e histórico que foi capaz de transformar a velha e atrasada oligarquia latifundiária em moderno e sofisticado agronegócio. 

De 1500 para cá, o modelo “agroexportador” marcado pela grande propriedade, pela monocultura (de açúcar e posteriormente de café) e pela mão-de-obra escrava se sofisticou e, seguindo a lógica neoliberal, explica Rosseto, distanciou ainda mais os trabalhadores rurais do acesso à da terra. “O grande latifúndio foi consolidado em 1950, com a promulgação da primeira Lei de Terras que previa a livre ocupação de terras devolutas que, até então, eram de propriedade da Coroa Portuguesa”, detalha.

O novo inimigo – Neste contexto, cujo direito de domínio se transforma em direito de uso, o acesso à terra, monopolizado pelos chamados “homens bons” (brancos e ricos) , só se torna possível por meio de compra. “O que, evidentemente, excluiu os mais pobres e ampliou a riqueza e a propriedade das oligarquias”.

Segundo Rossetto, o advento neoliberal, que agravou ainda mais as fissuras sociais do país, impulsionou a divisão do capital no mundo. Enquanto a alta tecnologia dos meios de produção são hegemonizados pelos países do centro – Estados Unidos e Europa -, e a mão-de-obra e em larga escala é oferecida por trabalhadores do sudeste asiático, resta aos países do hemisfério sul o papel de serem os abastecedores de produtos primários para o mercado globalizado. “O agronegócio é uma imposição da economia mundial”, constata.

O advento das empresas transnacionais, em busca de novas formas de abastecer a indústria com “eficácia”, aliado a um pequeno grupo de grandes proprietários – cada vez mais capitalizados – compõe e caracteriza o agronegócio, novo inimigo dos trabalhadores sem terra.  “Antes a nossa luta era contra o atraso dos coronéis latifundiários. Hoje lutamos contra o que há de mais moderno na economia mundial que é o argonegócio”, admite o dirigente sindical.

Reforma popular – Identificado o “novo inimigo” que, seguindo a perversa lógica do acúmulo de bens, também entra na disputa de terras ociosas, a questão final a ser respondida por Neuri Rossetto é como encarar esse recente estágio da luta.

Lembrando o marxista italiano Antonio Gramsci, Rossetto afirma que o enfrentamento do agronegócio, a ampliação da agricultura familiar e a efetividade da reforma agrária dependem de organização e educação da população urbana. “Nesse estágio da luta, o MST defende o que chamamos de reforma agrária popular. A gente acredita que é preciso educar e organizar a população urbana e isso logicamente leva tempo”, comenta.

Admitindo haver no momento um cenário de “dissenso social” em relação à reforma, Rossetto afirma que o ritmo da luta é determinado pelas condições das famílias. “Não estamos avançando na luta, estamos fazendo resistência (ao agronegócio)”, conta Rossetto, retomando o pensamento marxista do autor de Cadernos do Cárcere. “O velho morreu e o novo ainda não nasceu (…)”.

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