O lacerdismo, o jornalismo canalha e os padrões de manipulação

Neste momento em que, às vesperas da eleição presidencial, o golpismo lacerdista resurge e a velha direita – com vozes amplificadas pelo aparato privado de meia dúzia de famílias que compõem a oligarquia midiática brasileira, reproduzo abaixo fragmentos da obra de Perseu Abramo intitulada “Padrões de manipulação da grande imprensa”.

Sugiro tal leitura porque creio que nunca, na história recente do país, discutimos – e observamos – tantas práticas de manipulação pela grande imprensa como agora.

É descarado e grosseiro, porém em vão,  os esforços de manipulação exercídos pelos membros canalhas do Partido da Imprensa Golpista (PIG), indignados e ainda incapazes de aceitarem a escolha da maioria da população: a de dar continuidade com o projeto popular democrático, de conciliação de classes, iniciado há oito anos por Lula.

Perseu Abramo

1. Padrão de ocultação
É o padrão que se refere à ausênsia e à presença dos fatos reais na produção da imprensa. Não se trata, evidentemente de fruto do desconhecimento, e nem mesmo de mera omissão diante do real. É, ao contrário, um deliberado silêncio militante sobre determinados fatos da realidade. Esse é um padrão que opera nos antecedentes, nas preliminares da busca da informação, isto é, da programação ou da matéria particular daquilo que na imprensa geralmente se chama de pauta.

A ocultação do real está intimamente ligada àquilo que freqüentemente se chama de fato jornalístico. A concepção predominante – mesmo quando não explícita – entre empresários e empregados de órgãos de comunicação sobre o tema a de que existem fatosjornalísticos e fatos não-jornalísticos e que, portanto, à imprensa cabe cobrir e expor os fatos jornalísticos e deixar de lado os não-jornalísticos.
Evidentemente, essa concepção acaba por funcionar, na prática, como uma racionalização a posteriori do padrão de ocultação na manipulação do real.

Ora, o mundo real não se divide em fatos jornalísticos e não-jornalísticos, pela primária razão de que as características jornalística, quaisquer que elas sejam, não reside no objeto de observação, e sim no sujeito observador e na relação que este estabelece com aquele.

O “jornalístico” não é uma característica intrínseca do real em si, mas da relação do jornalista, ou melhor, o órgão do jornalismo, a imprensa, decide estabelecer com a realidade. Nesse sentido, todos os fatos, toda a realidade pode ser jornalística, e o que vai tornar jornalístico um fato independe das suas características reais intrínsecas, mas depende, sim, das características do órgão de imprensa, da sua visão de mundo, da sua linha editorial, do seu projeto, enfim, como se diz hoje.

Por isso o padrão de ocultação é decisivo e definitivo na manipulação da realidade: tomada a decisão de que um fato não é jornalístico, não há a menor chance de que o leitor tome conhecimento de sua existência por meio da imprensa. O fato real foi eliminado da realidade, ele não existe.

O fato real ausente deixa de ser real para se tornar, se transformar em imaginário. E o fato presente na produção jornalística, real ou ficcional, passa tomar o lugar do fato real e a compor, assim, uma realidade diferente da real, artificial, criada pela imprensa.

2. Padrão de fragmentação
Eliminados os fatos definidos como não- jornalísticos, o resto da realidade é apresentada pela imprensa ao leitor como uma realidade, com suas estruturas e interconexões, sua dinâmica e seus movimentos e processos próprios, sua causas, suas condições e suas conseqüências.

O todo real é estilhaçado, despedaçado, fragmentado em milhões de minúsculos fatos particularizados, na maior parte dos casos desconectados entre si, despojados de seus vínculos com o geral, desligados de seus antecedentes e de seus conseqüentes no processo em que ocorrem, ou reconectados e reinculados de forma arbritária e que não corresponde aos círculos reais, mas a outros ficcionais e artificialmente inventados.

Esse padrão também se operacionaliza no momento do planejamento da pauta, mas principalmente no da busca da informação, no da elaboração do texto, das imagens e dos sons, e no de sua apresentação, a edição.

O padrão de fragmenação implica duas operações básicas: a seleção de aspectos, ou particularmente, do fato e a descontextualização. A seleção de aspectos do fato que é objeto da atenção jornalística obedece a princípios semelhantes aos que ocorrem no padrão de ocultação.

Embora tenha sido escolhido como um fato jornalístico e, portanto, digno de merecer estar na produção jornalística, o fato é decomposto, atomizado, dividido em particularidades ou aspectos, e a imprensa seleciona os que apresentará ou não ao público.

Novamente, os critérios para seleção não residem necessariamente na natureza ou nas características do fato decomposto, mas sim nas decisões, na linha, no projeto do órgão de imprensa, que são transmitidos, impostos ou adotados pelos jornalistas desse órgão.

A descontextualização é uma decorrência da seleção de aspectos. Isolados como particularidades de um fato, o dado, a informação, a declaração perdem todo o seu significado aparente, ou recebe outro significado, diferente e mesmo antagônico ao significado real original.

A fragmentação da realidade em aspectos, a eliminação de uns e a manutenção de outros e a descontextualização dos que permanecem são essenciais, assim, à distorção da realidade e à criação artificial de uma outra realidade.

3. Padrão de inversão
Fragmentado o fato em aspectos particulares, todos eles descontextualizados, intervém o padrão da inversão, que opera o reordenamento das partes, a troca de lugares e de importância dessas partes, a substituição de umas por outras e prossegue, assim, com a destruição da realidade original e a criação artificial da outra realidade.

É um padrão que opera tanto no planejamento como na coleta e na transcrição das informações, mas que tem seu reinado por excelência no momento da preparação e da apresentacão final, ou da edição, de cada matéria ou conjunto de matérias. Há várias formas de inversão. Frequentemente muitas delas são usadas na mesma matéria; em quase todas as matérias ocorre uma ou outra inversão. As principais são:

3.1. Inversão da relevância dos aspectos: o secundário é apresentado como o principal e vice-versa; o particular pelo geral e vice-versa; o acessório e supérfluo no lugar do importante e decisivo; o caráter adjetivo pelo substantivo; o pitoresco, o esdrúxulo, o detalhe, enfim, pelo essencial.

3.2. Inversão da forma pelo conteúdo: o texto passa a ser mais importante que o fato que ele reproduz; a palavra, a frase, no lugar da informação; o tempo e o espaço da matéria …. predominando sobre a clareza da explicação; o visual harmónico sobre a veracidade ou a fidelidade; o ficcional espetaculoso sobre a realidade.

3.3. Inversão da versão pelo fato: não é o fato em si que passa a importar, mas a versão que dele tem o órgão de imprensa, seja essa versão originada no próprio órgão de imprensa, seja adotada ou aceita de alguém da fonte das declarações e opiniões.

O órgão de imprensa praticamente renuncia a observar e expor os fatos mais triviais do mundo natural ou social e prefere, em lugar dessa simples operação, apresentar as declarações, suas ou alheias, sobre esses fatos. Frequentemente, sustenta as versões mesmo quando os fatos as contradizem. Muitas vezes, prefere engendrar versões e explicações opiniáticas cada vez mais complicadas e nebulosas a render-se à evidência dos fatos. Tudo se passa como se o órgão de imprensa agisse sob o domínio de um princípio que dissesse: se o fato não corresponde à minha versão, deve haver algo errado com o fato.

3.3.1. Frasismo: Um dos extremos desse padrão de inversão é o frasismo, o abuso da utilização de frases ou de pedaços de frases sobre uma realidade para substituir a própria realidade.

Acoplado às demais formas de manipulação – ocultação, fragmentação, seleção, descontextualização, várias inversões etc. —, o frasismo surge, assim, quase como a manipulação levada aos seus limites: uma frase, um trecho de frase, às vezes uma expressão ou uma palavra, são apresentados como a realidade original. O abuso é tão excessivo que quase todos os grandes órgãos de imprensa chegam a criar uma “se-ção de frases”, isto é, uma realidade robótica, extraterrena, pura ficção, embora – e aí a gravidade da manipulação – parecendo-se ao máximo com a mais pura forma de realidade, porque, afinal, aquelas palavras foram ditas por aquelas pessoas e fielmente registradas, de preferência com gravador, e literalmente transcritas.

3.3.2. Oficialismo: O outro extremo da inversão do fato pela versão é o oficialismo, expressão aqui utilizada para indicar a fonte “oficial” ou “mais oficial” de qualquer segmento da sociedade, e não apenas as autoridades do Estado ou do governo.

No lugar dos fatos uma versão, sim, mas de preferência a versão oficial. A melhor versão oficial é a da autoridade, e a melhor autoridade, a do próprio órgão de imprensa. À sua falta, a versão oficial da autoridade cujo pensamento é o que mais corresponda ao do órgão de imprensa, quando se trata de apresentar uma realidade de forma “positiva”, isto é, de maneira que o leitor não apenas acredite nela mas a aceite e adote. A autoridade pode ser o presidente da República, o governador do estado, o reitor da universidade, o presidente do centro académico, do sindicato, do partido político ou de uma sociedade de amigos de bairro. Ela sempre vale mais do que as versões de autoridades subalternas, sempre muito mais que a dos personagens que não detêm qualquer forma de autoridade e, evidentemente, sempre infinitamente mais do que a realidade. Assim, o ofícialismo se transforma em autoritarismo.

3.4. Inversão da opinião pela informação. A utilização sistemática e abusiva de todos esses padrões de manipulação eva quase inevitavelmente a outro padrão: o de substituir, nteira ou parcialmente, a informação pela opinião.

Deve-se destacar que não se trata de dizer que, além da informação, órgão de imprensa apresenta também a opinião, o que seja justo, louvável e desejável, mas sim que o órgão de im-rensa apresenta a opinião no lugar da informação, e com a gravante de, fazer passar a opinião pela informação.

O juízo
O valor é inescrupulosamente utilizado como se fosse um juízo de realidade, quando não como se fosse a própria mera ;posição narrativa/descritiva da realidade.

O leitor/espectador não tem mais diante de si a coisa tal como existe ou acontece, mas sim uma determinada valorização que o órgão quer que ele tenha de uma coisa que ele desconhece porque o seu conhecimento lhe foi oculto, negado e escaiteado pelo órgão.

Essa inversão é operada pela negação, total ou quase ai, da distinção entre juízo de valor e juízo de realidade, :re o que já se chamou de “géneros jornalísticos”, ou seja, um lado a notícia, a reportagem, a entrevista, a cobertura, o noticiário, e, de outro, o editorial, o artigo, formas de eensão e compreensão do real que, coexistentes numa sma edição ou programação, se completavam entre si e reciam ao leitor alternativas de formar sua (do leitor) nião, de maneira autónoma e independente. Hoje, exatamente ao contrário, o fato é apresentado ao leitor arbitrariamente escolhido dentro da realidade, fragmentado no seu interior, com seus aspectos correspondentes selecionados e descontextualizados, reordenados invertidamente quanto a sua relevância, seu papel e seu significado, e, ainda mais, tendo suas partes reais substituídas por versões opiniáticas dessa mesma realidade.

O jornalismo, assim, não reflete nem a realidade nem essa específica parte da realidade que é a opinião pública ou do seu público. Ao leitor/espectador, assim, não é dada qualquer oportunidade que não a de consumir, introjetar e adotar como critério de ação a opinião que lhe é autoritariamente imposta sem que lhe sejam igualmente dados os meios de distinguir ou verificar a distinção entre informação e opinião. Esta se introduz … subrepticiamente no meio da matéria, substitui ou prepondera sobre a informação, e passa a ser não apenas o eixo principal da matéria, mas sua principal ou única justificativa de existência como matéria jornalística, como objeto de produção e de edição, apresentação e veiculação.

A informação, quando existe, serve apenas de mera ilustração exemplificadora da opinião adrede formada e definida – a tese – e que, esta sim, se quer impor à sociedade. Essa particular inversão da opinião sobre a informação pode às vezes assumir caráter tão abusivo e absoluto que passa a substituir a realidade real até aos olhos do próprio órgão de informação. Não é incomum perceber que às vezes os responsáveis pêlos órgãos cometem erros – aí, sim, involuntários – porque passaram a acreditar integralmente nas matérias do próprio órgão, sem perceber que elas não correspondem à realidade.

4. Padrão de indução
É necessário repetir que os padrões de manipulação até aqui descritos não ocorrem necessariamente em todas as matérias e programas de todos os órgãos impressos,auditivos ou televisivos, diariamente ou periodicamente. É possível encontrar, diariamente, um grande número de matériasem que esses processos de manipulação nãoexistam ou existam em grau mínimo, e também encontrar certo número de matérias em que as distorções da realidade são frutos de erros involuntários ou de limitações naturais à capacidade de captar e transmitirinformações sobre a realidade.

É possível até, que o número de matérias em que talocorra seja eventualmente superior ao daquelas em que seja possível identificar a existência de padrões de manipulação. E, finalmente, deve-se levar em conta, também, a variação da intensidade de utilização da manipulação segundo o órgão em exame ou o assunto, o tema ou a “editoria” de cada órgão. Mas o que torna a manipulação um fato essencial e característico da maioria da grande imprensa brasileira hoje é que a hábil combinação dos casos, dos momentos, das formas e dos graus de distorção da realidade submete, em geral ou em seu conjunto, a população à condição de excluída da possibilidade de ver e compreender a realidade real e a induza a consumir outra realidade, artificialmente inventada.
É isso que chamo de padrão de indução.

Submetido, ora mais, ora menos, mas sistematicamentee constantemente, aos demais padrões de manipulação, o leitor é induzido a ver o mundo não como ele é, mas sim como querem que ele veja. O padrão de indução é, assim, o resultado e ao mesmo tempo impulso final da articulação combinadade outros padrões de manipulação dos vários órgãos de comunicação com os quais ele tem contato.

O padrão de indução tem a ver, como os demais, com os processos de planejamento, produção e edição do material jornalístico, mas ultrapassa esses processos e abarca, ainda, os planos de apresentação final, no parque gráfico ou nas instalações de radiodifusão, distribuição, índices de tiragem e audiência de publicidade etc. – ou seja, os planos de produção jornalística como parte da indústria cultural e do emprendimento empresarial-capitalista.

A indução a enxergar a outra realidade – diferente e até oposta à realidade real – é o fruto da manipulação do conjunto dos meios de comunicação, em que cada qual, individualmente, tem a sua parte, e em que evidentemente a parte preponderante e de maior responsabilidade deve ser atribuída aos maiores meios de comunicação, isto é, aos mais poderosos , aos que têm maior tiragem e audiência, aos que têm e ocupam maiores espaços, aos que veiculam mais publicidade, Em outras palavras, aos melhores.

A indução se manifesta pelo reordenamento ou pela recontextualização dos fragmentos da realidade, pelo subtexto – aquilo que é dito sem ser falado – da diagramação e da programação, das manchetes e notícias, dos comentários, dos sons e das imagens, pela presença/audiância de temas, segmentos do real, de grupos da sociedade e de personagens.

Alguns assuntos mais, ou quase nunca, são tratados pela imprensa, enquanto outos aparecem quase todos os dias. Alguns segmentos sociais são vistos pela imprensa apenas sob poucos ângulos, enquanto permanece na obscuridade toda a complexa riqueza de suas vidas e atividades. Alguns personagens jamais aparecem em muitos órgãos de comunicação, enquanto outros comparecem abusivamente, à saciedade, com uma irritante e enjoativa freqüência.

Alguns aspectos são sistematicamente relembrados na composição das matérias sobre determinados grupos sociais, mas igualmente evitados de forma sistemática quando se trata de outros. Depois de distorcida, retorcida e recriada ficcionalmente, a realidade é ainda assim dividida pela imprensa em realidade de campo do Bem e realidade do campo do Mal, e o leitor/espectador é induzido a acreditar não só que seja assim, mas que assim será eternamente, sem possibilidade de mudança.

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