Liberdade de expressão: já aconteceu com você?

Por Leonardo Sakamoto

Liberdade de expressão começa em casa, ou melhor dizendo, na própria redação. Como pedir o bom exemplo se nós não temos um comportamento exemplar? OK, ser contraditório faz parte da natureza humana ou da empresarial. Afinal de contas um veículo de comunicação é, em última instância, um negócio, com todas as relações humanas e as pressões de poder que existem dentro da sociedade. É preciso, por isso, aprender a conviver com limites, reconhecer as imperfeições e buscar sempre consertar o que não está bom. Como também é fundamental ir, sempre, atrás da velha e boa coerência – que teima em fugir de nós, do berço à sepultura. Apontar os problemas dos outros sim, mas reconhecer em nós as mesmas falhas é importante.

Cada uma das linhas abaixo brotou de uma história que ocorreu, nos últimos tempos, em alguma redação espalhada pelo país, da progressista à conservadora, da grande à pequena. Nomes? Ah, pra quê? Já perguntava Shakespeare: “O que há num simples nome? O que chamamos rosa com outro nome não teria igual perfume?”

Liberdade de expressão é:

Não ligar para redação xingando jornalista por matéria sobre o chabú no metrô

Não demitir por telefone o pobre repórter que discordou educadamente da linha editorial do veículo

Não usar nunca a frase “coloca isso na capa porque quem manda aqui sou eu”

Ter a certeza de que a denúncia contra aquele anunciante amigo do patrão vai sair mesmo

Saber que a apuração virá da reportagem e não da sala da chefia

Não ser demitido porque o usineiro amigo do dono do jornal se sentiu ofendido com a verdade

Não sofrer preconceito dos colegas da imprensa por trabalhar em um veículo de esquerda ou de direita

Ter reunião de pauta em que participe mais gente do que apenas o diretor de redação

Não ser delicadamente removido para setorista de rodoviária porque reclamou de censura prévia

Não ver seu texto tão alterado a ponto de ter que pedir para tirar seu nome dele

Não se sentir oprimido ao dar sua opinião contrária na reunião de pauta

Não te entregarem o título pronto da matéria antes de você sair para a apuração

Não ser proibido homem usar brinco e mulher ter tatuagem na redação

Não ter que criar conta falsa de e-mail para dizer ao chefe o que pensa daquela matéria bisonha

Não ter que fazer hora extra só para salvar o péssimo texto do amigo do chefe que deve entrar amanhã

Não ser monitorado no twitter pela empresa jornalística em que trabalha

Ficar no fechamento até tarde sem medo de que o editor tente levar você para cama

Não perder uma promoção por conta de posicionamento ideológico

Ao trabalhar em TV e agência públicas, não ter que prestar serviço de assessoria a político

Fazer uma entrevista sem ter medo do editor mudar as idéias da fonte depois

Não ser obrigado a defender igreja caça-níquel e a chamar umbanda de coisa do capeta

Já aconteceu com você? Bem vindo à condição de jornalista.

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