Por que os desafios das metrópoles não aparecem nos jornais?

Por Felipe Shikama

Embora o discurso neoliberal defenda a convergência entre atividades nacionais e locais, sob a premissa de que nenhum dos “grandes problemas” da atualidade podem mais ser tratados em nível exclusivamente nacional, e, sim, sob outras alternativas, sejam elas supranacionais (blocos econômicos, por exemplo) ou, no que nos interessa neste recorte, em um nível local, o espaço público representa, independente de sua dimensão, uma arena conflituosa composta por diferentes classes, frações de classe e suas respectivas ideologias.

É, efetivamente, nas cidades onde as coisas acontecem. Conforme Jean-François Tétu, o espaço público também é um espaço simbólico, feito de saberes e representações. Por outro lado, cabe à imprensa – que se (auto) legitimou como instrumento fiscalizador delegado pela sociedade –, além de informar, exercer o papel central de articulador das grandes discussões nesse espaço.

O “local”, no entanto, não pode mais ser definido simplesmente como um único território, mas pela noção de lugar de vida. “Não apenas à ancoragem territorial do hábitat, mas sobretudo o lugar […] onde se dão conflitos e o efeito das decisões em matéria de desigualdade de todos os tipo, de emprego (ou de desemprego), de transporte, de acesso à cultura (escolaridade), de saúde, etc. Em outras palavras, o local aparece como o lugar de verdade do “político”.

Com os “óculos” críticos aos padrões de manipulação praticados pela grande mídia, e debruçando sobre os grandes desafios das metrópoles brasileiras, a questão, a saber, é: em que grau e como esses conflitos, desafios presentes e crescentes nas grandes metrópoles, são representados pela imprensa local?

Tendo como objeto os jornais locais franceses, Tétu alerta que no âmbito local os jornais parecem ignorar a noção de conflito e operar pela construção de um consenso, no que ele chama de “institucionalização das relações sociais”, pois, “o que mais choca quando de uma leitura atenta das páginas locais é a ausência quase total de conflitos que, entretanto, constituem uma dimensão central da vida desses grupos, como se tudo o que é o objeto de uma disputa real de poder se encontrasse neles afastado em prol do espetáculo da concordância.

Durante décadas as reflexões teóricas da comunicação social se limitaram a uma perspectiva funcionalista alicerçada em estudos de natureza empirista, tendo como base filosófica o positivismo comteano – enquadrando as ciências sociais no paradigma das ciências naturais, levado ao cabo por Durkheim e claramente revelado por Adelmo Genro Filho, no revolucionário “O Segredo da Pirâmide”: “o que está em foco, na essência do próprio método, é a reprodução e a estabilidade do sistema social”. “O desenvolvimento dos meios de comunicação e do próprio jornalismo são analisados como processos independentes em relação ao desenvolvimento global das forças produtivas e da luta de classes, ou seja, apartados do movimento histórico em seu conjunto. Ao contrário, os meios de comunicação são tomados como ‘função orgânica’ da sociedade capitalista contemporânea, entendida esta como paradigma do processo e da normalidade”.

Para Genro, a “ausência de conflitos” apontada por Tétu se deve, entre outros motivos, ao “espírito ‘pragmático’ da grande maioria dos jornalistas, em parte devido à defasagem do acúmulo teórico em relação ao desenvolvimento das ‘técnicas jornalísticas’ e, em parte, devido ao caráter insolente e prosáico que emana naturalmente da atividade”.

Por outro lado, outra importante linha teórica parece contrapor-se à perspectiva funcionalista. Chamada de nova fase dos estudos jornalísticos, conforme um dos pioneiros da pesquisa do Jornalismo em língua portuguesa, Nelson Traquina (2005, p.161), a década de 70 é marcada pelo interesse crescente da investigação da ideologia. Essa perspectiva crítica, e fortemente influenciada por autores marxistas, passa a enxergar a mídia como organismo estruturado numa visão burguesa, reprodutora da ideologia dominante.

Mas, seja “integrada”, de perspectiva funcionalista, ou “apocalítipica” e crítica, para lembrar a dicotomização de Umberto Eco, a limitação do papel do jornalismo como agente de interação social e, a partir dessa coesão, fabricação do consenso merece novas reflexões, afinal, devemos levar em conta o avanço da pluralidade cada vez mais intensa no jornalismo contemporâneo. Exemplo dessa diversidade de “visões de mundo” pode ser observada no trabalho onipresente na internet, desempenhado pelos chamados blogueiros progressistas. 

Longe de ser uma terceira via entre o “integrado” e o “apocalíptico”, na velha expressão de Umberto Eco, visto que ambas perspectivas concordam que a falta da pluralidade no processo jornalístico (restringido a fontes predominantes oficiais, tecnicistas e “neutras”) tende a operar pela construção do consenso hegemônico; o que deve indicar outros indícios de resposta à “ausência de conflitos”, principalmente no âmbito local, é o tratamento dado aos interlocutores subalternizados, agora, incluídos nesse processo.

Afinal, esse “pluralismo intenso”, segundo João Carlos Correia (2001, p.01) “é resultante da emergência e da revalorização das entidades minoritárias, fazendo com que os jornais sirvam de ‘arena’ de tensões e fragmentações da luta de classes”. E o jornalismo é uma das principais instituições capazes de contribuir para construção da hegemonia, por meio da qual uma classe dominante consegue instituir uma base de consentimento para certa ordem social, na medida em que ele estabelece um mapa de significados, de parâmetros cognitivos, por meio dos quais as pessoas lêem e interpretam o mundo.

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Um comentário sobre “Por que os desafios das metrópoles não aparecem nos jornais?

  1. Felipe, particularmente (e aceitando certa perspectiva “apocalíptica”) acredito que o jornalismo, tal qual praticado atualmente, têm função de reprodução dos cânones necessários à manutenção do sistema, menos por vontade deliberada, e mais por convergência de seus modelos de negócio, a lucratividade e a manutenção de sua rede de leitores.
    Os “resultados sociais” desta prática jornalística termina por criar uma externalidade, que como todas, não é prevista nem foi ainda internalizada pelo mesmo sistema em que opera para que se diminuam seus efeitos deletérios.
    A função social da comunicação já foi prevista constitucionalmente, e sua consecução depende do detalhamento das políticas públicas tendentes a minimizar a concentração de poder, o que dependerá de razoável esforço político.
    A mesmice e monocordia do discurso padrão (bempensante) reagirão tal qual se vê no caso da Ley de medios argentina, usando a democracia e a liberdade como os bordões de defesa de uma postura claramente oposta a ambas.
    Me desculpe por invadir seu espaço e parabéns pelo seu texto.

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