“Somos a raiz de Votorantim”, afirmam remanescentes de quilombos

Felipe Shikama

“A verdadeira história não foi contada. Nós somos a verdadeira raiz de Votorantim”, defende João Fernandes, vice-presidente da Associação da Comunidade de Remanescente de Quilombos José Joaquim de Camargo.

A associação que congrega 56 famílias, todas supostamente herdeiras do ex-escravo José Joaquim de Camargo, reivindica junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) a condição de remanescentes de quilombos, o que, de acordo com o artigo 68 da Constituição Federal, lhes asseguraria de imediato o direito às terras então adquiridas pelos seus ancestrais.“Temos documentos que comprovam que 70% da área de Votorantim está dentro das terras do meu tataravô”, alega Fernandes. “Mas isso ainda não foi reconhecido pelo governo”, pondera.

Edson Correia, presidente da Associação, conta que Camargo era um “escravo reprodutor” e, depois de ser libertado, comprou de seu antigo “dono”, o capitão Jesuino Cerqueira César, glebas que abrangeriam os municípios de Votorantim e Salto de Pirapora. “Naquela época a terra não tinha muito valor. O que tinha valor, na verdade, era o negro, o ouro e o café”. 

João Fernandes, vice-presidente da Associação da Comunidade de Remanescente de Quilombos, exibe carta de alforria de seu tataravô José Joaquim de Camargo

O artigo 68 da Constituição consagra que “aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”. Munidos de centenas de documentos, que vão desde a árvore genealógica de José Joaquim de Camargo até pareceres de antropólogos e escrituras, os auto-declarados remanescentes de quilombos aguardam elaboração do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID), “mas o Incra fala que faltam funcionários”, reclama Correia.

João Fernandes destaca que já apresentou ofício do Incra à Prefeitura e à Câmara de Votorantim, mas o assunto é encarado com ceticismo pelo poder público. “A gente gostaria de destacar que a comunidade não quer tirar nada da população. Nós só queremos de volta aquilo que o nosso tataravô conquistou e que se perdeu ao longo do tempo. Aliás, ninguém vai perder as terras onde vivem, o que nós queremos é indenização, e quem tem de nos indenizar é o Incra”, justifica Fernandes.

Reflexão

Dizendo não ter ideia do montante estimado para possível pagamento da indenização, Correia revela que grande parte das famílias que reivindicam o reconhecimento do antigo quilombo passa por dificuldade. “A situação é calamitosa. A maioria da comunidade cata material reciclado e, nos barracos onde vivem, na região do Votocel, não têm nem luz elétrica”, comenta.

Os dirigentes da Associação afirmam que, 20 de novembro, Dia da Consciência Negra é momento para reflexão. “A gente continua sendo escravo da sociedade. A lei não está sendo respeitada. A lei tem que servir para os ricos e para os pobres, para brancos e para negros. Nós somos herdeiros ricos e vivemos nessa miséria”, conclui Correia.

Livro resgata história das comunidades negras da região

O pesquisador sorocabano Sílvio Vieira de Andrade Filho, autor do livro “Um Estudo Sociolinguístico das Comunidades Negras do Cafundó, do Antigo Caxambu e de seus Arredores” explica que “quilombo, no sentido original da palavra, significa agrupamento de negros foragidos”.

Doutor em Linguistica pela USP e reconhecido internacionalmente por seus estudos sobre a ”cupópia” – uma língua mista formada de várias línguas africanas e ainda falada por alguns remanescentes de quilombo em Cafundó, em Salto de Pirapora, Andrade Filho prefere não emitir sua opinião diante da reivindicação dos supostos remanescentes do quilombo votorantinense.

Sua pesquisa, contudo, baseada em documentos oficiais, registrados em cartório, comprova a venda das terras do capitão Jesuino de Cerqueira César ao ex-escravo José Joaquim de Camargo. “Agora, um documento que a gente não conseguiu encontrar foi o inventário do Joaquim de Camargo. A gente sabe que eles (os filhos) foram viver em Campo Largo (bairro de Salto de Pirapora) e nunca reivindicaram a terra”, detalha.

Doutor em linguistica, pesquisador Sílvio Vieira de Andrade Filho explica que “quilombo significa agrupamento de negros foragidos”

Além dos estudos linguísticos da “cupópia”, o livro, com 456 páginas e em sua segunda edição, focaliza as culturas africanas no Brasil, a população afro-brasileira, as comunidades negras do país, línguas em contato e o contato de línguas africanas com a língua portuguesa.

A obra contém ainda estudos de genealogia, de proprietários rurais e de propriedades com a presença de mão-de-obra escrava, bem como “causos” do folclore da região como lobisomem, boitatá, saci, entre outros.

Interessados em adquirir o livro “Um Estudo Sociolinguístico das Comunidades Negras do Cafundó, do Antigo Caxambu e de seus Arredores” podem entrar em contato com o autor pelo email: vieira.sor@terra.com.br ou pelo telefone: (15) 3231-7796. Mais informações no site: www.cafundo.site.br.com.

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