Será que perdemos a capacidade de nos indignar?

Por Felipe Shikama

 A gigantesca banalização dos absurdos praticados pelo ser humano felizmente ainda não esvaziou por completo a nossa indignação coletiva. Será?

Será que ainda nos chocamos minimamente ao ver a imagem de criancinhas sendo espancadas por supostas “babas”? E, no o conforto do nossos sofás, será que ainda murmuramos esboços de revolta quando sabemos sobre denúncias de funcionários de “asilo” que agridem os velinhos?

Nos causa verdadeiro incômodo estarmos ao lado de pessoas que fazem “brincadeirinhas” de péssimo gosto sobre nordestinos, condenando-os inclusive à morte por afogamento?

As imagens dos adolescentes de classe média que caminham pela Avenida Paulista, e golpeiam gratuitamente um jovem com uma lâmpada fluorescente, que vem no sentido contrário, nos causou alguma comoção?

Evidentemente que nem todas as babas agridem os pequenos e, assim como os funcionários de asilos, centros de convivência e casas de repouso, em sua absoluta maioria, por vocação, dedica sua vida a oferecer melhor qualidade de vida àqueles que, como todos os seres humanos, têm direito à vida e à dignidade. Não é regra, é exceção!

Jovens são, “por natureza” xenofóbicos e/ou homofóbicos? Não creio. E não se trata aqui de afirmar que a banalização e a inversão de valores de promoção, proteção e garantia dos direitos fundamentais transformaram a exceção em regra. A provocação, nesta coluna, é apenas a de questionar: ainda temos realmente a mínima capacidade de nos indignar?

Para dar exemplos menos “esteripotipados” das absurdas violações dos direitos humanos, pergunto quando foi a última vez que você, leitor, viu um morador de rua ou uma criança pedindo trocado no semáforo. O problema é de quem? E por quê? E a solução? Quem deve dar?

“Cuba e Coréia do Norte são ditaduras. Lá, eles violam os direitos humanos”, dizem uns. Aqui, vivemos numa democracia? Aqui, nós também temos violações dos direitos fundamentais?

No imaginário coletivo, o Brasil é o “país da cordialidade”. Do respeito a todos. Terra da solidariedade, onde não reina o racismo, o ódio, a intolerância. Será?

Por aqui, é feio discutir. Se indignar, ainda que justamente, pelo troco equivocado do caixa da padaria é coisa de “barraqueiro”. Nos calamos?

Quando uma criança morre atropelada na periferia, a população complacente à dor da família exerce sua cidadania, interdita a rua, queima pneu e cobra do poder público a instalação de lombadas e radares no local. Rico, não. Classe média acha esse negócio de protesto, “coisa de gentinha”. Guarda a indignação apenas para si?

Quando perdemos a capacidade de nos indignar com as atrocidades cometidas contra os outros, perdemos também a nossa condição de seres humanos.

O momento é de reflexão e, por isso, tenho muito mais perguntas do que respostas. Tento me confortar no pensamento do progressista professor Paulo Freire: “O mundo não é, o mundo está sendo. Um dia muda”. Será?

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