Combate à Aids: Tratamento e informações evoluem, mas medo e preconceito persistem

Felipe Shikama (para o Jornal Ipanema)

Sorocaba – “Antes a gente se escondia para morrer. Hoje, a gente aparece para viver”, sentencia Marluce Aparecida Domingos Silva, 49 anos.

Portadora do vírus HIV desde 1991, ela revela ter sido infectada pelo marido no auge da pandemia. “Meu esposo ficou doente e, 14 dias depois, morreu. Quando eu peguei o exame (positivo para sorologia), era como se fosse o meu atestado de óbito. Os médicos me disseram que eu teria de três meses até três anos de vida”, relembra.

Quase 20 anos depois, Marluce se orgulha ao mostrar dezenas de diplomas e certificados por proferir palestras, workshops e congressos sobre as possibilidades de vida, com qualidade, após o contágio do HIV. “Já viajei o Brasil inteiro. Eu coloco minha face em evidência que é para que mais pessoas recebam informação, derrubem preconceitos, façam teste de HIV e se previnam de doenças sexualmente transmissíveis”.

Presidente do Grupo de Educação à Prevenção a Aids em Sorocaba (Gepaso) fundado em 1988, Maria Lucila Magno é uma das lideranças mais atuantes no país em políticas de saúde e defesa dos direitos das pessoas com HIV e Aids.

À frente da primeira ONG a abraçar a causa no interior de São Paulo, Maria Lucila participou ativamente do avanço das informações difundidas sobre DST, acompanhou as primeiras experiências de tratamento com medicamentos antirretrovirais e comemora os avanços da ciência médica que, hoje, é capaz de oferecer plena qualidade de vida àqueles que, por meio de teste, descobrem ter o HIV precocemente. “Muita coisa mudou, mas o preconceito continua. Para ele, infelizmente, não há antídoto”, pondera.

Atenta aos repasses de verbas governamentais para políticas e programas de prevenção e combate à Aids, a professora (barcharel em Letras e Educação Física), advogada e fundadora da Ong, Maria Lucina chegou a questionar um ex-prefeito de Sorocaba sobre suposto desvio de dinheiro público. “O Ministério da Saúde me informava (sobre os repasses), então eu ficava sabendo quando o Governo Federal mandava dinheiro. Eu fui conferir lá (na prefeitura), e vi que a verba estava sendo usado para pagar os funcionários”, detalha.

Em um gesto de cidadania, Maria Lucila foi fazer valer a lei e os direitos e procurou o então secretário de Finanças do município, já falecido. “Ele ficou muito bravo e disse assim: porque você não joga esses aidéticos no Rio? Um verdadeiro absurdo. Eu quase mandei ele se jogar no lago da prefeitura, mas fiquei com dó dos peixes”, relembra a presidente do Gepaso que tem, entre outros objetivos, lutar pelo estabelecimento de uma política eficiente de saúde pública, ligada à HIV e Aids.

Menos casos, mais mulheres

Segundo levantamento do Ministério da Saúde, Sorocaba aparece entre as primeiras cidades do país no ranking de redução do número de casos de Aids registrados na última década. A coordenadora do programa DST/Aids de Sorocaba, Maria Tereza Morales Dib, comemora a posição do município, que também zerou a chamada transmissão vertical (de mãe para filho) nos últimos anos, mas ressalta que a luta pela conscientização e prevenção deve ser travada de forma permanente. “Hoje, com o coquetel antirretroviral as pessoas com HIV podem ter uma vida quase normal, com longevidade e qualidade de vida. Mas isso não significa que o HIV tenha sido erradicado, muito pelo contrário. É preciso se prevenir e a única forma segura é usando preservativo”, destaca.

Em Sorocaba, o número de pessoas com diagnóstico positivo para HIV vem caindo sistematicamente desde o ano 2000. Naquele ano, equipe do Programa Municipal DST/Aids registrou 205 casos na cidade, já em 2009, esse número caiu para 42.

As estatísticas revelam ainda que a maior parcela das pessoas contaminadas é de jovens e adultos heterossexuais. Além disso, o levantamento aponta que de cada três diagnósticos positivos, dois atingem mulheres.

Não tem desculpa

Se a exposição aos riscos de contaminação só pode ser evitado com o uso da camisinha, não há desculpas para não usá-la na relação sexual. Em Sorocaba, elas estão disponíveis gratuitamente para todos, sem quaisquer restrições. Sem necessidade de justificativas, cadastros e solicitações, elas são postas em “disposers” instalados nas unidades básicas de saúde, no horário comercial, e nas unidades de pronto-atendimento, que funcionam 24 horas por dia. “Uma das nossas estratégias de prevenção é disponibilizar preservativo em locais de fácil acesso. O programa não impõe que a pessoa receba o preservativo e vá fazer sexo, mas, sim, disponibilizar facilmente esse insumo de prevenção, para que a pessoa tenha acesso no momento em que ela decidir usar”, acrescenta Maria Tereza Dib.

Desde o dia 16 até esse domingo (28), a Secretaria da Saúde realiza o mutirão do programa Fique Sabendo. A ação visa incentivar a realização de teste de HIV. “É muito simples e importante fazer o teste. Infelizmente, muita gente ainda tem medo de fazer o exame”, ponta Maria Lucila.

Fique Sabendo

Ao longo de todo ano, o teste pode ser feito nos Ônibus Rosa e Azul, e de segunda a sexta-feira, nas 30 Unidades Básicas de Saúde que funcionam das 7 às 16h30 e também no Centro de Orientação e Aconselhamento de Sorocaba (Coas), que funciona na Rua da Penha, 770, das 7 às 20 horas. “O grande objetivo do Fique Sabendo é detectar pessoas que tem o vírus, não sabem e nunca fizeram o teste. Quanto mais cedo for identificado, fica mais fácil de interromper a cadeia de transmissão e oferecer tratamento adequado, para melhor qualidade de vida”, explica Maria Tereza.

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4 comentários sobre “Combate à Aids: Tratamento e informações evoluem, mas medo e preconceito persistem

  1. Hoje em dia a maior dificuldade no tratamento da Aids é o preconceito. O Brasil é um dos pioneiros, inclusive referência mundial com atendimento público digno de primeiro mundo. Mas para quem convive com o vírus, não basta a rotina exaustiva de exames, acompanhamento médico e dezenas de comprimidos. É preciso enfrentar o julgamento de pessoas ignorantes, que consideram os soropositivos uma mazela para a sociedade. Esta doença taxada como “doença de homossexual, pervertido, devasso e drogado” por estas pessoas ainda vai demorar para mudar. Quando o preconceito diminuir (acabar é utopia) com certeza a qualidade de vida irá aumentar consideravelmente. É preciso educar, tanto para prevenção quanto para a tolerância e respeito.

  2. Olá Pessoal do Gepaso , aqui é a Luzia , como fenix ressurgi das cinza qualquer dia desse eu apareço para um café ……

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