Por de trás da “falta de vontade política” há vontades que não podem ser ditas

Por Felipe Shikama

Como o grito que, eventualmente, rompe o silêncio, sinto-me na necessidade de expressar neste espaço alguns aspectos sobre as limitadas “análises” políticas de alguns formadores de opinião. Não raro, e até com vulgar frequência, é adotada a explicação simplista de que “falta vontade política” por parte dos tomadores de decisão. E como todo jargão, esse não quer dizer absolutamente nada.

Logicamente que a omissão de determinados agentes políticos, em buscar soluções e alternativas para exterminar, resolver, amortecer ou minimizar determinadas demandas sociais pode ser enquadrada na categoria “falta de vontade política”, sacada instantaneamente do repertório restrito dos analistas de plantão.

Contudo, a simplificação de respostas para fenômenos complexos, além de não sanar àquilo que se pretende, contribui ainda mais para o esvaziamento do debate. Ou seja, apontar a tal “falta de vontade” pura e simplesmente é reproduzir o óbvio e, portanto, operar pela manutenção perpétua do status quo. É contribuir para que a coisa fique como está.

É necessário, então, olhar para as demandas sociais mais críticas com os óculos da criticidade. É preciso reconhecer e, se possível, examinar minuciosamente os diversos aspectos deste prisma que, obviamente, não é bidimensional e, sim, multifacetado.

O analista, por ofício crítico (com o perdão da redundância) e transformador, deve observar as demandas sociais mais precárias e reprimidas como resultado de um processo dinâmico que, como a história mostra, foi construído sobre as bases da exploração (de força de trabalho dos homens e dos recursos naturais), da coerção e da opressão (das classes dominantes sobre as classes subalternas).

Ao analisar problemas do nosso cotidiano como a má qualidade da educação pública, o atendimento precário da saúde, as deficiências do transporte coletivo, a falta de creches, entre outras matérias de desigualdade, o analista progressista deve enxerga-los (e, se possível, denunciá-los) como resultado das mais perversas práticas da velha classe dominante que, guiada pela lógica liberal, não só foi incapaz de reduzir as fissuras sociais como agravou ainda mais.

Afinal, mais do que ingênuo, o velho e vazio discurso da “falta de vontade política”, com ares de respostas tecnicamente fundamentadas, esconde verdades e vontades que, em nome dos patrões e da manutenção emprego precário, não podem ser ditas.

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2 comentários sobre “Por de trás da “falta de vontade política” há vontades que não podem ser ditas

  1. “Lógica liberal”? O que significa?

    O pensamento liberal está atrelado às “perversas práticas da velha classe dominante”? Como isso?

    Esta é mais uma deturpação conceitual da especulação filosófica de Karl Marx.

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