A internet, o martelo e a chuva

Por Felipe Shikama

Sobre a internet, já disse correta e apropriadamente Edgard Morin: “ela é ambivalente”. Logicamente sem as capacidades de ideação deste grande filósofo, compartilho tal ideia. Afinal, a rede mundial de computadores é como um martelo. Ferramenta que pode ser usada tanto para construir uma casa – e outras tantas utilidades para o ser humano – como para destruir, agredir e até matar um semelhante.

Neste campo virtual, hoje marcado pela onipresença das redes sociais, cabe tudo. Desde o “agendamento” de brigas entre torcidas organizadas, manifestações de ódio a migrantes nordestinos ou pregação de intolerância religiosa até fóruns de movimento em defesa de uma programação de cinema mais qualificada, encontro entre colecionadores de figurinha e formação de grupos de apoio para familiares e pacientes de doenças como, entre outras, o câncer. Como disse, um local onde cabe tudo.

Mas voltando à lógica iniciada por Morin, não se culpa o martelo pela martelada. Afinal, a ferramenta, por si só, não destrói nem constrói absolutamente nada. E ainda bem que as benfeitorias, que nos enriquecem tanto individual como coletivamente, dependem decisivamente das pessoas.

Acabo de assistir um vídeo (veja aqui), postado no Youtube, no qual o prefeito Vitor Lippi (PSDB) comemora a conclusão das obras de elevação da Marginal Dom Aguirre que, historicamente, era invadida pelas águas nos períodos de intensas chuvas. As obras custaram cerca de R$ 5 milhões dos cofres públicos e, diante das últimas chuvas registradas na cidade, ficou comprovado que o seu principal objetivo – acabar com o alagamento e a consequente interdição da via – não foi cumprido.

O vídeo, sim, tem seus interesses políticos. Foi produzido e postado por membros do diretório municipal do Partido dos Trabalhadores. Mas isso faz parte do jogo político. Assim como fez parte do jogo as notícias, os boatos, as propostas, as mentiras e os desmentidos pulverizados na rede em meio à disputa das últimas eleições presidenciais.

Por outro lado, a verdade é que o que menos se viu no espaço relativamente livre da internet (também na televisão e na cobertura dos grandes jornais) foi a enriquecedora disputa de ideias. Sem esse debate construtivo, a internet pouco contribuiu para o processo eleitoral, para o aprimoramento de políticas públicas, para a pressão popular por determinadas demandas…

O que se viu foi uma espécie de Fla-Flu, onde, de um lado, os eleitores-torcedores gritavam em coro, mais pela paixão do que pela convicção das ideias de seu candidato – sem dar espaço para ouvir o outro. E vice-versa. Um diálogo atravessado, bizarro. Que não era de mudos, mas de surdos. “Foi bolinha de papel”, de um lado, “foi rolo de fita crepe”, de outro.

Enfim, esse locus de discussão, ambivalente, onde é possível chegar ao topo e gritar verdades para que todos ouçam, é também uma “ágora virtual”. Porém, diferentemente dos tempos da democracia grega, a dificuldade não está mais em ocupar a ágora, mas, sim, em ter quem lhes ouça. Além disso, como o martelo, para que queremos usar a internet: para construir ou destruir?

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