A culpa dos congestionamentos, admito, é minha

Por Felipe Shikama

“Gosto dos algarismos, porque não são de meias medidas nem de metáforas. Eles dizem as coisas pelo seu nome, às vezes um nome feio, mas não havendo outro, não o escolhem. São sinceros, francos, ingênuos. As letras fizeram-se para frases: o algarismo não tem frases, nem retórica”.

O fragmento acima, extraído da crônica intitulada “Analfabetismo”, do mestre Machado de Assis, pareceu-me o mais apropriado para citá-lo antes de dimensionar, em algarismos, e com bases seguras, os aspectos que envolvem um grande problema, principalmente nas grandes cidades, e que diariamente nos atinge: o congestionamento de veículos.

Ironicamente lembrei Machado que, um século atrás, nas páginas do Diário do Comércio, já se mostrava preocupado com o futuro das mulas e dos cavalos que, aos poucos, iam se “aposentado” da Guanabara, incapazes de concorrerem com o conforto e a pontualidade dos bondes cariocas:

– Brasil registra novo recorde de venda de veículos em 2010;

– Frota de veículos cresce 119% em dez anos no Brasil, aponta Denatran;

– Brasil fechou 2010 com exatos 64.817.974 veículos, 35 milhões a mais do que o início da década;

– Em Sorocaba, 13 mil carros novos foram vendidos apenas em 2010;

– Sorocaba possui um carro para cada dois habitantes…

Números à parte, que atire a primeira pedra aquele nunca deu uma buzinada ou verbalizou um único palavrão, ao se irritar com o “caótico”, “infernal” e “irritante” congestionamento enfrentado nos horários de pico de cada dia!

“Puta que pariu, que trânsito da porra, tá tudo parado!”

Mas não há avenidas (novas ou alargadas) que deem conta de tantos carros, no mesmo espaço, e ao mesmo tempo.

Logicamente que o número insustentável – principalmente do ponto de vista ambiental – de novos veículos postos na rua não anula a necessidade (obrigação!) das prefeituras de promover planejamento,  (re) construir vias e alternativas para maior fluidez e implantar políticas públicas que amorteçam os diversos impactos sociais negativos provocados pelo excesso de veículos. O estímulo efetivo ao transporte coletivo, a começar pela redução das tarifas, seria um bom começo!

Contudo, precisamos reconhecer que esse excesso de veículos, que bate recordes mês a mês e, embora gere um número importante de geração de empregos, enche os cofres das matrizes das multinacionais que aqui exploram recursos naturais e mão-de-obra, só se dá porque, de fato, nós queremos.

Pergunto ao leitor, provavelmente motorizado: se sua cidade oferecesse transporte coletivo barato, confortável e pontual, você deixaria seu carro na garagem ou venderia para sair para trabalhar ou passear de ônibus?

Se a resposta foi sim, reformulo a pergunta: O brasileiro, de forma geral,  deixaria seu carro na garagem, se as cidades oferecessem transporte coletivo barato, confortável e pontual?

Tomo a liberdade de reformular a pergunta porque descobri que, quando a pesquisa trata de opinião e, ao mesmo tempo, esbarra com o discurso do “politicamente (e ambientalmente) correto”, acabamos vendo dois brasis: um, ideal, com as nossas respostas. E o outro, real, com as respostas alheias que, obviamente, são as nossas próprias, que por vergonha as escondemos.

Revela sabiamente o slogan do posto de gasolina: o brasileiro é apaixonado por carro. Conheci um pai de família que foi capaz de ignorar o choro de sua filha pequena, que queria mesmo era merecer um copinho de iogurte.

Ao mesmo tempo, além de pagar em dia as inúmeras prestações do veículo, ele ainda dedicava tempo e dinheiro na compra e instalação de rodas importadas, banco de couro, DVD, entre outros apetrechos automotivos, em minha opinião, desnecessários para o objetivo básico daquela aquisição: locomover-se!

Mais do que a necessidade ou conforto de podermos nos deslocar livremente (a que preço?), adquirimos nossos automóveis (2º maior patrimônio, atrás da casa própria) para reforçarmos nossa identidade e nossa existência social: a de consumidor. Ao volante, conforme o modelo, a cor, a cilindrada, o ano, evidenciamos ao mundo quem somos, a que grupo social pertencemos…

E mais do que um problema enfrentado por nós, os congestionamentos são um problema provocado por nós. A verdade é que as nossas buzinadas e palavrões, em meio ao congestionamento de veículos, são reflexos do nosso discurso e do nosso comportamento pequeno-burguês.

O problema do trânsito não é e nem pode ser encarado como fim em si, com soluções paliativas como o rodízio dos finais das placas. Ele é resultado de um grande e complexo processo (econômico, político, social, ideológico…) que, em determinado momento, escolhemos, pactuamos e, como podemos notar nos finais de tarde, não queremos romper.

Digo isso tudo, não para que acredite que uma mudança estrutural no nosso modo de vida seja possível. Tampouco pretendo convencê-lo (a) a trocar seu veículo pelo ônibus coletivo. Digo isso tudo porque, além de ter de enfrentar o congestionamento diário nos horários de pico, sou obrigado a aturar as irritantes buzinadas daqueles motoristas que ainda não perceberam que, assim como eu, também são parte do problema.

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