Indústrias investem em sistemas de reuso de água

Felipe Shikama

O aumento gradativo da consciência coletiva para a preservação do meio ambiente, somada à rigorosa legislação de preservação dos recursos naturais, tem estimulado cada vez mais investimentos tanto em tecnologias de tratamentos de efluentes quanto de recuperação ambiental.

Seguindo exemplo do Japão e de grande parte dos países europeus, a indústria brasileira dá sinais de que caminha para um modelo mais sustentável de produção. No que se refere à água, é crescente o número de empresas que têm aderido a sistemas e dispositivos que propiciam o reuso. “Nesse caso, a água usada não vai para a rede de esgoto diretamente. Ela cai em um reservatório, onde é feito todo o tratamento químico e biológico e volta limpa para ser reutilizada. Não como água potável (própria para beber), mas para outras finalidades como lavagem de carro, irrigação, descarga de banheiro”, explica José de Toledo Filho, diretor da Hábil Serviços, empresa instalada em Sorocaba e que é líder nacional no segmento de tratamento de água.

A empresa, que emprega 140 funcionários em todo o Brasil, também presta serviços para outros países da América do Sul e detém know-how em testes e análises laboratoriais de qualidade de água.

Formado em Química, Toledo acredita que o mundo passa hoje por um importante processo de conscientização da preservação do meio ambiente. Segundo ele, a “salvação do planeta” depende também de uma mudança de comportamento das novas gerações. “Eu vejo pelo meu filho, de três anos, que já tem outro conceito de meio ambiente. Ele me vê fazendo a barba, com a torneira aberta, e já me alerta. Acho que essa criançada já tem uma consciência muito mais profunda do que os adultos”, opina.

Investimento vantajoso

De acordo com Toledo Filho, a adaptação do sistema de tubulações de uma indústria, para a prática do reuso de água, tem custo relativamente alto, mas se transforma em investimento vantajoso em um curto período. “Com o reuso, as indústrias têm uma redução média do consumo de água nova de 90%. Ou seja, é um investimento que, em cerca de dois anos, já foi pago”, comenta.

Com o objetivo de contribuir com a melhoria da gestão ambiental nas atividades de mineração, geração de energia elétrica, administração e produção industrial, a Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) conta com o programa de reutilização da água que é empregada em todo o processo de fabricação, na unidade de Alumínio.

O projeto, que recebe investimento anual de quase R$ 4 milhões, inclui um sistema de captação e tratamento de efluentes industriais que compreende uma lagoa impermeabilizada, com capacidade de armazenar 75 mil litros de água. Além disso, o sistema conta com estação de tratamento de água industrial e uma estação de tratamento de lodo. “Toda água tratada é utilizada no processo de produção e, após o seu uso, retorna a lagoa de efluentes, sendo bombeada para a estação de tratamento novamente. É como um circuito fechado no entorno da fábrica”, explica Antônio Carlos Rodrigues Raposo, coordenador da área de meio ambiente da CBA. Para se ter uma ideia, a fábrica utiliza aproximadamente 245,235m3 de água ao mês.

Investimento certo

Diretor-geral do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae), Geraldo Caiuby comenta que, embora não seja novidade nos países desenvolvidos, a prática de reuso da água industrial tem muito espaço para crescer no Brasil. “Em Sorocaba, tem muitas indústrias começando a fazer isso. É uma forma de minimizar o custo do lançamento de esgoto. Algumas indústrias seriam inviabilizadas (economicamente) se tivessem de descartar o esgoto na rede. Com o reuso, esse custo cai lá em baixo”.

Segundo Caiuby, dependendo da quantidade de água consumida pela empresa, o investimento na tecnologia para o reuso compensa imediatamente. “Tem uma indústria que ia pagar um R$ 1 milhão por mês entre água e taxa de esgoto. Com o reuso, ela reduziu esse custo para 60 mil reais. Ou seja, no primeiro mês ela já pagou todo o investimento que foi feito”, revela.

Projetos inteligentes

Engana-se, contudo, quem pensa que são apenas as indústrias (que consomem grande quantidade de água em seu processo de produção) que podem ingressar na tecnologia de reaproveitamento do efluente.  

É o caso do hospital da Unimed Sorocaba. O prédio, que já foi projetado com duas tubulações diferentes, reutiliza a água em dois departamentos.

Conforme explica a coordenadora socioambiental da Unimed, Patrícia Bezerra da Silva, a água reutilizada no processo de vácuo da autoclave (equipamento de esterilização de instrumentos cirúrgicos) já representa economia de 70%. “Antes, essa água que passava apenas para dar pressão no equipamento era desprezada no esgoto. Há dois anos nós começamos a reutilizar essa água, que não tem contato com nenhuma impureza. Nós apenas repomos água nova quando há perda por evaporação, que é pequena, ou quando há limpeza de manutenção”, explica.

Em outro setor do hospital, acrescenta Patrícia, a água que antes seguiria para o esgoto agora é usada na descarga de vasos sanitários. “Por conta de um processo específico para a hemodiálise, de cada cem metros cúbicos da água usados, apenas 40 são aproveitados. É uma água microbiológica, ultrapura, que tem muitos sais e que não é própria para o consumo, mas que, agora, usamos nos vasos sanitários”, comenta. 

Apenas esse procedimento representa economia de duzentos metros cúbicos de água por mês. “Essa água vai para um reservatório, onde recebe uma pastilha bactericida e que também dá uma coloração azulada à água – que serve para indicar que ela não é potável”. Segundo Patrícia, a água economizada no setor de hemodiálise é tanta que o hospital está estendendo a tubulação para vasos sanitários de outros setores.

De casa à universidade

Além do hospital, o campus Sorocaba da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) também deverá contar com sistema de reuso da água. O prédio já foi projetado e construído com toda a estrutura de tubulações, além de um sistema de distribuição da água de reuso. De acordo com a assessoria de comunicação da Universidade, o funcionamento do sistema apenas aguarda a conclusão de uma estação de tratamento de esgoto no campus, que já foi iniciada pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Sorocaba (Saae).

As chamadas casas inteligentes, projetadas para serem ambientalmente sustentáveis, também tem adotado o sistema de tratamento e reaproveitamento do recurso natural. “Essas casas aproveitam inclusive água da chuva, que vai para uma cisterna e depois é usada para lavagem de carro ou irrigação do jardim”, destaca Toledo. Segundo ele, grande parte dos novos projetos de shoppings e escolas também já possui sistema para reutilização da água. “São de porte menor do que a indústria, mas a lógica (do reuso) é a mesma”, explica.

Patrícia aponta que o investimento em tecnologia para o reuso da água é apenas uma parte de um grande processo de conscientização ambiental e de efetividade de práticas sustentáveis. “A gente tem que pensar nos princípios dos três ‘R’s. Ou seja, antes de falarmos em reutilizar, temos que, repensar no nosso consumo e, em seguida, reduzir”, finaliza.

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