Um “raio-x” da 2ª maior ciclovia do país

Felipe Shikama

Com objetivo de elaborar um diagnóstico detalhado das condições das ciclovias de Sorocaba, a reportagem do Jornal Ipanema percorreu os principais trajetos dos 70 quilômetros de ciclovias de Sorocaba. Até dezembro de 2012, a meta da administração municipal é entregar à população 100 quilômetros de via exclusiva para as “bikes”.

Os trechos mais bonitos e bem conservados, usados por famílias inteiras, principalmente aos finais de semana, são o Parque das Águas e Parque dos Espanhóis, ambos na Zona Leste. Na Zona Sul, o Parque “Carlos Alberto de Souza”, no Campolim, além de ciclistas, também reúne grande número de praticantes da caminhada.

O Parque das Águas, aliás, já virou local obrigatório para os amantes do pedal. Nas manhãs de domingo, o lugar recebe o “Pedala Sorocaba”. Para oferecer maior segurança aos ciclistas, a Urbes realiza bloqueio para o trânsito de veículos motorizados. Além disso, o programa da prefeitura, que acaba de completar três anos, realiza passeios, sorteios, ações recreativas e culturais, sempre tendo como foco principal a importância do uso da bicicleta.

Já ao longo de toda extensão da avenida Itavuvu, importante artéria que liga o Centro a diversos bairros da Zona Norte, a ciclovia que coexiste com movimento intenso de veículos ainda é pouco utilizada. Durante todo o percurso, fora do horário de pico, apenas alguns pedestres trafegam tranquilamente sobre a “calçada vermelha”. Próximo à Unidade Pré-Hospitalar (UPH) da Zona Norte, a ciclovia já está pintada de vermelho, mas aguarda sinalização para o tráfego de bicicletas.

Um dos trajetos mais seguros para pedalar está sob as torres de alta tensão, entre o Jardim Emília e o Portal da Colina. O número de ruas que cruza a ciclovia é pequeno. No entanto, o ciclista deve estar com o condicionamento físico em dia, pois a região é caracterizada por subidas e descidas bastante íngremes.

Também sob as torres de alta tensão, o ciclista encontra uma das melhores vistas da cidade no trecho do bairro Humberto de Campos, na Zona Oeste. A pista que desemboca na avenida Armando Pannunzio, contudo, apresenta nível irregular e falhas de pintura em determinados trechos.

Ciclofaixas

De volta à Zona Norte, descobrimos que a política que prioriza as bicicletas, motivo de orgulho para a cidade, não é uma unanimidade entre os munícipes. “Ficou muito ruim. A gente tem medo de entrar e sair com o carro da garagem de nossa própria casa, porque tem gente que desce a rua de bicicleta com tudo, muito rápido e pode provocar um acidente. Já teve acidente feio por aqui”, comenta uma moradora da rua Paes de Linhares, na Vila Fiori, que não quis se identificar.

As mesmas reclamações são compartilhadas pelo comerciante Marcos Antonio Benites. Segundo ele, além dos riscos de acidentes, a ciclofaixa instalada no lado esquerdo daquela via também prejudicou o comércio local. “Eu tinha uma loja de autopeças aqui (na rua Paes de Linhares), mas depois que fizeram a ciclovia e proibiram o estacionamento de carros, eu perdi quase 90% dos clientes e a loja quebrou. Eu tive de fechar”, reclama.

A ciclofaixa (diferente da ciclovia, pois ocupa uma parte da rua) da Paes de Linhares também é o trecho visitado que apresenta pior estado de conservação. Os moradores alertam que durante os horários de pico, quando o trânsito fica congestionado de carros, alguns motociclistas acabam cortando caminho pela ciclofaixa. “Fica parecendo faixa exclusiva para motos. Isso é muito perigoso, mas infelizmente tem gente que não respeita”, acrescenta Benites.

A única ciclofaixa existente na cidade desagrada os moradores e comerciantes da região, mas, segundo o prefeito Vitor Lippi, foi a única solução encontrada para aumentar a segurança dos ciclistas que transitam entre a Zona Norte e a Zona Industrial. “Eu não diria que é um problema, eu diria que ela é necessária. É natural que quem reclama é quem não usa a bicicleta. Quem usa [bicicleta] agradece, porque esse é um programa que humaniza a cidade, que valoriza o meio ambiente e pensa na sustentabilidade.

Segundo o prefeito, outros pontos da cidade, onde não é possível construir ciclovias, também deverão receber as polêmicas “ciclofaixas”. “Nós reconhecemos que ainda temos dificuldade [de integrar toda malha cicloviária]. Em alguns lugares nós vamos ter que fazer o compartilhamento. No Centro, por exemplo, não é possível colocar as ciclovias separadas do trânsito”, acrescenta.

Calçada vermelha
No Alto da Boa Vista, na avenida Rudolf Dafferner, a ciclovia apresenta característica inusitada. Diferentemente das faixas exclusivas presentes em parques, praças e canteiros, a ciclovia que dá acesso à prefeitura ocupa o espaço da calçada. “Eu acho isso perigoso. Se pedestres e ciclistas ocuparem exatamente o mesmo espaço, alguém pode se machucar”, comenta o vereador Claudemir Justi.

Ciclovia de Sorocaba é a segunda maior do país

Os setenta quilômetros de ciclovia, que interligam os quatro cantos da cidade, coroam Sorocaba com o segundo lugar entre os municípios brasileiros com as maiores malhas cicloviárias do país. Atrás apenas do Rio de Janeiro, a meta da administração municipal é atingir a marca de 100 quilômetros até dezembro de 2012. “No Rio, [a ciclovia] está apenas na orla marítima. Ou seja, ela é muito mais para turismo e lazer do que mobilidade urbana”, pondera o prefeito Vitor Lippi (PSDB). “Sorocaba é a primeira cidade do Brasil que tem um plano diretor de ciclovia. As outras cidades ainda têm projetos muito incipientes”, acrescenta.

O objetivo aparentemente ousado, recebido com ceticismo há alguns anos, deverá ser atingido até o fim deste governo. No momento, a Secretaria de Obras realiza adequações na avenida Armando Pannunzio. Em seguida, de acordo com a prefeitura, serão realizadas vias exclusivas para bicicletas no Parque Paineiras, próximo à área do Mega Plantio, e também na avenida Ipanema, ambas na Zona Norte da cidade. “Com as novas avenidas, do programa ‘Sorocaba Total’, vamos ter mais 15 quilômetros de ciclovia”, detalha o prefeito.

Exemplo seguido
Seguindo o exemplo de Sorocaba, Votorantim também começa a traçar os primeiros quilômetros de ciclovia. A faixa exclusiva para trânsito das “bikes” já existe no final da avenida 31 de março – interligando à ciclovia sorocabana, na avenida Dom Aguirre.

O prefeito de Votorantim, Carlos Augusto Pivetta (PV), destaca que novas ciclovias serão implantadas simultaneamente às “intervenções viárias” realizadas pelo município. “É uma forma de integrar a cidade, do ponto de vista do transporte e, ao mesmo tempo, oferecer uma opção de lazer à população”.

Entusiasta do pedal, Vitor Lippi revela que decidiu implantar as ciclovias em Sorocaba depois de testemunhar a experiência bem sucedida em Bogotá, na Colômbia. A cidade, com 7,2 milhões de habitantes, possui quase 300 quilômetros de ciclovias, que formam a maior rede cicloviária da América Latina. “Quis trazer esse pensamento de cidade educadora, de pensar primeiro nas pessoas e depois nos carros”, relata.

Saúde e longevidade

Recém-eleito vencedor da categoria de “Melhor Blog em Português” do Blog Awards 2011, promovido pela renomada agência de notícias alemã Deutsche Welle, o blog “Vá de Bike” (vadebike.org) reúne informações e notícias aos adeptos da bicicleta como meio de transporte.  Na página virtual, é longa a lista de argumentos que apontam as vantagens em substituir o uso dos carros pelas bicicletas. Saúde e longevidade são apenas alguns deles. “A atividade física regular previne doenças cardíacas, AVCs e hipertensão. Além disso, ajuda a controlar o diabetes, aumenta a resistência aeróbica, reduz a obesidade, ativa a musculatura de todo o corpo e diminui a ocorrência de doenças crônicas”, defendem os cicloativistas.

Além disso, o educador físico Erlon Marum de Freitas, coordenador técnico da equipe de ciclismo Padaria Real/Caloi/Céu Azul Alimentos/Sorocaba, assinala que diversos estudos apontam que o hábito de andar de bicicleta também auxilia na redução da depressão e da ansiedade, “que são as doenças da atualidade”.

Tempo e dinheiro

Professor da Faculdade de Educação Física de Sorocaba (Fefiso), Marum de Freitas acrescenta que os benefícios para quem se locomove de “bike” são percebidos não apenas no aspecto físico. Segundo ele, andar de bicicleta é sinônimo de economia. Tanto de tempo quanto de dinheiro. “Se a distância até o destino for de até cinco quilômetros, o ciclista chega primeiro de bicicleta. Isso acontece em todas as cidades grandes como Sorocaba. Ele ganha tempo”, considera.

O professor detalha que uma bicicleta adequada para o transporte urbano custa cerca de R$ 400,00. “Em apenas três meses, a pessoa que usava ônibus já vai ter reembolsado o custo da bicicleta. Os outros nove meses do ano será lucro”, exemplifica o professor. “Sem falar no fator ecológico, porque a bicicleta não polui. É bom não apenas para a saúde do praticante, mas para a saúde coletiva”, completa.

Bicicletas públicas

Promessa de campanha durante a reeleição, o programa de bicicletas públicas, defendido por Lippi, ainda não saiu do papel. Lippi garante que as bicicletas finalmente serão disponibilizadas à população no segundo semestre deste ano. Segundo ele, a demora para implantação do programa ocorreu porque a prefeitura teve de realizar um “estudo de demanda”, para saber quais os locais são mais usados pelos ciclistas. “Deveremos começar com 12 pontos que deverão ter a maior procura”, afirma.

Sem revelar detalhes, Lippi acrescenta que o serviço será oferecido por uma empresa terceirizada, por meio de “concessão onerosa de serviço público”. “Não posso falar, mas será um projeto que será inovador no Brasil”, esquiva-se o chefe do Executivo.

Aumento gradativo

Lippi reconhece que ainda são poucos ciclistas que usufruem das ciclovias da cidade. Otimista, Lippi acredita que o aumento do número de sorocabanos que trocarão o uso do carro por bicicletas depende apenas de uma questão de tempo. “O processo aqui é muito recente, se compararmos a determinadas cidades da Europa como Amsterdã, por exemplo. O número de ciclistas aos finais de semana está ampliando, o que já é um bom sinal. Aos poucos [os sorocabanos] eles estão se habituando”, avalia.

Marum de Freitas concorda com a visão do prefeito ciclista, que com frequência participa das edições do Pedala Sorocaba. Segundo ele, as vendas de bicicleta na cidade representaram aumento de 30% nos últimos três anos. “O uso das bicicletas nas grandes cidades é uma tendência mundial, mas acho que aqui [em Sorocaba] está caminhando em um ritmo mais acelerado que outros locais”.

Para o professor universitário que criou e há três anos leciona a disciplina de “Educação sobre Bicicleta”, o aumento do número de adeptos da bicicleta, como alternativa para a mobilidade urbana, só não é maior porque grande parte das empresas ainda não oferece bicicletários, chuveiros e vestiários aos seus funcionários.

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