Oxi: mais devastadora [e barata] que o crack

Reportagem publicada no dia 14 de março de 2011, no Jornal Ipanema.

Felipe Shikama

Um novo vilão, ainda mais devastador, entrou em cena no árduo combate contra as drogas. Derivada da cocaína, o oxi (do termo “oxidado”), como já é chamado, segundo especialistas, é mais letal e viciante que o crack. “A toxidade é enorme e ele é muito mais barato [que o crack], alerta o psiquiatra Thirso Ramos Filho.

Enquanto que a pedra de crack é vendida entre R$ 7,00 e $ 10,00, a oxi varia de R$ 2,00 a R$ 5,00. “O advento desta nova droga poderá trazer problemas seríssimos à sociedade”, completa.

Comum em alguns estados brasileiros, como o Acre, a droga já chegou a São Paulo. Na terça-feira (10), o Departamento de Narcóticos de São Paulo (Denarc) anunciou a apreensão de mil papelotes da droga. Uma mulher, suspeita por tráfico dos entorpecentes, foi detida.

“O crack tem 40% [de concentração] de cocaína e é misturado com bicarbonato de sódio, o que fica mais caro. Já o oxi é misturado com cal virgem, querosene, gasolina e até água de bateria [de carro]. Quer dizer, muda alguns diluentes, fica mais barato e a concentração de cocaína que era de 40% vai para 80%”, detalha o psicanalista e psicólogo Manlio Mateus Móra.

Móra acrescenta que, os efeitos nocivos da nova droga são enormes. “É uma droga que vicia muito rápido e, além de provocar envelhecimento precoce e perda dos dentes, compromete todo o sistema digestivo. É uma droga que mata o dependente em apenas dois anos”, relata.

A psicóloga Eneri Lobo Móra, que trabalha na recuperação de dependentes químicos, conta que, além de ser mais devastador que o crack, o oxi provoca dependência ainda maior. “A duração do efeito da pedra é menor [que o crack]. Dura cerca de cinco minutos, então, quando acaba o efeito, ele [dependente] já vai em busca de novo da mesma sensação”.

O diretor do Centro de Detenção Provisória de Sorocaba, Márcio Coutinho, conta que, no município, ainda não houve prisões de acusados de tráfico da nova droga. “Mas a gente parte do mesmo patamar que o crack que, conforme a experiência nos mostrou, foi um divisor de águas no sistema prisional paulista”.

Continho explica que sem o uso de entorpecentes, o ser humano racionaliza a lógica e o discernimento. “’E vou matar alguém, e vou preso’, isso é causa e efeito. Já o indivíduo que usa entorpecente perde o medo [de matar] e isso aumentou o número de homicídios”, acrescenta.

Recuperação improvável

Ramos Filho teme que o oxi, assim como o crack, se alastre rapidamente por todo o país. “Com certeza, o traficante podendo vender mais, ele vai vender mais”.

Por conta do altíssimo poder de dependência, Manlio Móra é pouco otimista quando o assunto é a recuperação do vício. “A recuperação dessas pessoas é improvável. A palavra é essa: improvável. Com toda medicação, com toda terapia e todo apoio de narcóticos anônimos, a recuperação é improvável”, considera.

Alvos mais jovens

Embora ainda existam poucos estudos sobre os efeitos do oxi, sabe-se que a capacidade de devastação do organismo é alta, bem como a taxa de mortalidade de seus dependentes. Com menos dependentes, a tendência é de que os traficantes intensifiquem a oferta da droga a pessoas cada vez mais jovens. “Eles [traficantes] precisam de novos usuários, senão o negócio acaba”, diz Eneri.

Para evitar a dependência de consumidores mais novos, ela orienta pais e responsáveis a se atentaram a qualquer tipo de mudança do comportamento de crianças e adolescentes. “Pode não ser [envolvimento com drogas], mas também pode ser o começo. Os pais devem ficar atentos a qualquer mudança de comportamento, para mais ou para menos. Se está escondendo a mochila, a roupa, enfim. Há casos que o adolescente, pelo sentimento de culpa, fica até mais amoroso com os familiares. Tudo isso deve ser observado para que as providências sejam tomadas, porque, se descobrir tarde, o problema será ainda maior”, conclui.

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