Retrocessos em nome da governabilidade

Por Felipe Shikama

Em nome da “governabilidade” vale atropelar afirmação dos direitos humanos e derrubar as florestas? Fiz esta pergunta, cuja resposta é aparentemente óbvia, em meu Twitter. Nem lá tive resposta. Apenas “retweets”. Otimista, creio que quem compartilhou do meu questionamento também compartilhe da resposta – a mesma que qualquer criança imediatamente responderia:  – é claro que não.

Dizem as raposas políticas, contudo, que política não é para crianças. Dizem ainda, os velhos de janela, que na política nem tudo o que parece é. E às vezes, o que efetivamente é, parece não ser…

Na quarta-feira (24), a Câmara Federal aprovou  a reforma o Código Florestal. Uma vitória da bancada ruralista contra a preservação ambiental. A decisão contou com o apoio de grande parte da bancada governista. Entre eles, unanimidade da bancada comunista trangênica do PC do B e 45 dos 80 petistas. Em seguida, foi aprovada a concessão de anistia aos produtores que desmataram Áreas de Preservação Permanente às margens de rios e encostas até 2008.

No dia seguinte, o governo decidiu suspender a produção do kit contra a homofobia. O material seria distribuído pelo MEC nas escolas públicas. Segundo a imprensa, a decisão foi tomada depois que deputados religiosos ameaçaram apoiar propostas que prejudicariam o governo. Entre elas, a convocação do ministro Palocci, sob suspeita de enriquecimento ilícito.

 Como lembra o blogueiro progressita Sérgio Domingues, do Rio de Janeiro, nada disso deveria surpreender. “Durante a campanha eleitoral, Dilma foi alvo de ataques da extrema direita. Entre outras coisas, era acusada de ser a favor do casamento gay e do aborto. A campanha petista respondeu com medrosos desmentidos. Recuos vergonhosos em relação ao combate à homofobia e aos direitos das mulheres”.

Alguns petistas consideraram uma “vergonha” a chantagem estabelecida pelas bancadas católicas e evangélicas da Câmara. Concordo, mas acrescento. É vergonha maior o governo ter topado a barganha – cartilha anti-homofobia X caso Pallocci – em nome da governabilidade.

E tudo indica que novas vitórias dos conservadores – de dento e fora do governo – virão. Rifar direitos e dasmatar florstas não é apenas “um preço caro” que se paga, em nome da “governabilidade” de Dilma. A afirmação dos direitos humanos – do respeito às diversidades – e a defesa de modelos de produção mais sustentáveis e justos devem ser valores inegociáveis. Pena que o governo, em nome dele mesmo, não pense desta forma.

Anúncios

Um comentário sobre “Retrocessos em nome da governabilidade

  1. Eu entendo o questionamento. Mas acredito que a equação é um pouco mais complexa Felipe. Acomodar democraticamente interesses diversos e por vezes conflitantes faz parte da democracia, de modo que fica impossível agradar a todos o tempo todo. No caso do “kit anti-homofobia”, por exemplo, não se viu, necessariamente, um retrocesso, visto que a cartilha, em si, não outorga qualquer direito.
    E, do ponto de vista prático, será que é possível, num país de dimensões como as deste, mudar perspectivas com a exibição de um vídeo?
    E as diversas sensibilidades individuais, anacrônicas ou não, como ficam? O projeto de uma sociedade pluralista está além deste caso específico e deve ser um projeto de longo prazo ou corre o risco de se tornar, ele próprio, anacrônico e deslocado.
    O caso do código florestal é tanto mais grave, mas daí voltaríamos a falar do modelo eleitoral, que é em si, o defeito mais grave da representatividade.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s