Não foi justiça, foi barbárie

Por Felipe Shikama

A manchete do Bom Dia desta sexta-feira, dia 10, traz uma das notícias mais tristes e perturbadoras que já li nos últimos tempos. Intitulado “População faz justiça com as próprias mãos“, a matéria da repórter Adriane Souza relata que populares roubaram, espancaram e atearam fogo em um pedreiro suspeito de estuprar a enteada de 11 anos.

É perturbador e triste, por si só, o abuso sexual infantil. Nesse caso, supostamente praticado por pessoa próxima da vítima e, segundo a reportagem, “com o conhecimento” da mãe.

Em 2009, um levantamento realizado pelo Projeto de Apoio à Cidadania e à Infância (Pacin) aponta que 79% dos agressores eram conhecidos das vítimas e apenas 21% dos casos de violência sexual envolviam estranhos. Ou seja, a violência sexual, na maioria dos casos, é praticada por pessoa que tem “confiança” da criança ou adolescente.

Tão perturbador quanto o abuso, em minha opinião, é que os moradores do Jardim Guadalupe – não identificados na reportagem e, pelo menos por enquanto, ainda não detidos pela polícia –, segundo o jornal, “fizeram justiça com as próprias mãos”.

Sei que é nessa hora, de fúria e revolta, grande parcela da sociedade dá respaldo à ação violenta do bando, julgando o ato como “justificável”. Não tenho dúvidas que muitas pessoas, assim como os agressores, motivadas pelo espírito animalesco, ainda vão lamentar o fato de o suposto estuprador não ter sido morto com requintes de crueldade.

Esse “respaldo” que a sociedade frequentemente dá ao grupo de agressores do pedreiro é basicamente o mesmo que ora defende a redução da idade penal e ora reivindica a implantação da pena de morte no país.

O curioso é que muita gente, ainda que evite expressar essa opinião, tem essa noção de “justiça”. De pedreiros a delegados, de jornalistas a advogados.

Ao mesmo tempo, a compreensão que essas pessoas têm sobre direitos humanos é aquela, profunda como um pires, de que “é direito de bandido” e certamente, raivosos, vão me dizer ao brilhante argumento: – tá com dó do estuprador, leve ele para casa.

Não tomo essas linhas para defender o suspeito agredido, tampouco para criminalizar os supostos agressores. Escrevo aqui, sob pena de ganhar muitos inimigos, para defender a noção que eu compreendo como justiça.

Por que os vizinhos que, segundo a reportagem, cientes do abuso e indignados não chamaram a polícia? Por que os mesmo vizinhos não expressaram indignação com a mãe da criança que, segundo a reportagem, sabia da ocorrência dos abusos? Por que, após a agressão ao pedreiro, a polícia (por enquanto?) não identificou o grupo?

Enfim, existe uma série de questões a serem respondidas que, porém, não me deixam dúvidas: o que se fez não foi justiça, foi barbárie. A notícia apenas demonstra que estamos muito longe de chegar num patamar razoável de civilidade, tanto na garantia dos direitos da criança e de todos os seres humanos. Afinal, a “justiça do talião” tem apoio da sociedade, desde que ela mesma não seja a vítima.

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